Um desapego doloroso…

Olá leitores do Palavra Livre, estamos começando 2022 por aqui, e já escolhi um tema para o primeiro post, o desapego. Quem nunca teve que “deixar” algo que gosta para trás porque não teria como seguir com o objeto, a pessoa, a roupa, etc, para o novo lugar? Muita gente não é? Comigo vai acontecer o mesmo. Um desapego muito doloroso porque mexe com memórias, aprendizados, investimento de uma vida.

Eu e parte dos meus tesouros, uma biblioteca que carrega uma vida de aprendizado e investimento

Falo dos meus livros. Tenho uma biblioteca pessoal que reúne cerca de 600 a 650 títulos dos mais diversos temas. A maioria deles ligada a literatura, poesia, biografias, outros muitos de jornalismo, assessoria de imprensa, consultoria, direito, justiça, alguns de autoajuda, até uma enciclopédia Barsa tenho. Existem livros que nortearam o início de minha trajetória profissional, treinamento e desenvolvimento de pessoas, consultoria, e muitos presentes com autógrafo e tudo o mais.

Eles são verdadeiros tesouros da minha vida. E tem mais: dentro deles guardo recordações dos meus filhos quando eram menores e desenhavam, faziam cartinhas de amor para mim. Há fotos nossas, e outros tantos bilhetes que só mexendo em cada um deles saberia o que contém. Pura magia, emoções de tempos outros, lágrimas e sorrisos, vitórias e derrotas, desencantos, sonhos, tantas coisas! Mas eu preciso desapegar.

Para onde vou não será possível levá-los. Não caberão em uma mala, e o custo de transporte inviabiliza, bem como não saber o tamanho do espaço que vou residir. Assim, o coração dói, chora, sangra. Só quem tem uma relação afetiva com os livros, a leitura, a literatura, vai entender. Desde pequeno cresci entre livros, leituras, todas incentivadas por meus pais. Assim aprendi a escrever bem, me destacar na escola pelas redações, e depois atuar no jornalismo. Conheci culturas que jamais visitei. Tive mestres do marketing, gestão, jornalismo que jamais vi pessoalmente. Um valor inestimável.

Agora estou na fase inicial do desapego. Busco através dos amigos e amigas ideias para o que fazer com esta biblioteca. Pensei inicialmente em propor um projeto social que incluiria implementar uma biblioteca comunitária onde existiriam ações de incentivo a leitura, produção de textos, encontros literários, varais literários, declamação de poesias e textos, empréstimos de livros com organização, enfim, um propósito de educação e formação da cidadania. Assim, creio, todo o meu esforço financeiro, intelectual, teria um resultado efetivo que é formar novos cidadãos leitores, pensadores, prontos para a vida real.

Não sei ainda o que fazer realmente. Estou lendo as sugestões de amigos e amigas queridos, queridas, e vou decidir. Um pedaço da minha vida, importantíssimo, vai ficar em algum lugar, e gostaria que fosse um belo lugar cuidado, protegido e perene. Será que consigo?

“Seu Pipa” – Conto para ler e voar na imaginação

No Dia do Escritor deste ano (13/10) escrevi um novo conto para comemorar, após longo inverno criativo… Publiquei apenas no Facebook e agora aqui em meu blog que sobrevive há 13 anos, rumo aos 14, incrível não é? Espero que gostem!

Seu Pipa, Por Salvador Neto

“Se eu não tivesse visto com os meus próprios olhos, jamais teria acreditado. Já fui criança também, e inventava meus amiguinhos imaginários, meus heróis, ou usava os famosos bonequinhos para fantasiar o que via nos livros e gibis. Por isso que ao ouvir o que Miguel me falava naquele instante, uma tarde luminosa no Morro da Luz, área central da pequena Vem quem Quer, entendi que era um daqueles momentos que também tive lá pelos 10 anos de idade, mesmo tempo de estadia na terra que o pequeno garoto de olhos pretos, cabelos ondulados e claros, pele queimada do sol, me contava ali ao lado da venda do seu Manoel.

Passava pelo vilarejo vendendo minhas mercadorias, uma batalha diária para ganhar o pão de cada dia, e ao vender meus aviamentos no Mercado do Manel, assim mesmo, sem o “o” do Manoel, eis que me aparece o Miguel logo na porta da vendinha. Pés descalços, calção curto e surrado, o garoto me perguntava se havia visto a sua pipa falante. – Pipa falante? Retruquei. – Sim, eu mesmo que fiz com varetas de bambu, linha de costura da minha mãe, cola emprestado da vizinha e papel de seda que ganhei da minha vó Elza! Pensei que ele estava era arrumando uma desculpa para pedir alguma coisa. – O que você quer garoto? Bala, um doce? Diga-me logo que estou com pressa.

Estava cansado da viagem que já durava umas três semanas por aquelas bandas secas, pobres e poeirentas. – Não é mentira não seu moço, é verdade! Ela é grande assim ó – mostrava com as mãozinhas pequenas e sujas de brincar na rua. Comprei umas balas de goma, umas paçocas e lhe dei, mas não adiantou. Ele insistia e já estava triste por não ver mais a sua pipa, sua primeira pipa criada por ele mesmo. Senti um aperto no coração ao ver no rosto de Miguel a mesma decepção que tive quando era criança, ao perder um brinquedo querido.

– Tá bom, falei. Toma aqui essas balas, vamos procurar a sua pipa, mas só um pouquinho, entendeu? Ele abriu um largo sorriso, pegou minha mão e puxou.- Estava com ele amarrado ali naquela árvore, ele estava bem alto. Fui pegar uns gravetos para levar para minha casa para fazer fogo, e quando voltei ele não estava mais ali! – Vai ver que alguém a levou, devia ser bonita, respondi. Miguel fechou a cara e disse que não, ele era muito inteligente e que não sairia dali nas mãos de outro menino. E que não era “ela”, mas sim “ele”. Intrigado, resolvi entrar na brincadeira do garoto.

– Pipa é ela, não ele, larguei. – Você não sabe de nada, disse ele franzindo a testa. – Seu Pipa é menino, homem como eu! Tentei consertar o engano. – Tá bom, ele então. E porque seu Pipa? – Porque quando ele acordou e viveu, ele se apresentou e pronto, completou Miguel. Decidi então partir para a ajuda na busca ao “Seu Pipa”. – Como ele é então garoto? Ainda chateado com a minha falta de atenção ao seu problema, ele descreveu em detalhes a pipa que fala. Era das grandes, feita com papel de seda em quatro cores: azul, vermelho, rosa e verde, e tinha o rabo também comprido, com duas cores, amarelo e roxo em papel crepom. A linha era forte, e o carretel de tamanho médio, com bastante linha, dizia meu amiguinho de Vem quem Quer.

Mas tinha mais: quando ele falava, uma boca sorridente se abria na parte de baixo, e olhos redondos e grandes na parte de cima piscavam sem parar. – Seu Pipa me disse que quando ele nasceu bateu um vento forte, e ele ficou assim, piscador, alertou Miguel. Já entediado com aquilo, não questionei. – Vamos encontrar o seu Pipa então, falei e saí com ele ao meu lado na rua em frente à vendinha. Ele mostrou a árvore onde ele, seu Pipa, deveria estar. Decidimos seguir em meio à mata que tinha poucas árvores naquela área do Morro da Luz. Era um pequeno caminho, uma trilha que moradores usavam para ir de um lado a outro daquela comunidade, explicava Miguel. Estava um dia quente, e eu com sapatos, calça comprida jeans e camisa de manga longa, já suava as bicas.

O vento era só uma brisa morna, e o garoto seguia com suas pequenas pernas no chão batido, e olhos abertos mirando de um lado a outro na mata em busca da sua pipa. Ou melhor, do Seu Pipa. Já estava decidido em acabar com aquela brincadeira em que havia entrado quando ouvimos uma voz grave que dizia: – Estou aqui, olhem para cá! Enquanto tentava ver quem nos chamava, Miguel já corria à minha direita em meio aos tufos de mato gritando de alegria: – Seu Pipa, seu Pipa, você está aí! Incrédulo eu avistava então aquela imagem coloridíssima tal qual o menino tinha descrito, engatado em uma goiabeira de tamanho médio.

Espantado fiquei quando aquela figura de papel seda, crepom, bambus, linha e cola se mexia e falava! – Miguel, quem é esse aí com você, um desconhecido perigoso? A pipa emitia frases nítidas, e uma espécie de boca abria e fechava, e olhos piscavam sem parar! Também pisquei várias vezes, esfreguei meus olhos, me belisquei para ver se não estava era acordando de uma soneca, mas não! Aquele ser realmente se mexia no galho da goiabeira, e falava, e olhava cobrando do pequeno Miguel aonde ele havia se metido e o deixado voar por aí.

– Você não deveria andar por esse mato com gente assim. Nem sabe quem é! O pequeno, feliz da vida por ter encontrado a sua pipa, opa, seu Pipa, esbanjava um sorriso após algumas marcas de lágrimas em suas bochechas, pedia desculpas: – Foi só um instante que o deixei amarrado no poste, só para pegar gravetos para a minha mãe seu Pipa, e quando olhei você não estava mais lá. Ai fiquei desesperado e encontrei esse homem. Ele aceitou ajudar a te procurar, falava sem parar o Miguel. Ainda atordoado pelo que via, fiquei mudo vendo o garoto resgatar seu Pipa daquela árvore com todo o cuidado e carinho.

Enquanto isso aquele ser contava como tinha chegado até ali. Um jovem havia passado de bicicleta e visto a pipa ali amarrada. Deu meia volta e maldosamente soltou o fio do poste e seguiu pedalando em seu caminho. – Foi tão inesperado que quando vi a ventania já tinha me arrastado para cá Miguel, explicava a… o Pipa. Já com o seu amigo brinquedo à mão e no chão, o garoto sentou em um tronco grande à beira da trilha e pediu que eu sentasse também. – Não chegue muito perto não!, gritou a pipa… o Pipa. – Não se preocupe, não farei mal algum a você. Encontrei o menino na venda, e ele me pediu ajuda. Não acreditei na história de uma pipa falante, mas resolvi ajudar ao ver a sua aflição.

Miguel então agradeceu o meu apoio, pediu desculpas à Pipa por sua falta, e disse: – Acredita agora que tenho uma pipa que fala, escuta, enxerga e também voa? O que poderia dizer diante daquilo… – Posso tocar em você Pipa? Meio desconfiado, Pipa deixou não antes que eu mostrasse se não tinha nenhum canivete ou outra coisa nas mãos. O garoto me passou o Pipa cuidadosamente. Segurei na vareta central, uma mão em cima, outra embaixo. Era incrível!- Satisfeito? Perguntou a pipa enquanto se movia para um lado e outro, balançando o rabo colorido e piscando os olhos quase sem parar.

– Como isso pode ser verdade, acontecer, perguntei em voz alta. – Acontecendo, respondeu seu Pipa. – Quando a pureza de uma criança linda como Miguel acredita e precisa, o senhor Universo autoriza que objetos como eu tenham vida, falou seu Pipa. – Minha mãe cria eu e meus cinco irmãos sozinha, e não temos brinquedos. De tanto eu pedir minha vó apareceu um dia com bastante papel de seda, crepom, cola e me disse para fazer uma pipa, pandorga. Meu amigo José me ajudou, e assim nasceu o seu Pipa, explicou Miguel. Devolvi com cuidado o seu Pipa ao garoto, não queria estragar aquele momento de reunião entre criador e criatura após terem se perdido um do outro.

– Mas como foi que começou a falar, a ter boca e olhos? – Todos os dias a gente reza pedindo uma vida melhor para nossa casa. Uma noite eu resolvi pedir a Deus que seu Pipa falasse, fosse vivo para que eu tivesse um amigo de verdade para conversar. Eu ouvia com atenção, enquanto seu Pipa dançava com o vento para lá e pra cá. – No dia seguinte quando voltei da escola, fui direito pegar a pipa para soltar, tinha bastante vento! Chegando ao quarto levei um susto quando ele me deu oi! Mas entendi que Deus tinha me ouvido. Mas é segredo, e agora segredo nosso viu moço?

Emocionado com aquela história, mexi a cabeça afirmativamente. Seria o nosso segredo para sempre. Olhando fixamente em meus olhos, seu Pipa ainda disse: – Nunca esqueça que o que se promete a uma criança é sagrado! Mantenha o segredo que o Universo saberá recompensá-lo! Daquele dia em diante minhas vendas aumentaram, consegui melhorar de vida e posso ajudar a outras pessoas em momentos de dificuldades. E toda semana vou a Vem quem Quer colocar a nossa conversa em dia lá no Morro da Luz. Eu, Miguel e seu Pipa viramos grandes e inseparáveis amigos. Para sempre”.

No reencontro com os leitores, um conto: “O reencontro de Natal”

Olá pessoal como estão todos vocês? Espero que estejam bem, vacinados, em cuidados permanentes para evitar a Covid-19, e com saúde. Há sete anos fui desafiado a escrever um conto para a antologia natalina da Associação das Letras de Joinville (SC), da qual fui co-fundador e diretor. Jamais havia escrito um conto, e fui à luta a pedido do nosso então presidente, o escritor David Gonçalves. Mestre como é, conseguiu arrancar deste vivente uma produção.

Como o Natal está chegando mais uma vez, resolvi republicá-lo aqui em meu Blog para compartilhar um pouco do valor da solidariedade, da simplicidade, da alegria de uma época em que é possível ver famílias em confraternização. Tempo em que se espera paz, união, amizade, amor e muito mais. Espero que gostem, comentem, e se puderem, compartilhem com mais pessoas. Gratidão é o que tenho desde já por todos que nos apoiam aqui!

Segue o conto:

“O reencontro de Natal

“Estavam os três ali, sacolejando ao balanço do caminhão, dentro de um caixote que não parava de pular na carroceria. Pudera, em ruas tão esburacadas como queijo suíço… Fred, um carrinho de madeira, Joana, uma boneca descabelada, e Jujuba, um velho pião com as cordas surradas de tanto rodar por aí, já estavam há dias naquele vai, não vai. Já usados, velhos de tanto brincarem com seus donos, não tinham mais esperanças de voltar às mãos de crianças brincalhonas, arteiras e felizes. Estavam ali entre tantos outros brinquedos abandonados.

É a vida, pensavam os velhos companheiros de tantas crianças! Conheceram várias delas por algumas gerações, doações, mas agora competiam com poderosos concorrentes internacionais que falam, voam, pulam, choram, andam em velocidade sem serem jogados pelas mãozinhas. O Natal estava à porta, e em meio às campanhas solidárias, lá se foram Fred, Joana e Jujuba para uma caixa entre tantas dispostas naquele shopping luxuoso. Sequer tiveram tempo de se despedir de seus donos! E o pior, até ali, ninguém os pegara para cuidar e brincar…

Joana era a mais sentida. Com seus belos olhos azuis, cabelos loiros, já um pouco ralos, sim é verdade, vestida com uns paninhos coloridos e sem sapatinhos, não aceitava a solidão. – Sou muito bela para estar aqui! Mereço uma bela cama com lençóis de seda!, reclamava. Fred, do alto da dureza do seu ser, madeira bruta, apesar de bem arrebentado por muitas corridas e carregamentos de barros e batidas (já não tinha mais a caçamba…), retrucava. – Ora, eu sim, um forte, parceiro para todas as durezas, preciso de quem me valorize, que goste de aventura! E Jujuba… ah, este não tinha ambições.

– Eu quero é girar logo por aí. Sei que perdi um pouco a graça, afinal tem uns novos colegas aí bem mais modernos, mas ainda tenho muito a rodopiar e dar show!, dizia. A verdade é que em meio a tantos outros brinquedos, uns mais quebrados, outros não, a rota do caminhão solidário de Natal dirigido pelo velho voluntário Sebastião estava chegando ao final. Tião, como era conhecido em tantos anos de corridas pelos bairros da cidade, já tinha os ralos cabelos brancos. Se na próxima parada sobrasse algum daqueles brinquedos, o jeito era deixar por aí, ou jogar no lixo. – Tenho pena, quando eu era criança nem tinha um desses para brincar, pensava enquanto dirigia-se ao ultimo ponto de parada.

Nas paradas anteriores a maioria da criançada tinha pegado os brinquedos mais novos, modernos, com menos uso. O que estava ali na carroceria do velho Mercedes cara chata talvez não agradasse aos meninos e meninas que o esperavam nos fundões do Paranaguamirim, bairro da periferia. Afinal, o que sobrara ali eram brinquedos antigos, bem velhinhos e uns tão usados e quebrados que… bom, era melhor não pensar nisso e seguir a missão. Junto com Tião ia João, vestido de vermelho como manda o figurino. Não via a hora de terminar o serviço que durava o dia todo.

Mas lá no Panágua, como o povão chama seu próprio lugar mais ao gosto da simplicidade, a gurizada esperava. Mães e pais também, na esperança de que os filhos ficassem felizes com a chegada do bom velhinho e seus brinquedos. Famílias pobres, lutavam todos os dias para por comida na mesa, e não sobrava para dar brinquedos novos e modernos como os de hoje, que dirá tablets, celulares. Então, aguardavam amontoadas no pátio da igreja, local de encontro daquele ano. Era uma festa. No meio do povo, vendedores ambulantes ofertavam algodão doce, pipoca, doces, também na busca dos últimos trocados para garantir as festas de final de ano.

De repente, lá na esquina surge o cara chata com o bom velhinho acenando! Alvoroço na comunidade. Era só criança correndo para ver quem chegava primeiro para abraçar o Noel, e ver o que podia ganhar. Tião dirige com todo o cuidado, porque nessas horas a multidão não tem controle. Ao parar o caminhão, João Noel desce e distribui balas e doces. Uma alegria só, e um empurra-empurra generalizado! Imagine o desejo infantil do brinquedo adorado, e o sonho de pais em ver seus filhos felizes. De repente o vozeirão avisa: – Atenção! Vamos organizar a fila gente! Era o padre Felício tentando organizar a desorganização de sempre.

O povo o respeitava muito, afinal ele era o homem de Deus na região, e também sabia das coisas. Cobrava das autoridades uma vida melhor para aquele povo. Magro, com seus óculos quadrados, pretos, mas com fala firme e olhar decidido, padre Felício liderava movimentos em favor de mais saúde, infraestrutura, e agora, ajeitava tudo para que não faltassem brinquedos para a criançada. O motorista Tião já sabia que, se faltasse brinquedo ali a bronca seria enorme! No roteiro de visitas pela cidade, cuidava para que nada faltasse até o final no encontro com o padre.

Se o alvoroço era grande lá fora, imagine naquela caixa. Entre os colegas brinquedos, Fred, Joana e Jujuba tentavam se ajeitar para serem notados, afinal, queriam voltar para a alegria das crianças, viver em animação nas ruas, animar histórias nas mãos infantis. E começou a entrega dos brinquedos. Uma a uma as crianças saiam com seus troféus, já a brincar com os coleguinhas. Quase ao final da fila estava José. Com seus dez anos, pequeno para a idade, olhos miúdos e castanhos, cabelos da mesma cor, ondulados, tinha chegado atrasado.

A tristeza já tomava o seu coração. Será que ainda sobraria brinquedos para ele seus irmãos? A cada metro que a fila avançava, mais sua respiração acelerava, parecia que o coração saltaria boca afora. Seu pai e sua mãe garantiam o sustento da casa com a pesca artesanal. Seu atraso se justificava: estava até a pouco cuidando dos manos pequenos. Quando os pais chegaram, ele correu até a igreja. Será que daria certo? Conseguiria ao menos um presente? E a fila andava… e não chegava a sua vez!

E João Noel não aguentava mais de entregar presente para a meninada agitada. Tião preparava o caminhão para ir embora ver a sua família. E o padre avisava a todos que daqui a pouco tinha a missa, não poderiam faltar! Deus não perdoa, dizia ele. Fred se batia ao lado de Jujuba, e aquele barulho de madeira batendo o deixava furioso! Joana, já quase perdendo o vestidinho, lamentava a sua má sorte: nenhuma criança a tinha escolhido! E agora! Será que ficariam sem dono, sem eira nem beira em pleno Natal?

Chegou a vez de José. Ansioso, olha nos olhos do Papai Noel como quem espera o prato de comida. Tião empurra a caixa que ainda tinha algo dentro. – É o que sobrou filho, diz ele a José. Um brilho nos olhos surgiu, e por trás dele, lágrimas de alegria, pois sobraram apenas três brinquedos! Era muita sorte! – Obrigado!, disse José já pegando nas mãos aqueles três brinquedos, exatamente o que precisava para que todos em casa ficassem contentes. Ao espiar cada um deles nos pacotes de presente meio rasgados, parece que via alegria também vinda daqueles brinquedos! Seria possível?

Correu para casa sem parar! O trecho da igreja até a sua pequena casa de madeira que beirava o rio parecia ter milhares de metros, não acabava mais! Os cabelos esvoaçavam ante os ventos do inicio da noite. Fred, Joana e Jujuba percebiam o chacoalhar, diferente dos pulos na carroceria do Mercedes de Tião. O que acontecia, imaginavam. José chegou finalmente. Seu pai e sua mãe o receberam enquanto limpavam seus peixes. A pequena Sara, a caçula, e Mateus, irmão do meio, pularam em sua frente. – O que nós ganhamos, o que veio, gritavam!

José então entregou a cada um o seu presente. Sara não sabia o que dizer da boneca loira que tinha nas mãos… era a mais linda que tinha ganhado, na verdade, inteira, era a única. Mateus pegou o pião nas mãos e saiu a atirar ele ao chão e ver rodar. Já tinha visto os amigos com alguns, mas agora tinha o dele. E José, enfim teve seu caminhão. Faltava a caçamba, mas isso dava para enjambrar. Saiu também a fazer vruummm, vruummm, pelo terreiro da casa. Depois do susto, era a realização de sonhos, sonhos natalinos dele, dos pais, da família. O reencontro da alegria que só o Natal faz.

E Fred, Joana e Jujuba? Bom, eles também se reencontraram com a alegria da brincadeira, dos inventos, e sentiram-se úteis e felizes. No dia seguinte, Fred já tinha sua caçamba feita de casca de ostra. Joana ganhou novo vestido feito pela mãe de Sara, todo florido! E Jujuba, ah, Jujuba agora roda mais forte que nunca! Ganhou uma nova corda reforçada e sai por aí rodando o mundo a partir do Panágua!”

* Escrito por Salvador Neto em 8 de dezembro de 2014, especial para a sétima mini antologia Letras da Confraria da Associação Confraria das Letras

Livro infantil da Epagri é um dos finalistas de prêmio internacional

A obra “O Solo está Vivo”, de autoria de sete técnicos da Epagri, ficou em 7º lugar no concurso de livros científicos infantis sobre a biodiversidade do solo, promovido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), União Internacional de Ciência do Solo (IUSS) e Aliança Global pelos Solos (GSP). Para o concurso foi encaminhada a versão em inglês “The Soil is Alive”, que faz parte de um projeto do grupo Solo e Água da Empresa. A divulgação do resultado aconteceu em 5 de dezembro, Dia Mundial do Solo.

Os autores são os pesquisadores Argeu Vanz, Elisângela Benedet da Silva e Leandro do Prado Wildner, e os extensionistas Josiane de Souza Passos, Leonir Claudino Lanznaster, Liagreice Pereira de Medeiros Cardoso e Célio Haverroth. Esse grupo está elaborando uma proposta de trabalho em educação ambiental com as escolas, tendo como tema gerador o solo e a água. Dentro dessa iniciativa está o uso do livro para ser trabalhado como projeto piloto em algumas escolas da rede de ensino fundamental de Santa Catarina em 2021 pela extensão rural da Epagri.

Segundo Elisângela, a obra fala de forma lúdica sobre fatos científicos de um conjunto de elementos (animais, vegetais e minerais) que interagem e contribuem para a formação e manutenção da biodiversidade presente no solo e o importante papel das funções do solo para a existência da vida no planeta.

A produção do livro envolveu outros técnicos da Epagri: Kátia Marly Zimath de Mello e Ilaini Marli Maihack Brassiani participaram com desenho e pinturas;  Lucia Morais Kinceler e Marcia Janice Freitas da Cunha Varaschin fizeram a revisão do texto em inglês e Laertes Rebelo revisou a versão em português. O livro será lançado pela Epagri nas versões inglês e português, em data ainda a ser confirmada, e estará disponível aos interessados também no formato digital. A versão em inglês poder ser acessada no portal da FAO.

O Concurso

O concurso de livros científicos para crianças sobre biodiversidade do solo foi lançado pela FAO, IUSS e  GSP como parte das comemorações do Dia Mundial do Solo. Com o tema “Mantenha o solo vivo, proteja a biodiversidade do solo”, a premiação teve como objetivo mostrar a importância da biodiversidade do solo e aumentar a conscientização sobre a urgência de proteger esse recurso natural para a manutenção da vida no planeta.

Os livros, destinados a crianças entre 6 a 11 anos, deveriam mostrar o papel vital que a terra e a biodiversidade exercem para garantir o bem-estar humano, assegurando a produção agrícola futura e a sustentabilidade do meio ambiente. Além do grupo da Epagri, mais duas equipes de brasileiros ficaram entre os dez finalistas. O Brasil registrou 12 inscrições e ocupou o 3º, 7º e 9º lugares e ainda registrou cinco menções honrosas. Participaram do concurso mais de 100 livros de 60 países.  Os 10 primeiros colocados farão parte de um livro publicado pela FAO/IUSS/GSP.

Confira aqui entrevista com os autores da obra no programa de rádio Panorama Agrícola. Faça o download dos livros que ficaram entre os 10 primeiros lugares no concurso no site da FAO.

Cultura – Alesc começa a analisar a MP de Apoio à Cultura na pandemia

Já está tramitando na Assembleia Legislativa desde a quinta-feira (20) passada a Medida Provisória (MP) 229/2020, editada na semana passada pelo Poder Executivo para conceder auxílio financeiro ao setor cultural do estado. Conforme o Regimento Interno da Alesc, os deputados têm até 15 de outubro para analisar a matéria e transformá-la em lei.

A MP foi editada pelo governo no dia 13 de agosto e publicada na última segunda-feira (17) no Diário Oficial do Estado (DOE). Ela dispõe sobre a destinação de R$ 4 milhões em caráter emergencial aos trabalhadores e às pessoas jurídicas do setor cultural catarinense, com o objetivo de mitigar os prejuízos econômicos causados pelas medidas de isolamento e distanciamento social, que inviabilizam desde março as atividades do setor.

Na justificativa da matéria, a presidente da Fundação Cultural Catarinense (FCC), Ana Lucia Coutinho, explica que 6% da população do estado dependia diretamente do setor cultural. Um levantamento do Conselho Estadual de Cultura, conforme a dirigente, apontou que, apenas de fevereiro a maio, 15 mil atividades culturais foram canceladas ou adiadas, o que resultou num prejuízo de R$ 112 milhões.

Ana Lucia lembrou que o setor cultural também é importante para movimentar outros segmentos da economia. Ela cita estudo da FGV Projetos, o qual revela que a cada um real investido em eventos culturais há um retorno de R$ 13 para a economia local, em virtude do “efeito cascata dos gastos efetuados pelos frequentadores e consumidores.”

Condições
O auxílio financeiro ao setor será pago durante o período em que perdurar o estado de calamidade pública devido à pandemia da Covid-19. Ao todo, serão destinados R$ 4 milhões para o auxílio, sendo que desse montante R$ 2 milhões vieram de doação da Assembleia Legislativa.

Poderão ser beneficiados trabalhos apresentados por artistas, profissionais e fazedores de cultura das artes visuais, artes circenses, audiovisual, cultura popular e diversidade cultural, dança, literatura, música e teatro.

Quem requisitar o auxílio deverá comprovar atuação no setor cultural entre 1 de janeiro de 2019 e 17 de agosto deste ano, data da publicação da MP. Além disso, o requerente tem que apresentar inscrição homologada em pelo menos um dos seguintes cadastros: Mapa Cultural SC, Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários (Cadsol), Cadastro Nacional de Pontos e Pontões de Cultura ou Sistema Estadual de Museus de Santa Catarina (SEM-SC).

A MP estabelece, ainda, que os critérios para a destinação dos recursos serão definidos em edital de chamamento público gerido e executado pela FCC. Os valores que serão pagos variam de R$ 500 a R$ 3 mil, conforme a modalidade à qual o trabalho for inscrito.

Tramitação
Na Alesc, a MP 229/2020 terá sua admissibilidade apreciada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Caso ela seja admitida pela comissão e em plenário, será transformada em projeto de lei (PL) e apreciada pelas comissões de mérito, antes de ser novamente votada em plenário.

Cultura – Governo de SC edita MP que garante auxílio financeiro ao setor

O setor cultural catarinense receberá auxílio emergencial para diminuir os prejuízos econômicos decorrentes da pandemia de coronavírus. A Medida Provisória 229, que estabelece o benefício, foi editada pelo governador Carlos Moisés e publicada nesta segunda-feira, 17, no Diário Oficial do Estado (DOE).

“O Governo do Estado está sensibilizado com o momento crítico que a categoria enfrenta e acredita que essa medida ajudará a mitigar os efeitos econômicos negativos do setor”, declarou o governador.

Os recursos que vão garantir os repasses são de transferências orçamentárias fiscais da Secretaria de Estado da Fazenda e da Casa Civil à Fundação Catarinense de Cultura (FCC). No total, serão destinados R$ 4 milhões para pagamento dos benefícios, dos quais R$ 2 milhões são de devolução do Duodécimo pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina.

“Fizemos um esforço conjunto para conseguir alcançar esses valores ao setor cultural, e acreditamos que será de extrema importância para muitos trabalhadores e empresas no Estado”, reforçou o chefe da Casa Civil em exercício, Juliano Chiodelli.

A Medida Provisória estabelece que os valores serão destinados para remuneração de trabalhos realizados por profissionais e pessoas jurídicas residentes em Santa Catarina, com comprovada atuação no setor cultural entre 1º de janeiro de 2019 e a data de publicação desta MP.

Os critérios para escolha dos trabalhos e dos candidatos serão definidos em edital de chamamento público, que será executado pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC).

“Esta Medida Provisória é importante para dar garantia jurídicas ao auxílio emergencial, viabilizado pelo Governo do Estado e pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), que vai contribuir com os trabalhadores e fazedores da cultura, tão abalados pelo pandemia da Covid-19. Na elaboração da MP, a FCC contou com a parceria da Casa Civil e dos órgãos controladores do Estado”, declarou a presidente da FCC, Ana Lúcia Coutinho.

Para participar do edital é preciso que o profissional ou empresa comprove apresentação de inscrição homologada em pelo menos um dos cadastros: no Mapa Cultural SC, no Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos (Cadsol), no Cadastro de Pontos e Pontões de Cultura ou no Sistema Estadual de Museus de Santa Catarina. O pagamento dos trabalhos vai variar entre R$ 500 e R$ 3 mil, dependendo da modalidade.

PM/SC disponibiliza livro de colorir com base no trabalho do Proerd

Nesta segunda-feira, 17, o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd) disponibilizou uma versão online do seu livro de colorir no site da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC).

O objetivo da ação é que as crianças possam imprimir o material e brincar com as atividades do exemplar em casa, aprendendo um pouco sobre o trabalho preventivo realizado pelo programa.

Em virtude da pandemia do novo coronavírus, as aulas nas escolas públicas e privadas estão suspensas até o momento e, por consequência, as apresentações do Proerd também.

Além de utilizar as mídias sociais para se aproximar do seu público-alvo, o programa fornece o livro como uma nova forma de diminuir a distância entre as crianças e a PMSC. Para baixar a o material, CLIQUE AQUI.

Educação é tema de ebook que trata das práticas educacionais na pandemia

Mestre em Educação, o professor da Sustentare Escola de Negócios, George Stein, é um dos autores do livro (digital): “De Wuhan a Perdizes. Trajetos Educativos”, organizado por pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Educação: Curriculo da PUC-SP. Stein contribuiu com o texto:  “Novos contextos e caminhos para o currículo escolar na Educação com COVID-19”.

“Trata-se de uma coletânea, em forma ebook, elaborada em emergência análoga à da crise que nos revirou, que traz reflexões, análises e práticas da Educação com a Covid19”, explica Alípio Casali, Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP.  “Imperdível para quem se interessa por Educação!”, complementa Stein.

De acordo com o coordenador, o programa é fruto da mobilização de mestrandos, doutorandos e docentes-pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo da PUC-SP. São textos que se distribuem, aproximadamente, em quatro vertentes: 

1) Descrição analítica das novas práticas emergentes que puseram em funcionamento os dispositivos tecnológicos necessários à boa continuidade do Currículo; 

2) Análise dos alcances e limites no uso das TIC nesse contexto; 

3) Avanços conceituais e prático-pedagógicos em novas frentes sociais, políticas e culturais do Currículo; 

4) Proposição de novos conceitos e práticas de desenhos curriculares, antevendo-se problemas sociais mundiais, que tenderão a se agravar no pós-pandemia

“Além disso, estou iniciando um grupo de troca, reflexão, análise e ação para construirmos o futuro de nossas práticas educativas nessa nova realidade de maneira coletiva e efetiva para transformar a Educação”, antecipa o professor George Stein.

Estas mudanças que a pandemia trouxe em todos os setores da vida merecem estudos cada vez mais profundos para uma nova realidade que está posta. A educação, já um tema central para o desenvolvimento da humanidade, precisa ainda mais de atenção para que possamos manter a formação das pessoas em novos meios e formatos.

Acesse o ebook gratuitamente no site: https://bit.ly/EbookTrajetosEducativoscomCovid19.

Apresentação da obra
“Em tempos sombrios, os livros podem trazer luz! Há livros que levam anos para serem produzidos; pesquisas, análises, profundas reflexões… Com De Wuhan a Perdizes: trajetos educativos foi diferente. Ele foi produzido dentro da pandemia para refletir a própria pandemia.

Esse foi o empenho realizado em 90 dias com intensos esforços, operados por meios digitais, que envolveram todos os professores do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: Currículo da PUC-SP.

Em uma sociedade marcada pela velocidade de divulgação do bem e de coisas más, a velocidade de organização de um livro faz parte dessa batalha pelo bem. Este livro, publicado pelos professores e por 18 alunos da PUC-SP, venceu na batalha do tempo. E temos, hoje, o relato da criação de condições de transformação de cursos presenciais para os 120 alunos em aulas remotas por meio de diferentes plataformas. Os conteúdos dos cursos, assim como as reflexões produzidas a partir das aulas e de pesquisas, estão nele retratados.

São alguns de seus temas: a história de outras epidemias e de como as tecnologias contribuíram e a sociedade se esquivou delas…, assim como as competências de articulação entre alunos e professores brotadas das aulas. Mas o teor do livro enfatiza, sobretudo, o papel da educação na compreensão das pandemias, de suas dimensões éticas e de seus impactos sociais no currículo escolar e na educação não formal.

De Wuhan a Perdizes mostra que ideias podem viajar tão rapidamente quanto a Covid-19 e nos auxiliar a enfrentar o vírus com conhecimento e sabedoria. E a Educ – Editora da PUC-SP, por meio da publicação deste livro de temática tão atual, busca contribuir para atravessarmos juntos esse momento crucial que a humanidade está vivendo.”

Dois sorrisos que foram alegrar o céu

Desde ontem dois sorrisos não encontrarei mais ao caminhar nas ruas da Joinville onde nasci e vivi por longos anos. Um deles andou comigo em minha infância e adolescência em meio as aulas, jogos escolares, competições, e nas ruas que circundavam o então Colégio Cenecista Elias Moreira no bairro Anita Garibaldi. Solange Adriane Garcia Gomes foi uma das minhas melhores amigas daqueles tempos felizes, quando somos imbatíveis, infalíveis, fortes, ágeis. Não temos contas a pagar, e só amigos para fazer, e brincar, e jogar, e vencer. Viver.

Conversávamos muito, eu visitava a sua casa na rua Goiás. Sua mãe era um doce. Sandro, seu irmão, foi também meu amigo. Disputamos e vencemos pela escola, ganhávamos medalhas, troféus. Eu a admirava pela energia e capacidade técnica nos jogos coletivos. Sua determinação era diferenciada. Mas o que me marcou foi sempre o seu sorriso, sua solidariedade, sua vontade de ser… humana. Ontem, ao saber via redes sociais que ela não espalharia seus sorrisos para todos nós, seus amigos e amigas, senti uma dor enorme, daquelas que somente amigos sentem ao ver o outro partir. Ficamos órfãos deles, das lembranças, do desejo de um dia nos reencontrarmos e nos abraçarmos como se nunca fôssemos deixar de esbarrar, seja nas ruas da velha Joinville, seja no mundo.

Não sei ainda o que a tirou do convívio do seu marido, familiares. Pelo que vi foi repentino. Solange sempre foi veloz, principalmente no handebol era uma artilheira nata. Líder, ficava uma fera quando perdia. Creio que assim como escapava dos adversários, escapou da gente para alegrar o céu… Vou sentir saudades amiga, que onde quer que esteja, estejas bem…

Perder um sorriso tão cativante na minha vida não bastava em um só dia. O universo resolveu aprontar porque precisava de mais sorrisos abertos, verdadeiros e naturais lá onde as energias se encontram. Recebo notícia via Folha Metropolitana, jornal para o qual escrevo, que uma amiga de 20 anos pelo menos, estudamos jornalismo juntos no Bom Jesus/Ielusc, foi fazer arte e eventos no céu junto com Solange. Melina Mosimann, a loura cativante, elétrica, animada, produtora de eventos e cultura, esposa do grande artista Juarez Machado havia decidido parar de lutar contra o terrível câncer…

Melina não negava a sua alegria a quem quer que se aproximasse dela. Sempre tinha uma nova ideia para ajudar o outro que buscasse inspiração ou saídas. Vivaz, eloquente, a última vez que nos vimos foi em um evento da Associação das Letras no Centro Cultural que ela dirigia, do marido Juarez Machado. Elegante, falava com paixão da arte que ali estava e que a circundou neste tempo que ela escolheu viver aqui na terra conosco. Foi o último abraço, e poucas frases trocadas, afinal, um evento produzido por ela estava rolando… profissional e dedicada, sempre….


Os dois sorrisos ficam na minha memória afetiva, bem guardados para quando alguma tristeza chegar. Posso revê-los nas fotos que talvez encontre nas redes sociais, mas a leveza, a beleza, a amizade e paz que traziam ao vivo, encontrarei nas lembranças que vivemos juntos na escola, faculdade, eventos, jogos, na vida que pudemos compartilhar… Saudades, que ambas estejam bem aonde estiverem.

Perder um amigo é cortar um pedaço do coração. É ficar um pouco mais sozinho na caminhada da vida. Perdi dois pedaços grandes amigas, e a caminhada ficará um pouco menos sorridente… A morte faz parte da vida, mas como é doída… O comandante do céu ganhou dois sorrisos e duas grandes parceiras, uma esportiva, outra artista. Já deve estar rolando um passeio de motos, um jogo de voleibol ou handebol, uma exposição de arte, um programa de tv. O céu está mais alegre, festivo.

Palavra Poesia – “Qual o valor do tempo”

Os tempos andam amargos, duros, secos. O que nos tira dessas agruras é a arte, e a arte da literatura chega novamente aqui no Palavra Livre com o Palavra Poesia. Nosso escritor e poeta, o jovem Edmundo Alberto Steffen, colaborador do blog, nos oferece mais uma produção poética para aliviar a vida diária, e nos dar o devido valor da vida, pois tempo é vida. Vamos lá conhecer mais um pouco do valor do tempo?

“Qual o valor do tempo?

Estamos trancados em casa
Mas deixa isso de lado
Vamos pensar no futuro
Pensando sempre no passado

Não cometendo os mesmos erros
Hoje sabemos o valor de um abraço
Que tenhamos mais fogo da vida
E menos fogo nos maços

A vida não é só alegria
Caso você, não teria graça
Qual o valor da felicidade
Se um dia ela não passa?

Eu te desejo tudo de bom
Que viva bem todos os teus dias
Em meio a esse turbilhão
Possa ter fuga nessa poesia

Agora você vai sorrir
Pois às vezes é só questão de opinião
Não deixe nada pra depois
Corre lá pedir perdão

A pandemia nos mostrou uma coisa
Temos pouco tempo e o tempo não espera
Deixamos de lado o rancor
Que então o amor impera

Qual o valor do tempo?
Não sei nem se é mensurável
Tem vezes que dura muito
Tipo um filme da Marvel

Tem vezes que dura pouco
E nos deixa vulnerável
“Não deixe pra amanhã”
Não é uma frase de coach barato

Podemos ver que o tempo é valioso
E isso cada vez mais é um fato
O que levamos da vida?
O que deixamos aqui?

Apenas sorrisos e lembranças
E quem fizemos sorrir”.

* Edmundo Alberto Steffen nasceu em Joinville-SC, no dia 13 de outubro de 1997, cursou Ensino Fundamental na rede municipal de ensino da mesma cidade, Ensino Médio no Instituto Federal Catarinense – Campus Araquari e atualmente é estudante de Filosofia da PUCPR em Curitiba. Autor do livro “Poesias aos Ventos”, escreve poesias, textos e análises sobre cinema e literatura em seu Instagram @edmundo.steffen