Salman Rushdie estará em Portugal no final de setembro

O livro que Salman Rushdie, um dos escritores britânicos mais conhecidos dos últimos tempos, prometeu escrever depois do ataque que sofreu em agosto de 2022, que fez com que perdesse um olho e sofresse danos nos nervos da mão, está a chegar a Portugal, depois de ter sido lançado em vários países em abril. Desde o dia 14 de maio que os portugueses tem acesso aos relatos em primeira mão do dia em que Salman Rushdie, de agora 76 anos, foi atacado, e quase morto, por um jovem com uma faca.

Agora há o anúncio de que Rushdie estará no Porto no final de setembro a convite da Livraria Lello a participar de evento especial. O atentado que o escritor sofreu é a matéria prima que dá nome a este novo livro, “Faca, Meditações na Sequência de uma Tentativa de Homicídio”. O escritor conta a história do dia 12 de agosto de 2022, uma sexta-feira que parecia banal quando, já no palco pronto para iniciar uma palestra em Nova Iorque, EUA, é esfaqueado 15 vezes por um jovem norte-americano de origem libanesa. 

Na altura, o agente do escritor, Andrew Wylie, falou com a imprensa acerca do estado de saúde do escritor e revelou que este ia perder um olho, assim como ia sofrer danos nos nervos do braço e no fígado, segundo o jornal “Observador”.

O suspeito do ataque, Hadi Matar, um homem de 24 anos, foi a tribunal no dia seguinte, declarando-se inocente. No entanto, segundo a Comunidade de Cultura e Arte, Hadi Matar era suspeito de ser simpatizante da República Islâmica do Irão, país que ofereceu uma recompensa de três milhões de dólares a quem assassinasse o escritor, de acordo com o “Observador”. 

Isto porque, em 1988, Salman Rushdie publicou a obra “Os Versículos Satânicos”, uma história que se passa na Índia e em Inglaterra e acompanha as aventuras de duas personagens que sobrevivem a um ataque terrorista à bomba durante uma viagem de avião. Apesar de ter sido muito bem recebida pela crítica, no Irão, no entanto, a reação foi muito mais violenta, e Khomeini, Líder Supremo do Irão, lançou uma fatwa (um decreto religioso islâmico) condenando o escritor à morte.

  • com informações de várias agências de notícias

Conto – “De Presión” em espanhol

De Presión

Dijo que ese invierno se acercó más a ella que nunca. Durante muchos años, la acosó enviándole mensajes y señales. El ardor al que se había entregado no le permitía pensar en otra cosa. Ni siquiera el amanecer que lo había encantado desde que era un niño ya no le interesaba. Doca se había perdido en el valle frío y húmedo de la apatía y la soledad. Sus amigos lo perdieron de vista a lo largo de los años, y él los negó porque ya no tenía ganas de estar con estos felices, dijo. Era un caso sin solución a la vista, un camino que lo llevó a un precipicio. Pero Doca no escuchó sus gritos, prefiriendo su presencia a rodearlo de seducción.

De hecho, caminó kilómetros ocultando sus sentimientos. Desde que era un niño, he querido amor. Anhelaba el amor. Era amor puro hasta el punto de darse a sí mismo. Poco a poco, la desesperanza se apoderó de él, y cambió recibir algo de cariño por dar todo su calor a alguien. Cambió el deseo de ser amado por entregarse enteramente a las mujeres, luego a su esposa e hijos. Tres hombres hermosos que los acontecimientos de una vida loca y traicionera hicieron que le quitaran. Entonces se sintió solo. Las botellas eran compañeras perfectas. Pasaban las horas, la vida se alargaba y Doca se sentía como si estuviera a un toque de distancia.

Se negó a ser un paria. Quería ser grande, creía en la gente. Yo mismo lo he visto tantas veces gastar su oído para recibir los lloriqueos de los demás. Nunca hablaba de sí mismo. Doca quería amor, pero el desacuerdo entre ellos lo enfermó. El alma juvenil lo aligeraba, y ella, a quien ya admiraba, lo arrinconó como una serpiente al acecho. Y así descendió al centro de la tierra de la desilusión. Justo cuando se acerca peligrosamente, ¡he aquí que aparece la hembra prometida! Un ser luminoso y cálido, la mujer que en un instante lo sacó al aire libre.

Doca recuperó entonces la vitalidad, la fuerza, el camino que lo llevó a las llanuras y mesetas del amor. Se sumergió en el mar de las emociones perdidas, se refrescó y amó como si no hubiera un mañana. Nacieron nuevos sueños, tal vez nuevos logros por realizar. Y nuestro muchacho se fue a rendirse. Pero entonces, de la nada, se acercó subrepticiamente a él con el nombre de De Press. Fue con maestría que creó fisuras, trajo tormentas, huracanes y truenos a la vida de mi amigo. Lentamente, soltó las manos de la esperanza y descendió de nuevo a las profundidades del dolor irracional. Y solo se detuvo cuando sintió que su cuerpo físico se debilitaba, derrotado.

En ese día difícil, literalmente se quebró. En la cama, perder el habla, fruncir la lengua. Sin mover los brazos y las piernas, pensando paralizado, ¿qué hice? A partir de entonces, Doca fue a cumplir su calvario. Postrado en cama por el golpe, ora aquí, ora allá, cayó en manos duras pero poderosas, dándole todo el amor que le pedía a Dios. De cama en cama, se fue a vivir el dolor que había estado buscando toda su vida. Aquellos hombres y mujeres que lo cambiaron, lo bañaron, le enseñaron a sentarse, a mover sus dedos, sus manos, sus brazos, eran como ángeles que componían el hombre nuevo que renacía allí. El dolor supremo que tanto buscaba lo haría convertirse en un hombre nuevo.

Se emociona cuando me cuenta, por enésima vez, sobre su entrenamiento en fisioterapia, cómo se limpió, cómo volvió a aprender a recoger los cubiertos y alimentarse solo. Y lloró al verse de pie, luego en equilibrio y dando pequeños pasos ayudado por tanta gente. Doca es así, un hombre vivaz que ha recuperado su alegría juvenil después de haber distorsionado su mirada por el frío De Pression. Un café benéfico nos une, Doca y yo, una simbiosis perfecta de personajes únicos. Ha sido así durante años, y así será. Café, conversaciones, amistad.

Por Salvador Neto, Portugal, 14 de abril de 2024

Conto – “De Pression”

Ele contava que naquele inverno chegou mais perto dela do que nunca. Durante muitos anos à assediava a mandar mensagens e sinais. O ardor a que se tinha entregado não o deixava pensar em mais nada. Nem o nascer do sol que o encantava desde menino já não o interessava. Dóca havia se perdido no vale frio e úmido da apatia e solidão. Os amigos o perderam de vista ao longo dos anos, e ele os negava porque não sentia mais vontade de estar ao lado destes felizes, dizia ele. Era um caso sem solução à vista, um caminho que o carregava a um precipício. Mas ele não ouvia os gritos, preferia a presença dela a cercá-lo de sedução.

Na verdade, ele andou por léguas a esconder seus sentimentos. Desde menino queria o amor. Desejava o amor. Ele era puro amor a ponto de se dar de todo. Aos poucos a desesperança o assolava, e ele trocava o receber algum carinho por dar todo o seu calor a alguém. Trocou o desejo de ser amado por se doar inteiro a mulheres, depois esposa e filhos. Três homens belos que os acontecimentos de uma vida louca e traiçoeira se fizeram afastar dele. Assim, se tornou solitário. As garrafas eram companhias perfeitas. As horas passavam, a vida se arrastava e Doca sentia que ela estava a um toque.

Ele recusava-se a ser um marginal. Queria ser grande, acreditava nas pessoas. Eu mesmo o vi tantas vezes gastar seu ouvido a acolher as lamurias de outros. Nunca falou de si. Dóca queria o amor, mas o desencontro entre ambos o adoecia. A alma de menino o fazia leve, e ela, a quem já admirava, o enlaçava como uma cobra à espreita. E assim foi descendo ao centro da terra das desilusões. Ao se aproximar perigosamente, eis que surge a fêmea prometida! Um ser luminoso e quente, a mulher que a um olhar o puxou para o ar puro.

Dóca então retomou o viço, a força, o caminho que o levava para as planícies e planaltos do amor. Mergulhou no mar das emoções perdidas, e se refrescou, e amou como se não existisse amanhã. Novos sonhos nasceram, quem sabe novas conquistas a realizar. E foi-se o nosso menino a se entregar. Mas então do nada ela, chamava-se De Pression, sorrateiramente reaproximou dele. Foi com mestria que criou fissuras, trouxe tempestades, furacões e trovões à vida de meu amigo. Lentamente ele largou as mãos da esperança e voltou a descer nas profundezas da dor irracional. E só parou ao sentir seu corpo físico fraquejar, derrotado.

Naquele duro dia ele literalmente desabou. Na cama, a perder a fala, enrolar a língua. A não mexer braços e pernas, paralisado a pensar, o que eu fiz? A partir de então Dóca foi cumprir o seu calvário. Acamado pelo AVC, ora aqui, ora acola, caiu em mãos duras, mas poderosas, a dar-lhe todo o amor que pediu a Deus. De leito em leito foi viver a dor que procurou a vida inteira. Aqueles homens e mulheres que lhe trocavam, banhavam, ensinavam-lhe a sentar, mexer seus dedos, mãos, braços, eram como anjos a compor o novo homem que renascia ali. A dor suprema que tanto buscou o faria se tornar um novo homem.

Ele se exalta ao contar-me, pela enésima vez, dos treinos de fisioterapia, como o limpavam, de como reaprendeu a pegar em talheres e se alimentar sozinho. E chorou ao rever-se de pé, depois equilibrado e dando pequenos passos ajudado por tanta gente. Dóca é assim, um empolgado homem que retomou a alegria de menino após ter deturpado o seu olhar pela fria De Pression. Um café caridoso nos une, eu e Dóca, perfeita simbiose de personas únicas. É assim há anos, e assim o será. Café, conversas, amizade.

  • por Salvador Neto, Portugal, em 14 de abril de 2024

94ª Feira do Livro de Lisboa começa dia 29 de maio

A próxima Feira do Livro de Lisboa, a 94ª, acontecerá entre 29 de maio e 16 de junho de 2024 no Parque Eduardo VII. Este evento congrega editores, livreiros e leitores, representando uma oportunidade singular para descobrir novas narrativas, conhecer autores inspiradores e festejar a diversidade da cultura literária. Restam somente 14 dias para o começo desta edição, que promete proporcionar mais jornadas de descoberta literária e encontros culturais inesquecíveis.

Os destaques da Feira do Livro de Lisboa deste ano são variados e prometem agradar a todos os amantes da literatura. Aqui estão alguns dos pontos altos:

  1. Autores em Destaque: A feira contará com a presença de autores nacionais e internacionais, oferecendo sessões de autógrafos, palestras e debates. Fique atento à programação para saber quais autores estarão presentes.
  2. Lançamentos Literários: Editoras e escritores aproveitam a feira para lançar novos livros. Você terá a oportunidade de descobrir as últimas obras e adquirir exemplares autografados.
  3. Espaços Temáticos: A feira terá áreas dedicadas a diferentes gêneros literários, como ficção, poesia, não ficção e infantojuvenil. Explore esses espaços para encontrar livros que correspondam aos seus interesses.
  4. Atividades Culturais: Além da venda de livros, haverá apresentações musicais, exposições de arte e performances culturais. Aproveite para mergulhar na atmosfera criativa.
  5. Gastronomia: A feira também oferece opções gastronômicas, como cafés e food trucks. Desfrute de uma pausa entre as compras de livros.

Lembre-se de verificar a programação completa para não perder nenhum evento especial durante a Feira do Livro. Os horários de funcionamento da Feira do Livro de Lisboa variam ao longo dos dias. Geralmente, a feira abre às 10h00 e fecha às 22h00.

No entanto, é sempre bom verificar o site oficial ou a programação específica para confirmar os horários exatos em cada dia. Aproveite a feira e mergulhe na magia dos livros! Para maiores informações acesse: https://feiradolivrodelisboa.pt/.

Poesia de Segunda – “Esqueço”

Esqueço, porque preciso esquecer
Para viver

Não há razões que nos façam
Âncoras

Esqueço, porque lembrar faz
Tempestades

Há espelhos para enxergar
O que senti

Esqueço, mas lembro de
Ser bom

Viajo por memórias infalíveis
Vivo a voar

Esqueço, esqueci, esquecerei
Para viver.

* por Salvador Neto, Portugal, 18mar2024

English

Forget

I forget because I need to forget
To live

There are no reasons that make us
Anchors

I forget because remembering creates
Storms

There are mirrors to see
What I felt

I forget, but I remember
Being good

I travel through infallible memories
Living while flying

I forget, I forgot, I will forget
To live.

  • by Salvador Neto, Portugal, March 18, 2024

#poetry #poems #literature #forgetting #Portugal #PortugueseLiterature

Spanish

Olvido

Olvido porque necesito olvidar
Para vivir

No hay razones que nos hagan
Anclas

Olvido porque recordar crea
Tormentas

Hay espejos para ver
Lo que sentí

Olvido, pero recuerdo
Ser bueno

Viajo a través de memorias infalibles
Viviendo mientras vuelo

Olvido, olvidé, olvidaré
Para vivir.

  • por Salvador Neto, Portugal, 18 de marzo de 2024

#poesía #poemas #literatura #olvidar #Portugal #literaturaportuguesa

French

Oublier

J’oublie parce que j’ai besoin d’oublier
Pour vivre

Il n’y a pas de raisons qui nous fassent
Ancres

J’oublie parce que se souvenir crée
Des tempêtes

Il y a des miroirs pour voir
Ce que j’ai ressenti

J’oublie, mais je me souviens
D’être bon

Je voyage à travers des souvenirs infaillibles
Vivant en volant

J’oublie, j’ai oublié, j’oublierai
Pour vivre.

  • par Salvador Neto, Portugal, 18 mars 2024

#poésie #poèmes #littérature #oublier #Portugal #littératureportugaise

Una Crónica – “Rayitas, Milú y Eufemia” – em espanhol europeu

Era un hermoso día soleado después de unos días fríos y lluviosos. Estas oportunidades ni yo ni Bastião perdimos. Mi compañero de caminatas es inseparable. No admite que salga por las pequeñas calles europeas a pasear solo. Un verdadero amigo es así. No hay forma de decir no. Nuestro plan era ir a la biblioteca, pasear por el jardín del amor y disfrutar de un abatanado, ¿quién sabe con un generoso trozo de pastel? Casi funcionó. 

Digo casi porque faltó sentarme en la mesita de la pastelería y disfrutar del café negro básico. Mi error, si puedo decirlo así, amigo lector, fue detenerme al sol y abandonarme al banco somnoliento que me hacía guiños, amigo lector. Estaba observando el movimiento cuando una señora se acercó a mi banco. Sí, el mío, porque allí estaba totalmente a cargo, no solo yo, sino también Bastião. Aun así, ella se acercó. Miró alrededor, habló con un gato en la calle y se fue. 

Bien, estábamos escuchando el bullicio de los niños de las escuelas pasar cuando ella, la señora, regresó ahora con un paquete en la mano. Extrañamente hablaba sola. Entonces abrió la bolsa y sacó de ella un paquete amarillo. Miraba la valla viva que había detrás de mi banco y murmuraba. La valla viva se aferraba a una valla muerta de hierro que protegía una antigua y abandonada mansión. Comenzó a realizar una especie de alquimia que era como música para los gatos. Comida, pienso seco. 

Bastião no se movía, pero yo la observaba, y a los gatos que se iban acercando y arropándola. No pude resistir a esta interesante acción y solté una frase al viento que, en ese momento, parecía ampliar su poder: – Van a saciar su hambre. Y la señora Eufemia, que así se llamaba, respondió: – Oh sí, siempre traigo, pero están delgados, feos. Las otras traen comida barata, no ayuda a que estén bonitos. Luego siguió un largo relato sobre un equipo de gente que alimenta a esos gatos. 

Agudicé el oído para escuchar a Eufemia. Lo había estado haciendo durante años, mezclaba la comida en una bolsa que escondía entre la valla viva. Las otras voluntarias venían, cada una en su día, y se turnaban para darle de comer a los gatitos. – ¿Tiene algún gato en casa?, le pregunté. Con cierta amargura, me dijo que sí, tuvo dos. ¿Tuvo? – Sí, murieron. – Lo siento, qué pena. Uno de ellos era gris, con rayas blancas, le puse el nombre de Rayitas, me contó la benefactora. Rayitas, era cierto. 

La historia de amor entre ella y Rayitas era conmovedora. El gato parecía un bebé, al que abrazaba y besaba, gordo y peludo. Pero enfermó de los riñones, se consumió y se despidió de ella un día antes de morir. Noté la tristeza húmeda en sus ojos. Menos mal que el sol estaba allí para secar las tristezas. No podía permitir que Eufemia se deprimiera. Solté: – ¿Tienes otros gatos ahora? Para sorpresa del narrador de esta historia, ella dijo: – No, ahora tengo una perrita, ¡Milú! Una sonrisa se abrió. 

Su hija le había regalado un bulldog francés para que su madre se viera obligada a salir de casa. Así que Eufemia salía ahora con Milú todos los días. Aparentemente, el calor de la alegría había regresado, y ella ahora conservaba a Rayitas solo en los buenos recuerdos. Rayitas se fue, Milú llegó y le hacía compañía. Nos despedimos, Eufemia se fue. En cuanto a mí, me quedé sin café con pastel, sin el calor del sol, pero con el corazón caldeado por la hermosa historia de amor. Eufemia, los gatos, Milú y Rayitas. 

Por Salvador Neto, Portugal, 30 de abril de 2024. 

Uma Crônica – “Eufêmia, Riscadinho e Milú”

Era um belo dia de sol após alguns dias frios e chuvosos. Essas oportunidades nem eu, e tampouco Bastião, perdemos. Meu parceiro de caminhadas é inseparável. Ele não admite que eu saia pelas pequenas ruas europeias a saracotear sozinho. Amigo de verdade é assim. Não tem como dizer não. Nosso plano era ir à biblioteca, passar pelo jardim do amor e bebericar um abatanado, quem sabe com um generoso bolo?  Quase deu certo. 

Digo quase por ter faltado o sentar na mesinha da pastelaria e saborear o pretinho básico. Meu erro, se posso assim dizer-lhe amigo leitor, foi dar uma parada ao sol, e abandonar-me ao banco sonolento que piscava para mim, amigo leitor. Estava a verificar o movimento quando uma senhora veio em direção ao meu banco. Sim, meu, pois lá estava totalmente senhor dele, não só eu como Bastião. Mesmo assim ela se aproximou. Olhou a volta, conversou com um gato a rua e se foi.  

Pois bem, estávamos a ouvir a algazarra dos miúdos das escolas a passar quando ela, a senhora, retornou agora com um pacote a mão. Estranhamente falava sozinha. Abriu então a sacola e tirou lá de dentro um pacote amarelo. Olhava para a cerca viva que ficava por detrás do meu banco e cochichava. A cerca viva agarrava-se a uma cerca morta, de ferro, que protegia um casarão antigo e abandonado. Começou a realizar uma alquimia que era uma música para os gatos. Comida, ração seca. 

Bastião não se mexia, mas eu a observava, e aos gatos que foram se achegando e aconchegando a ela. Não resisti a essa interessante ação e joguei uma frase ao vento que, àquela hora ampliava seu poder: – Eles vão matar a fome. E a senhora Eufemia, era o nome dela, respondeu: – Oh sim, eu sempre trago, mas eles estão magrinhos, pelo feio. As outras trazem comida barata, não ajuda a ficarem bonitos. Aí seguiu-se um longo relato sobre um revezamento de gente que alimenta aqueles gatos. 

Agucei os ouvidos a escutar Eufemia. Fazia isso há anos, misturava a comida em uma sacola que escondia em meio a cerca viva. As outras voluntarias vinham, cada uma a seu dia, e revezavam-se em dar alimento aos gatinhos. – A senhora tem algum em sua casa, perguntei. Com certa amargura disse-me que sim, teve dois. Teve? – Sim, eles morreram. – Peço desculpas, que pena. Um deles era cinza, com riscas brancas, eu dei-lhe o nome de Riscadinho, contou-me a benfeitora. Riscadinho, era mesmo. 

A história de amor entre ela e Riscadinho era comovente. O gato parecia um bebê, que abraçava e a beijava, gordo e peludo. Mas ficou doente dos rins, definhou, e se despediu dela um dia antes de morrer. Notei a tristeza úmida em seus olhos. Ainda bem que o sol ali estava a secar tristezas. Não podia deixar eufemia deprimida. Lasquei: – Tens outros gatos agora? Para a surpresa do vivente que lhes conta a história, ela diz: – Não, agora tenho uma cachorrinha, a Milú! Um sorriso se abriu. 

A sua filha a havia presenteado com a buldogue francês para que a mãe se obrigasse a sair de casa. Eufemia, portanto, saia agora com Milu todos os dias. Pelo visto o calor da alegria voltou, e ela agora mantem o riscadinho somente nas boas memorias. Riscadinho se foi, Milu chegou e faz-lhe companhia. Nos despedimos, lá se foi Eufemia. Quanto a mim fiquei sem o café com bolo, sem o calor do sol, mas com o coração aquecido pela bela história de amor. Eufemia, os gatos, Milu e Riscadinho.  

  • Por Salvador Neto, Portugal, em 30 de abril de 2024 

Suas cinzas vão florescer mãe…

Nós plantamos suas cinzas. Na floresta, em meio às árvores, sol e ar puro. Simbolizamos assim o que a senhora foi para nós e muitas pessoas. Humana, solidária, amorosa, e sempre a construir, ajudar, a florescer pessoas, crianças, jovens. Professora e educadora eterna.

Eu Gi Rabello cumprimos assim uma missão, uma cerimônia respeitosa a quem nos deu tanto amor, força, sabedoria e conselhos. Na paz escolhemos um local, e uma pequena árvore a representar a continuidade do que a senhora representou. Suas cinzas também se espalharam pelos ares.

Gratidão sempre dona Isolde, minha mãe, sogra, avó, esposa, uma mulher extraordinária, à frente do seu tempo. Para sempre lhe amaremos…

#amor#respeito#IsoldedaCosta#vida#cinzas

Pois cheguei para ficar

Pois cheguei, e para ficar. Neste horário estava a almoçar com os queridos João Morais e Daiane Baú meus anfitriões no primeiro dia de Europa. E foram eles a levarem-me ao primeiro pequeno almoço no original Pastéis de Belém, um luxo não? Obrigado queridos!

Depois fui à minha primeira residência em Lisboa, um quarto em apartamento próximo ao Mirante da Graça e a estação de Santa Apolonia. Passei a pisar aquelas ruas milenares, metros, elétricos, autocarros, e caminhar, muito! Subi e desci muitas ladeiras, passei no Terreiro do Paço, Praça do Comércio, rua Augusta, Rossio, Chiado.

Assisti fado ao vivo em Alfama, me atirei em meio aos livros da mais antiga do mundo, a Bertrand. O Parque Eduardo VII é uma pintura, e a Avenida da Liberdade é a morada das grandes marcas mundiais.

Passeei no Shopping Vasco da Gama, no Colombo, vi o estádio do Benfica. Estiquei o passo e cheguei a Cascais de comboio. Sintra e seus encantos viram-me ficar embevecido.

Vinhos, brancos e tintos em profusão. Super Bock e Sagres então, em copos ou mini garrafas. O Castelo de São Jorge e sua vista fabulosa da linda capital de Portugal. Ufa!

E as vivências seguiram pelo distrito de Leiria, e continuam. Foram já dois anos, e tenho muito a fazer e conhecer por aqui. Quis partilhar esse marco para motivar a quem pensa não ser possível viver em outro país que não o seu. É possível.

Gratidão por tudo e tanto! Vamos em frente que a vida pede coragem.

#Lisboa#Portugal#Espanha#Europa#viverfora#caminhar#viver#explorar

Há dois anos mudei…

  • Dia 5 eu embarquei, dia 6 eu cheguei. Sim, há dois anos exatamente eu encarava um oceano, pelas alturas claro, a partir de Florianópolis e pisava em terra firme.

    Primeira parada, Madrid, segunda, Lisboa. Começava assim mais uma realização de um sonho, viver na Europa. Nestes 730 dias, 2 anos e algumas horas neste momento, tudo foi extremamente vivido.

    Foram momentos mágicos, durante um ano. No outro que estamos a viver, passei muitas horas deitado em cama de hospitais e em recuperação. Perdi renda, perdi a pessoa mais importante da minha vida, minha mãe, e quase perdi a vida. Mas também ganhei.

    Aprendi a me amar, mudei radicalmente como homem, ser humano, e me lancei a novos projetos. Salvador Neto nunca se dá por vencido, mesmo com pedras, e perdas, no caminho.

    Celebro estes dois anos com muita gratidão e alegria. Tenho muita saudade dos amigos e amigas de verdade, mas sei que o tempo voa! Vamos viver, e fazer valer a existência. Eu vou, e você? Bora!

    #vida #AVC #resiliência #perseverança #Europa