Conto – “De Pression”

Ele contava que naquele inverno chegou mais perto dela do que nunca. Durante muitos anos à assediava a mandar mensagens e sinais. O ardor a que se tinha entregado não o deixava pensar em mais nada. Nem o nascer do sol que o encantava desde menino já não o interessava. Dóca havia se perdido no vale frio e úmido da apatia e solidão. Os amigos o perderam de vista ao longo dos anos, e ele os negava porque não sentia mais vontade de estar ao lado destes felizes, dizia ele. Era um caso sem solução à vista, um caminho que o carregava a um precipício. Mas ele não ouvia os gritos, preferia a presença dela a cercá-lo de sedução.

Na verdade, ele andou por léguas a esconder seus sentimentos. Desde menino queria o amor. Desejava o amor. Ele era puro amor a ponto de se dar de todo. Aos poucos a desesperança o assolava, e ele trocava o receber algum carinho por dar todo o seu calor a alguém. Trocou o desejo de ser amado por se doar inteiro a mulheres, depois esposa e filhos. Três homens belos que os acontecimentos de uma vida louca e traiçoeira se fizeram afastar dele. Assim, se tornou solitário. As garrafas eram companhias perfeitas. As horas passavam, a vida se arrastava e Doca sentia que ela estava a um toque.

Ele recusava-se a ser um marginal. Queria ser grande, acreditava nas pessoas. Eu mesmo o vi tantas vezes gastar seu ouvido a acolher as lamurias de outros. Nunca falou de si. Dóca queria o amor, mas o desencontro entre ambos o adoecia. A alma de menino o fazia leve, e ela, a quem já admirava, o enlaçava como uma cobra à espreita. E assim foi descendo ao centro da terra das desilusões. Ao se aproximar perigosamente, eis que surge a fêmea prometida! Um ser luminoso e quente, a mulher que a um olhar o puxou para o ar puro.

Dóca então retomou o viço, a força, o caminho que o levava para as planícies e planaltos do amor. Mergulhou no mar das emoções perdidas, e se refrescou, e amou como se não existisse amanhã. Novos sonhos nasceram, quem sabe novas conquistas a realizar. E foi-se o nosso menino a se entregar. Mas então do nada ela, chamava-se De Pression, sorrateiramente reaproximou dele. Foi com mestria que criou fissuras, trouxe tempestades, furacões e trovões à vida de meu amigo. Lentamente ele largou as mãos da esperança e voltou a descer nas profundezas da dor irracional. E só parou ao sentir seu corpo físico fraquejar, derrotado.

Naquele duro dia ele literalmente desabou. Na cama, a perder a fala, enrolar a língua. A não mexer braços e pernas, paralisado a pensar, o que eu fiz? A partir de então Dóca foi cumprir o seu calvário. Acamado pelo AVC, ora aqui, ora acola, caiu em mãos duras, mas poderosas, a dar-lhe todo o amor que pediu a Deus. De leito em leito foi viver a dor que procurou a vida inteira. Aqueles homens e mulheres que lhe trocavam, banhavam, ensinavam-lhe a sentar, mexer seus dedos, mãos, braços, eram como anjos a compor o novo homem que renascia ali. A dor suprema que tanto buscou o faria se tornar um novo homem.

Ele se exalta ao contar-me, pela enésima vez, dos treinos de fisioterapia, como o limpavam, de como reaprendeu a pegar em talheres e se alimentar sozinho. E chorou ao rever-se de pé, depois equilibrado e dando pequenos passos ajudado por tanta gente. Dóca é assim, um empolgado homem que retomou a alegria de menino após ter deturpado o seu olhar pela fria De Pression. Um café caridoso nos une, eu e Dóca, perfeita simbiose de personas únicas. É assim há anos, e assim o será. Café, conversas, amizade.

  • por Salvador Neto, Portugal, em 14 de abril de 2024

94ª Feira do Livro de Lisboa começa dia 29 de maio

A próxima Feira do Livro de Lisboa, a 94ª, acontecerá entre 29 de maio e 16 de junho de 2024 no Parque Eduardo VII. Este evento congrega editores, livreiros e leitores, representando uma oportunidade singular para descobrir novas narrativas, conhecer autores inspiradores e festejar a diversidade da cultura literária. Restam somente 14 dias para o começo desta edição, que promete proporcionar mais jornadas de descoberta literária e encontros culturais inesquecíveis.

Os destaques da Feira do Livro de Lisboa deste ano são variados e prometem agradar a todos os amantes da literatura. Aqui estão alguns dos pontos altos:

  1. Autores em Destaque: A feira contará com a presença de autores nacionais e internacionais, oferecendo sessões de autógrafos, palestras e debates. Fique atento à programação para saber quais autores estarão presentes.
  2. Lançamentos Literários: Editoras e escritores aproveitam a feira para lançar novos livros. Você terá a oportunidade de descobrir as últimas obras e adquirir exemplares autografados.
  3. Espaços Temáticos: A feira terá áreas dedicadas a diferentes gêneros literários, como ficção, poesia, não ficção e infantojuvenil. Explore esses espaços para encontrar livros que correspondam aos seus interesses.
  4. Atividades Culturais: Além da venda de livros, haverá apresentações musicais, exposições de arte e performances culturais. Aproveite para mergulhar na atmosfera criativa.
  5. Gastronomia: A feira também oferece opções gastronômicas, como cafés e food trucks. Desfrute de uma pausa entre as compras de livros.

Lembre-se de verificar a programação completa para não perder nenhum evento especial durante a Feira do Livro. Os horários de funcionamento da Feira do Livro de Lisboa variam ao longo dos dias. Geralmente, a feira abre às 10h00 e fecha às 22h00.

No entanto, é sempre bom verificar o site oficial ou a programação específica para confirmar os horários exatos em cada dia. Aproveite a feira e mergulhe na magia dos livros! Para maiores informações acesse: https://feiradolivrodelisboa.pt/.

Una Crónica – “Rayitas, Milú y Eufemia” – em espanhol europeu

Era un hermoso día soleado después de unos días fríos y lluviosos. Estas oportunidades ni yo ni Bastião perdimos. Mi compañero de caminatas es inseparable. No admite que salga por las pequeñas calles europeas a pasear solo. Un verdadero amigo es así. No hay forma de decir no. Nuestro plan era ir a la biblioteca, pasear por el jardín del amor y disfrutar de un abatanado, ¿quién sabe con un generoso trozo de pastel? Casi funcionó. 

Digo casi porque faltó sentarme en la mesita de la pastelería y disfrutar del café negro básico. Mi error, si puedo decirlo así, amigo lector, fue detenerme al sol y abandonarme al banco somnoliento que me hacía guiños, amigo lector. Estaba observando el movimiento cuando una señora se acercó a mi banco. Sí, el mío, porque allí estaba totalmente a cargo, no solo yo, sino también Bastião. Aun así, ella se acercó. Miró alrededor, habló con un gato en la calle y se fue. 

Bien, estábamos escuchando el bullicio de los niños de las escuelas pasar cuando ella, la señora, regresó ahora con un paquete en la mano. Extrañamente hablaba sola. Entonces abrió la bolsa y sacó de ella un paquete amarillo. Miraba la valla viva que había detrás de mi banco y murmuraba. La valla viva se aferraba a una valla muerta de hierro que protegía una antigua y abandonada mansión. Comenzó a realizar una especie de alquimia que era como música para los gatos. Comida, pienso seco. 

Bastião no se movía, pero yo la observaba, y a los gatos que se iban acercando y arropándola. No pude resistir a esta interesante acción y solté una frase al viento que, en ese momento, parecía ampliar su poder: – Van a saciar su hambre. Y la señora Eufemia, que así se llamaba, respondió: – Oh sí, siempre traigo, pero están delgados, feos. Las otras traen comida barata, no ayuda a que estén bonitos. Luego siguió un largo relato sobre un equipo de gente que alimenta a esos gatos. 

Agudicé el oído para escuchar a Eufemia. Lo había estado haciendo durante años, mezclaba la comida en una bolsa que escondía entre la valla viva. Las otras voluntarias venían, cada una en su día, y se turnaban para darle de comer a los gatitos. – ¿Tiene algún gato en casa?, le pregunté. Con cierta amargura, me dijo que sí, tuvo dos. ¿Tuvo? – Sí, murieron. – Lo siento, qué pena. Uno de ellos era gris, con rayas blancas, le puse el nombre de Rayitas, me contó la benefactora. Rayitas, era cierto. 

La historia de amor entre ella y Rayitas era conmovedora. El gato parecía un bebé, al que abrazaba y besaba, gordo y peludo. Pero enfermó de los riñones, se consumió y se despidió de ella un día antes de morir. Noté la tristeza húmeda en sus ojos. Menos mal que el sol estaba allí para secar las tristezas. No podía permitir que Eufemia se deprimiera. Solté: – ¿Tienes otros gatos ahora? Para sorpresa del narrador de esta historia, ella dijo: – No, ahora tengo una perrita, ¡Milú! Una sonrisa se abrió. 

Su hija le había regalado un bulldog francés para que su madre se viera obligada a salir de casa. Así que Eufemia salía ahora con Milú todos los días. Aparentemente, el calor de la alegría había regresado, y ella ahora conservaba a Rayitas solo en los buenos recuerdos. Rayitas se fue, Milú llegó y le hacía compañía. Nos despedimos, Eufemia se fue. En cuanto a mí, me quedé sin café con pastel, sin el calor del sol, pero con el corazón caldeado por la hermosa historia de amor. Eufemia, los gatos, Milú y Rayitas. 

Por Salvador Neto, Portugal, 30 de abril de 2024. 

Uma Crônica – “Eufêmia, Riscadinho e Milú”

Era um belo dia de sol após alguns dias frios e chuvosos. Essas oportunidades nem eu, e tampouco Bastião, perdemos. Meu parceiro de caminhadas é inseparável. Ele não admite que eu saia pelas pequenas ruas europeias a saracotear sozinho. Amigo de verdade é assim. Não tem como dizer não. Nosso plano era ir à biblioteca, passar pelo jardim do amor e bebericar um abatanado, quem sabe com um generoso bolo?  Quase deu certo. 

Digo quase por ter faltado o sentar na mesinha da pastelaria e saborear o pretinho básico. Meu erro, se posso assim dizer-lhe amigo leitor, foi dar uma parada ao sol, e abandonar-me ao banco sonolento que piscava para mim, amigo leitor. Estava a verificar o movimento quando uma senhora veio em direção ao meu banco. Sim, meu, pois lá estava totalmente senhor dele, não só eu como Bastião. Mesmo assim ela se aproximou. Olhou a volta, conversou com um gato a rua e se foi.  

Pois bem, estávamos a ouvir a algazarra dos miúdos das escolas a passar quando ela, a senhora, retornou agora com um pacote a mão. Estranhamente falava sozinha. Abriu então a sacola e tirou lá de dentro um pacote amarelo. Olhava para a cerca viva que ficava por detrás do meu banco e cochichava. A cerca viva agarrava-se a uma cerca morta, de ferro, que protegia um casarão antigo e abandonado. Começou a realizar uma alquimia que era uma música para os gatos. Comida, ração seca. 

Bastião não se mexia, mas eu a observava, e aos gatos que foram se achegando e aconchegando a ela. Não resisti a essa interessante ação e joguei uma frase ao vento que, àquela hora ampliava seu poder: – Eles vão matar a fome. E a senhora Eufemia, era o nome dela, respondeu: – Oh sim, eu sempre trago, mas eles estão magrinhos, pelo feio. As outras trazem comida barata, não ajuda a ficarem bonitos. Aí seguiu-se um longo relato sobre um revezamento de gente que alimenta aqueles gatos. 

Agucei os ouvidos a escutar Eufemia. Fazia isso há anos, misturava a comida em uma sacola que escondia em meio a cerca viva. As outras voluntarias vinham, cada uma a seu dia, e revezavam-se em dar alimento aos gatinhos. – A senhora tem algum em sua casa, perguntei. Com certa amargura disse-me que sim, teve dois. Teve? – Sim, eles morreram. – Peço desculpas, que pena. Um deles era cinza, com riscas brancas, eu dei-lhe o nome de Riscadinho, contou-me a benfeitora. Riscadinho, era mesmo. 

A história de amor entre ela e Riscadinho era comovente. O gato parecia um bebê, que abraçava e a beijava, gordo e peludo. Mas ficou doente dos rins, definhou, e se despediu dela um dia antes de morrer. Notei a tristeza úmida em seus olhos. Ainda bem que o sol ali estava a secar tristezas. Não podia deixar eufemia deprimida. Lasquei: – Tens outros gatos agora? Para a surpresa do vivente que lhes conta a história, ela diz: – Não, agora tenho uma cachorrinha, a Milú! Um sorriso se abriu. 

A sua filha a havia presenteado com a buldogue francês para que a mãe se obrigasse a sair de casa. Eufemia, portanto, saia agora com Milu todos os dias. Pelo visto o calor da alegria voltou, e ela agora mantem o riscadinho somente nas boas memorias. Riscadinho se foi, Milu chegou e faz-lhe companhia. Nos despedimos, lá se foi Eufemia. Quanto a mim fiquei sem o café com bolo, sem o calor do sol, mas com o coração aquecido pela bela história de amor. Eufemia, os gatos, Milu e Riscadinho.  

  • Por Salvador Neto, Portugal, em 30 de abril de 2024 

Oito obras em 2023 editadas para ler e oferecer

Sem ideias do que oferecer ao seu amigo ou familiar leitor nesta época festiva? E que tal uma obra ‘fresquinha’ e editada este ano? O Notícias ao Minuto fez o ‘trabalho de casa’ por si.

A ficção à não ficção, do romance ao terror e da atualidade aos anos 1950, apresentamos-lhe oito livros para todos os gostos, com particular incidência em mulheres escritoras, de diversas nacionalidades (sim, incluindo a portuguesa).

Mas, caso não seja suficiente, nada tema. Poderá recordar as propostas anteriores quanto à vivência do luto por um pai ou por uma mãe, uma vez que, para muitos, a quadra natalícia tem uma tez agridoce. Há também espaço para leituras que celebrem a sexualidade e a identidade, as mulheres da sua vida (e escritas por mulheres), ou até mesmo que façam lembrar um dia de outono à lareira. Difícil vai ser escolher.

Confira abaixo a lista curada pelo Notícias ao Minuto:

Notícias ao MinutoEscritores & Amores, Lily King© Reprodução/Aurora Editora 

Casey Peabody sente-se perdida. Não só saiu recentemente de um relacionamento amoroso, como está de luto pela morte da mãe. Além disso, o romance que escreve há seis anos parece não ir a lado nenhum, resultando num (inevitável) acumular de dívidas. Como se não bastasse, depara-se com todos os amigos a casar-se e a ter filhos, pelo que, aos 31 anos, sente-se cada vez mais desanimada e estagnada. É então que conhece Silas, gentil, bonito e interessado nela. Mas, apenas algumas semanas depois, Oscar, mais velho, mais fascinante e também mais problemático, entra na sua vida, trazendo consigo os seus dois filhos. Casey fica dividida entre relacionamentos diferentes, que prometem futuros igualmente diferentes – e ainda tem um livro para escrever.

Notícias ao MinutoMaame, Jessica George© Reprodução/TopSeller 

Aos 25 anos, Maddie é a principal cuidadora do pai, que sofre de doença de Parkinson, enquanto a mãe se ausenta durante longos períodos, no Gana. O seu emprego como assistente administrativa num teatro de Londres está a revelar-se um beco sem saída, e a jovem está cansada de sentir que é a única pessoa negra nas reuniões de trabalho. Quando a mãe regressa a Londres durante um ano, Maddie aproveita para sair de casa e começar a fazer todas as coisas que as outras pessoas da sua idade já parecem dominar: partilhar um apartamento com duas outras jovens, sair à noite, ter mais responsabilidades no trabalho e lançar-se no mundo das aplicações de encontros amorosos. Tudo parece estar a entrar nos eixos quando algo terrível acontece, obrigando Maddie a confrontar-se com a complexidade de se sentir dividida entre dois países e duas culturas. Porém, é ao lidar com questões como o trauma, o racismo, a sexualidade e a saúde mental que Maddie tem a oportunidade de descobrir a sua própria força e a sua própria voz.

Notícias ao MinutoMáquina de Escrever Sentimentos, Inês Meneses© Reprodução/Contraponto Editores 

Neste livro, Inês Meneses elege como protagonistas as emoções, que são descritas num tom confessional, sem data ou ordem. A perda da mãe, o lugar permanente das saudades, a importância da memória, a bagagem emocional que se carrega a cada nova viagem, o papel da amizade, e o amor como a única forma de se ser pleno num mundo que nos pode estraçalhar são alguns dos temas desta obra.

Notícias ao MinutoBunny, Mona Awad© Reprodução/Relógio D’Água 

Samantha Heather Mackey não poderia sentir-se mais estranha no seu exclusivo programa de mestrado em Escrita Criativa na Universidade Warren da Nova Inglaterra. Estudante bolseira que prefere a companhia da sua imaginação sombria à das pessoas, Samantha sente repulsa pelas alunas do seu curso de escrita de ficção, um grupo de miúdas ricas e insuportáveis que se tratam umas às outras por ‘Coelhinha’ e que falam como se fossem uma só pessoa. Tudo muda quando Samantha recebe um convite para o famoso ‘Salão Salaz’, pelo qual se vê inexplicavelmente atraída, o que faz com que deixe para trás Ava, a sua única amiga. À medida que mergulha nesse novo e sinistro mundo, as fronteiras da realidade começam a esbater-se.

Notícias ao MinutoImpostora, R.F. Kuang© Reprodução/Desrotina 

Athena Liu é adorada no mundo literário e June Hayward é… ‘ninguém’. Quando Athena morre num acidente, June rouba o seu manuscrito e publica-o como se fosse seu sob o nome ambíguo ‘Juniper Song’. Mas, à medida que as provas ameaçam o seu sucesso roubado, June descobre até onde está disposta a ir para proteger o seu segredo e manter o sucesso que acredita merecer.

Notícias ao MinutoGótico Mexicano, Silvia Moreno-Garcia© Reprodução/Aurora Editora 

Em resposta a uma carta da sua prima com a estranha alegação de que o marido está a tentar envenená-la, Noemí viaja para a vila de El Triunfo. É aqui, no Lugar Alto, que vive Catalina, que se tornou uma sombra de si mesma desde que se casou com Virgil Doyle. Mais de um segredo se esconde por detrás das paredes da mansão. A antiga riqueza obtida com o império mineiro tem protegido os Doyle dos olhares curiosos dos habitantes de El Triunfo. No entanto, à medida que Noemí investiga, começa a ter visões perturbadoras e, pouco a pouco, descobre uma história aterradora que remonta a várias centenas de anos.

Notícias ao MinutoOlá, Linda, Ann Napolitano© Reprodução/TopSeller 

William Waters cresceu numa casa silenciada pela tragédia, na qual os seus pais mal conseguiam olhar para ele. Quando conhece Julia Padavano, é como se o seu mundo se iluminasse. E com Julia vem a sua família, já que a jovem e as três irmãs são inseparáveis. Com os Padavanos, William experimenta um novo sentimento: ter um lar. É então que o passado de William vem à tona, colocando em risco não só os planos cuidadosamente pensados por Julia para o futuro de ambos, mas também a devoção das irmãs. O resultado é uma desavença familiar que muda irremediavelmente as suas vidas.

Notícias ao MinutoO Nome que a Cidade Esqueceu, João Tordo© Reprodução/Companhia das Letras 

Natasha, refugiada de um país da ex-União Soviética, está longe de imaginar que o seu exílio nos Estados Unidos se transformará numa aventura por Nova Iorque e pela alma humana, em pleno 1991. O caminho desta jovem cheia de medos e sonhos cruza-se com o de George B., homem marcado por um passado misterioso, que vive em total isolamento em plena cidade, barricado num apartamento apinhado de objetos inúteis. George oferece a Natasha um emprego bizarro: ler-lhe em voz alta a lista telefónica de Nova Iorque. Enquanto a rapariga aprende a suportar as saudades da sua família e do seu país, esboçando uma nova vida na metrópole, George, por seu lado, procura obsessivamente um nome entre os milhões de nomes que a cidade esqueceu: um nome que poderá salvá-lo, ou ser a sua danação. Tendo como inspiração uma história verdadeira publicada no jornal New York Times, João Tordo constrói um romance que disseca a solidão, a grande doença dos nossos tempos, confrontando as suas personagens e os leitores com o passado com que todos tentamos reconciliar-nos.

  • com informações de o Observador

Poesia de Sexta – “Peito aprisionado”

Na prisão do meu peito aprisionado,
Vive o amor em sufoco e desespero,
Um sentimento tão fortemente isolado,
Preso em grades de um passado austero.

Abandono é o que sinto em minha alma,
Como um poço escuro e sombrio,
Onde a tristeza e a solidão são calma,
E o vazio é meu único desafio.

Mas na prisão da minha existência,
Encontro a luz da amizade verdadeira,
Que desfaz toda minha resistência,
E traz de volta a esperança ligeira.

E é assim, entre prisão e liberdade,
Que busco a felicidade plena e se m fim,
Construindo pontes rumo à minha verdade,
Mesmo que às vezes tudo pareça tão ruim.

Pois a vida é um eterno jogo de dualidade,
E é na adversidade que aprendemos a crescer,
Amar, ser amado, superar a ansiedade,
E lutar para enfim a felicidade merecer.

  • por Salvador Neto, Portugal, 24nov2023

Dom Quixote, resumo e análise da obra

Dom Quixote de La Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha, no original) é uma obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes, publicada em duas partes. A primeira surgiu em 1605 e a segunda dez anos depois, em 1615.

Quando o livro foi traduzido para inglês e francês obteve um êxito súbito, arrebatando leitores de diversas origens.

Capa da primeira edição de Dom Quixote

Considerada a maior obra da literatura espanhola e o segundo livro mais lido da História, seu contributo para a cultura ocidental é incalculável. Dom Quixote é apontado como o primeiro romance moderno, tendo influenciado várias gerações de autores que se seguiram.

As suas personagens parecem ter pulado do livro para o imaginário contemporâneo, sendo representadas através de diversos meios (pintura, poesia, cinema, música, entre outros).

Resumo do livro Dom Quixote

A obra narra as aventuras e desventuras de Dom Quixote, um homem de meia idade que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Providenciando cavalo e armadura, resolve lutar para provar seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária. Consegue também um escudeiro, Sancho Pança, que resolve acompanhá-lo, acreditando que será recompensado.

Quixote mistura fantasia e realidade, se comportando como se estivesse em um romance de cavalaria. Transforma obstáculos banais (como moinhos de vento ou ovelhas) em gigantes e exércitos de inimigos.

É derrotado e espancado inúmeras vezes, sendo batizado de “Cavaleiro da Fraca Figura”, mas sempre se recupera e insiste nos seus objetivos.

Só volta para casa quando é vencido em batalha por outro cavaleiro e forçado a abandonar a cavalaria. Longe da estrada, fica doente e acaba morrendo. Nos seus momentos finais, recupera a consciência e pede perdão aos seus amigos e familiares.

Enredo da obra Dom Quixote

Primeira parte

O protagonista é um homem de meia idade que se dedicava à leitura de romances de cavalaria. Confundindo fantasia e realidade, resolve imitar os heróis e partir em busca de aventuras. Como precisa de uma amada em nome da qual lutar, cria Dulcineia, grande dama inspirada em uma paixão da juventude.

Encontra um albergue simples que confunde com um castelo. Pensando que o dono é um cavaleiro disposto a ordená-lo, resolve guardar o lugar durante a noite. Quando um bando de camponeses se aproxima, pensa que são inimigos e os ataca, acabando machucado. Depois de uma falsa sagração, o dono do albergue o manda embora, dizendo que já é cavaleiro. Embora ferido, Quixote volta para casa feliz.

Ele convence Sancho Pança a se juntar na viagem como escudeiro, com promessas de dinheiro e glória. A sobrinha do protagonista fica preocupada com sua saúde mental e pede ajuda ao Padre, que o diagnostica como louco. Decidem queimar seus livros para resolver o problema, mas ele pensa ser obra de Frestão, seu inimigo feiticeiro.

Quixote, Dore
Ilustração de Gustave Doré, 1863.

Parte em busca de vingança e se depara com cenários do cotidiano que a sua imaginação transforma em adversários. Assim, luta contra moinhos de vento pensando que são gigantes e quando é empurrado por eles, declara que estavam encantados por Frestão.

Passando por dois sacerdotes que carregavam a estátua de uma santa, pensa que está perante dois feiticeiros sequestrando uma princesa e resolve atacá-los. É durante esse episódio que Sancho o batiza de “Cavaleiro da Fraca Figura”.

Em seguida, tenta enfrentar vinte homens que aparecem para roubá-los e ambos acabam sendo espancados. Quando recuperam, encontram dois rebanhos que caminham em direções contrárias e estão prestes a se cruzar. Quixote imagina que são dois exércitos adversários e decide se juntar ao lado mais fraco. Sancho tenta chamar o amo à razão mas ele se recusa a escutar e acaba lutando com os pastores e perdendo até os dentes.

Depois se depara com um grupo de prisioneiros escoltados por guardas, que estavam sendo levados para campos de trabalho forçado. Vendo que estão acorrentados, questiona os homens acerca de seus crimes e todos parecem inofensivos (amor, música e feitiçaria, por exemplo). Decide que é preciso salvá-los e ataca os guardas, livrando os homens de suas correntes. Eles, no entanto, o agridem e assaltam.

Triste, Quixote escreve uma carta de amor para Dulcineia e manda Sancho entregar. No caminho, o escudeiro se depara com o Padre e o Barbeiro que o forçam a revelar o paradeiro do seu amo. O “Cavaleiro da Fraca Figura” é levado para casa mas persiste nas suas fantasias de cavalaria.

Segunda parte

Logo Quixote regressa à estrada e, ao ver um grupo de atores ambulantes, pensar estar perante demônios e monstros, atacando-os. A cena é interrompida pela chegada de outro homem, o Cavaleiro dos Espelhos, que afirma que a sua amada é a mais bela e que está a disposto a duelar quem disser o contrário.

Para defender a honra de Dulcineia, enfrenta o adversário e vence o combate. Descobre que o Cavaleiro dos Espelhos era, na verdade, Sansão Carrasco, um amigo que estava tentando dissuadi-lo da vida de cavalaria.

Mais adiante, Quixote e Sancho conhecem um casal misterioso, o Duque e a Duquesa. Eles revelam que conhecem seus feitos através de um livro que circulava na região. Resolvem recebê-lo com todas as honras dignas de um cavaleiro, rindo das suas ilusões. Pregam também uma peça a Sancho Pança, nomeando o escudeiro para o cargo de governador de um povoado.

Wilhelm Marstrand
Wilhelm Marstrand, Don Quixote and Sancho Panza at a Crossroads, 1908.

Exausto por tentar cumprir todas as obrigações do cargo, Sancho não consegue descansar nem desfrutar a vida, chegando a passar fome por temer o envenenamento. Depois de uma semana, resolve desistir do poder e voltar a ser escudeiro. Novamente reunidos, eles abandonam o castelo dos duques e partem a caminho de Barcelona. É aí que surge o Cavaleiro da Lua Branca afirmando a beleza e superioridade da sua amada.Dom Casmurro: análise completa e resumo do livro LEIA MAIS

Por amor a Dulcineia, o protagonista duela com o Cavaleiro da Lua, concordando em deixar a cavalaria e voltar para casa se perder. Quixote é vencido diante de uma multidão. O adversário era, mais uma vez, Sansão Carrasco, que montou um plano para salvá-lo de suas fantasias. Humilhado, regressa a casa mas acaba ficando doente e deprimido. No seu leito de morte, recupera a consciência e pede perdão à sobrinha e a Sancho Pança, que continua do seu lado até ao suspiro final.

Personagens do livro Dom Quixote

Dom Quixote

O protagonista é um fidalgo de meia idade, sonhador e idealista que te tanto ler romances de cavalaria e sonhar com feitos heroicos, perdeu a razão. Convencido de que é um cavaleiro andante, vive em busca de aventuras e duelos para provar o seu valor e a sua paixão por Dulcineia.

Sancho Pança

Um homem do povo, Sancho é ambicioso e se junta a Quixote em busca de dinheiro e poder. Realista, vê as fantasias de seu amo e procura ajudá-lo a encarar a realidade mas acaba se envolvendo nas suas confusões. Apesar de todas as falhas de Quixote, seu respeito, amizade e lealdade pelo cavaleiro se mantêm até ao final.

Dulcineia de Toboso

Fruto da imaginação de Quixote, Dulcineia é uma dama da alta sociedade, incomparável em beleza e honra. Inspirada na camponesa Aldonza Lorenzo, seu amor de juventude, a amada de Quixote é uma projeção das mulheres representadas nos romances de cavalaria. Querendo lutar por amor, o protagonista cria uma ligação platônica e indestrutível com essa figura.

Padre e Barbeiro

Por causa da preocupação de Dolores, a sobrinha de Quixote, estes dois personagens resolvem intervir e ajudar o amigo. Estão convencidos de que o homem teria sido corrompido pelas suas leituras mas, mesmo quando destroem sua biblioteca, não conseguem curá-lo.

Sansão Carrasco

Na tentativa de resgatar o amigo, Sansão precisa usar a loucura a seu favor. Assim, é através da cavalaria que consegue resolver a questão. Para isso, precisa se disfarçar e derrotar Quixote, diante de todos.

Análise da obra

Dom Quixote de La Mancha é um livro dividido em 126 capítulos. A obra foi publicada em duas partes, refletindo diferentes influências: a primeira se aproxima do estilo maneirista e a segunda do barroco.

Inspirado nos romances de cavalaria que já estavam caindo em desuso e no idealismo que atravessava as artes e as letras, Dom Quixote é, ao mesmo tempo, uma sátira e uma homenagem.

Misturando tragédia e comédia e combinando registros populares e eruditos de linguagem, esta é uma obra muito rica. A sua estrutura contribui em larga medida para a sua complexidade, criando várias camadas narrativas que dialogam entre si.

Na primeira parte, o narrador aponta que esta é a tradução de um manuscrito árabe, cujo autor é alguém chamado Cid Hamete Benengeli. Contudo, ele não se limita a traduzir: tece comentários e faz correções frequentemente.

Na parte seguinte, o protagonista e seu escudeiro descobrem a existência de um livro chamado O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote da Mancha, onde seus feitos eram narrados. Encontram o Duque e a Duquesa, entre outros indivíduos, que tinham sido leitores de suas aventuras, passando também a ser personagens.

Romances de cavalaria e amor imaginário

O protagonista, de seu verdadeiro nome Alonso Quijano, é um homem cuja mente para ter sido “contaminada” pela leitura de romances de cavalaria. Assim, a leitura é apontada como uma atividade muito poderosa, capaz de mudar o comportamento de um indivíduo e até mesmo de o corromper.

Atraído pelos valores transmitidos nessas narrativas (glória, honra, coragem), Quixote troca o tédio da vida burguesa pelas aventuras da cavalaria. Tentando imitar seus heróis, precisa lutar para defender a honra de sua amada, correndo todos os riscos para conquistar seu coração. Cria, então, Dulcineia de Toboso.

É através desse amor imaginário que Quixote se mantem motivado e disposto a se reerguer vezes sem conta. Adotando uma postura petrarquista (sentimento amoroso como servidão), justifica suas ações:

(…) o Amor nem atende a respeitos, nem guarda limites de razão nos seus discursos, e tem a mesma condição que a morte, a qual tanto acomete os alcáçares dos reis, como as humildes choças dos pastores; e, quando toma inteira posse de uma alma, a primeira coisa que faz é tirar-lhe o temor e a vergonha”

Parte 2, capítulo LVIII

Deste modo, explica que a paixão é uma espécie de loucura permitida, graças à qual todas as pessoas perdem a razão. O seu sentimento platônico parece ser o mais duradouro, já que não se concretiza e, por isso, também não se deteriora com o tempo.

Dom Quixote e Sancho Pança

Um dos elementos que mais captam a atenção dos leitores é a relação entre Dom Quixote e Sancho Pança e a estranha simbiose que se forma entre eles. Apresentando visões opostas do mundo (espiritualista / idealista e materialista / realista), os personagens contrastam e se complementam simultaneamente, criando uma grande amizade.

Embora durante grande parte da narrativa Sancho seja a “voz da razão”, procurando encarar todos os acontecimentos com bom senso e realismo, começa a ser contagiado pela loucura do seu amo. Inicialmente motivado pelo dinheiro, abandona sua família para seguir os delírios do cavaleiro.

Essa é uma das diferenças cruciais entre os companheiros: Quixote era um homem burguês, com condições financeiras que permitiam passear e viver aventuras. Sancho, pelo contrário, era um homem do povo, preocupado em sustentar a família e garantir o futuro.

Ambicioso, acredita nas promessas do cavaleiro e espera se tornar o governador de um reino conquistado por Quixote.

Sua admiração e respeito pelo mestre vão crescendo e Sancho acaba virando um sonhador também:

Esse meu mestre, por mil sinais, foi visto como um lunático, e também eu não fiquei para trás, pois sou mais pateta que ele, já que o sigo e o sirvo…

Parte 2, Capítulo XX

O seu desejo acaba sendo realizado quando o Duque e a Duquesa, que tinham lido sobre as aventuras e aspirações da dupla, resolvem pregar uma peça a Sancho. A ação que decorre na Ilha da Barataria é uma espécie de ficção dentro da ficção onde assistimos ao período em que o escudeiro é governador.

É interessante notar a racionalidade dos conselhos que Quixote dá ao seu amigo sobre as suas responsabilidades e a importância de manter uma conduta irrepreensível.

O que deveria ser uma brincadeira acaba funcionando e Sancho se revela justo e competente. No entanto, desiste depois de uma semana, infeliz e exausto. Percebe, então, que dinheiro e poder não são sinônimos de felicidade e sente saudades de sua família, decidindo regressar.

Imaginação como lente transfiguradora

Dom Quixote mistura e contrapõe fantasia e realidade, através do olhar do protagonista. Encarando os livros de cavalaria como um refúgio da vida banal e monótona, o cavaleiro utiliza a imaginação para reinventar o mundo que o rodeia. Criando inimigos e obstáculos a partir de objetos do cotidiano, ignora os contratempos da vida real.

Daumuier, 1865 - 1870
Daumier Honore, Don Quixote, 1865 – 1870.

De todos os seus duelos com adversários imaginários, se destaca a cena dos moinhos de vento: a imagem se tornou um símbolo para as causas impossíveis, para os idealistas e os sonhadores. Quixote, encarado por todos como um louco, pode ser apenas visto como um homem disposto a tudo para correr atrás dos seus sonhos.

Apesar da impossibilidade de ser um verdadeiro cavaleiro andante, o protagonista da obra vive sua utopia, através da fantasia e das aventuras que cria para si mesmo.

O “Cavaleiro da Fraca Figura” vai mais longe, moldando e transformando também a realidade daqueles que o acompanham durante a viagem. Isso acontece com Sancho Pança, seu maior cúmplice, com o Duque e a Duquesa e também com os próprios leitores da obra.

Se no início achamos que ele é apenas um louco, aos poucos vamos reparando na sua sabedoria, na grandeza de seus valores e na sua estranha lucidez face ao resto do mundo.

Significado da obra

No final da narrativa, quando perde um duelo e é forçado a deixar a cavalaria, o protagonista fica deprimido e doente. Nesse momento, parece recuperar a consciência, percebendo que nunca foi um cavaleiro andante. Pede perdão à família e aos amigos, principalmente a Sancho, o fiel companheiro que arriscou a vida do seu lado.

Octavio Ocampo, Visions of Don Quixote, 1989
Octavio Ocampo, Visions of Don Quixote, 1989.

A obra, no entanto, deixa o questionamento: será que Quixote estava realmente louco? Podemos argumentar que o “Cavaleiro da Fraca Figura” estava apenas vivendo do jeito que queria e mudando sua realidade, de forma a ser mais feliz e reencontrar a alegria e o entusiasmo.

Sua suposta loucura possibilitou aventuras que não viveria de outra forma, algo que fica claro no seu epitáfio:

Teve tudo em muito pouco / Porque viveu como um louco

O idealismo do protagonista, em contraste com a dureza da realidade, provoca gargalhadas e, simultaneamente, conquista a empatia do leitor. Através das várias peripécias e derrotas de Quixote, Miguel de Cervantes faz uma crítica à realidade política e social do seu país.

Na sequência do regime absolutista do rei Felipe II, a Espanha enfrentava uma fase de pobreza causada pelos gastos militares e expansionistas. Ao longo da obra, é notória a miséria dos vários indivíduos que enganam e roubam para sobreviver, contrastando em tudo com os heróis dos romances de cavalaria.

Assim, os comportamentos aparentemente tresloucados do protagonista podem ser interpretados como uma forma de protesto, de crítica social, na busca de valores que parecem perdidos ou ultrapassados.

Quixote inspira seus leitores a lutar pelo mundo no qual querem viver, lembrando que nunca devemos nos acomodar nem ignorar as injustiças.

Símbolo de sonhadores e idealistas ao longo dos séculos, o personagem representa a importância da liberdade (de pensar, ser, viver) acima de todas as outras coisas:

A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida…

Parte 2, Capítulo LVIII

Dom Quixote no imaginário contemporâneo

Uma enorme influência para incontáveis romances que se seguiram, a obra de Miguel de Cervantes catapultou Dom Quixote e Sancho Pança para o imaginário contemporâneo. Ao longo de séculos, as figuras têm inspirado artistas das mais diversas áreas.

Dom Quixote de La Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha, no original) é uma obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes, publicada em duas partes. A primeira surgiu em 1605 e a segunda dez anos depois, em 1615.

Quando o livro foi traduzido para inglês e francês obteve um êxito súbito, arrebatando leitores de diversas origens.

Capa da primeira edição de Dom Quixote

Considerada a maior obra da literatura espanhola e o segundo livro mais lido da História, seu contributo para a cultura ocidental é incalculável. Dom Quixote é apontado como o primeiro romance moderno, tendo influenciado várias gerações de autores que se seguiram.

As suas personagens parecem ter pulado do livro para o imaginário contemporâneo, sendo representadas através de diversos meios (pintura, poesia, cinema, música, entre outros).

Resumo do livro Dom Quixote

A obra narra as aventuras e desventuras de Dom Quixote, um homem de meia idade que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Providenciando cavalo e armadura, resolve lutar para provar seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária. Consegue também um escudeiro, Sancho Pança, que resolve acompanhá-lo, acreditando que será recompensado.

Quixote mistura fantasia e realidade, se comportando como se estivesse em um romance de cavalaria. Transforma obstáculos banais (como moinhos de vento ou ovelhas) em gigantes e exércitos de inimigos.

É derrotado e espancado inúmeras vezes, sendo batizado de “Cavaleiro da Fraca Figura”, mas sempre se recupera e insiste nos seus objetivos.

Só volta para casa quando é vencido em batalha por outro cavaleiro e forçado a abandonar a cavalaria. Longe da estrada, fica doente e acaba morrendo. Nos seus momentos finais, recupera a consciência e pede perdão aos seus amigos e familiares.

Enredo da obra Dom Quixote

Primeira parte

O protagonista é um homem de meia idade que se dedicava à leitura de romances de cavalaria. Confundindo fantasia e realidade, resolve imitar os heróis e partir em busca de aventuras. Como precisa de uma amada em nome da qual lutar, cria Dulcineia, grande dama inspirada em uma paixão da juventude.

Encontra um albergue simples que confunde com um castelo. Pensando que o dono é um cavaleiro disposto a ordená-lo, resolve guardar o lugar durante a noite. Quando um bando de camponeses se aproxima, pensa que são inimigos e os ataca, acabando machucado. Depois de uma falsa sagração, o dono do albergue o manda embora, dizendo que já é cavaleiro. Embora ferido, Quixote volta para casa feliz.

Ele convence Sancho Pança a se juntar na viagem como escudeiro, com promessas de dinheiro e glória. A sobrinha do protagonista fica preocupada com sua saúde mental e pede ajuda ao Padre, que o diagnostica como louco. Decidem queimar seus livros para resolver o problema, mas ele pensa ser obra de Frestão, seu inimigo feiticeiro.

Quixote, Dore
Ilustração de Gustave Doré, 1863.

Parte em busca de vingança e se depara com cenários do cotidiano que a sua imaginação transforma em adversários. Assim, luta contra moinhos de vento pensando que são gigantes e quando é empurrado por eles, declara que estavam encantados por Frestão.

Passando por dois sacerdotes que carregavam a estátua de uma santa, pensa que está perante dois feiticeiros sequestrando uma princesa e resolve atacá-los. É durante esse episódio que Sancho o batiza de “Cavaleiro da Fraca Figura”.

Em seguida, tenta enfrentar vinte homens que aparecem para roubá-los e ambos acabam sendo espancados. Quando recuperam, encontram dois rebanhos que caminham em direções contrárias e estão prestes a se cruzar. Quixote imagina que são dois exércitos adversários e decide se juntar ao lado mais fraco. Sancho tenta chamar o amo à razão mas ele se recusa a escutar e acaba lutando com os pastores e perdendo até os dentes.

Depois se depara com um grupo de prisioneiros escoltados por guardas, que estavam sendo levados para campos de trabalho forçado. Vendo que estão acorrentados, questiona os homens acerca de seus crimes e todos parecem inofensivos (amor, música e feitiçaria, por exemplo). Decide que é preciso salvá-los e ataca os guardas, livrando os homens de suas correntes. Eles, no entanto, o agridem e assaltam.

Triste, Quixote escreve uma carta de amor para Dulcineia e manda Sancho entregar. No caminho, o escudeiro se depara com o Padre e o Barbeiro que o forçam a revelar o paradeiro do seu amo. O “Cavaleiro da Fraca Figura” é levado para casa mas persiste nas suas fantasias de cavalaria.

Segunda parte

Logo Quixote regressa à estrada e, ao ver um grupo de atores ambulantes, pensar estar perante demônios e monstros, atacando-os. A cena é interrompida pela chegada de outro homem, o Cavaleiro dos Espelhos, que afirma que a sua amada é a mais bela e que está a disposto a duelar quem disser o contrário.

Para defender a honra de Dulcineia, enfrenta o adversário e vence o combate. Descobre que o Cavaleiro dos Espelhos era, na verdade, Sansão Carrasco, um amigo que estava tentando dissuadi-lo da vida de cavalaria.

Mais adiante, Quixote e Sancho conhecem um casal misterioso, o Duque e a Duquesa. Eles revelam que conhecem seus feitos através de um livro que circulava na região. Resolvem recebê-lo com todas as honras dignas de um cavaleiro, rindo das suas ilusões. Pregam também uma peça a Sancho Pança, nomeando o escudeiro para o cargo de governador de um povoado.

Wilhelm Marstrand
Wilhelm Marstrand, Don Quixote and Sancho Panza at a Crossroads, 1908.

Exausto por tentar cumprir todas as obrigações do cargo, Sancho não consegue descansar nem desfrutar a vida, chegando a passar fome por temer o envenenamento. Depois de uma semana, resolve desistir do poder e voltar a ser escudeiro. Novamente reunidos, eles abandonam o castelo dos duques e partem a caminho de Barcelona. É aí que surge o Cavaleiro da Lua Branca afirmando a beleza e superioridade da sua amada.Dom Casmurro: análise completa e resumo do livro LEIA MAIS

Por amor a Dulcineia, o protagonista duela com o Cavaleiro da Lua, concordando em deixar a cavalaria e voltar para casa se perder. Quixote é vencido diante de uma multidão. O adversário era, mais uma vez, Sansão Carrasco, que montou um plano para salvá-lo de suas fantasias. Humilhado, regressa a casa mas acaba ficando doente e deprimido. No seu leito de morte, recupera a consciência e pede perdão à sobrinha e a Sancho Pança, que continua do seu lado até ao suspiro final.

Personagens do livro Dom Quixote

Dom Quixote

O protagonista é um fidalgo de meia idade, sonhador e idealista que te tanto ler romances de cavalaria e sonhar com feitos heroicos, perdeu a razão. Convencido de que é um cavaleiro andante, vive em busca de aventuras e duelos para provar o seu valor e a sua paixão por Dulcineia.

Sancho Pança

Um homem do povo, Sancho é ambicioso e se junta a Quixote em busca de dinheiro e poder. Realista, vê as fantasias de seu amo e procura ajudá-lo a encarar a realidade mas acaba se envolvendo nas suas confusões. Apesar de todas as falhas de Quixote, seu respeito, amizade e lealdade pelo cavaleiro se mantêm até ao final.

Dulcineia de Toboso

Fruto da imaginação de Quixote, Dulcineia é uma dama da alta sociedade, incomparável em beleza e honra. Inspirada na camponesa Aldonza Lorenzo, seu amor de juventude, a amada de Quixote é uma projeção das mulheres representadas nos romances de cavalaria. Querendo lutar por amor, o protagonista cria uma ligação platônica e indestrutível com essa figura.

Padre e Barbeiro

Por causa da preocupação de Dolores, a sobrinha de Quixote, estes dois personagens resolvem intervir e ajudar o amigo. Estão convencidos de que o homem teria sido corrompido pelas suas leituras mas, mesmo quando destroem sua biblioteca, não conseguem curá-lo.

Sansão Carrasco

Na tentativa de resgatar o amigo, Sansão precisa usar a loucura a seu favor. Assim, é através da cavalaria que consegue resolver a questão. Para isso, precisa se disfarçar e derrotar Quixote, diante de todos.

Análise da obra

Dom Quixote de La Mancha é um livro dividido em 126 capítulos. A obra foi publicada em duas partes, refletindo diferentes influências: a primeira se aproxima do estilo maneirista e a segunda do barroco.

Inspirado nos romances de cavalaria que já estavam caindo em desuso e no idealismo que atravessava as artes e as letras, Dom Quixote é, ao mesmo tempo, uma sátira e uma homenagem.

Misturando tragédia e comédia e combinando registros populares e eruditos de linguagem, esta é uma obra muito rica. A sua estrutura contribui em larga medida para a sua complexidade, criando várias camadas narrativas que dialogam entre si.

Na primeira parte, o narrador aponta que esta é a tradução de um manuscrito árabe, cujo autor é alguém chamado Cid Hamete Benengeli. Contudo, ele não se limita a traduzir: tece comentários e faz correções frequentemente.

Na parte seguinte, o protagonista e seu escudeiro descobrem a existência de um livro chamado O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote da Mancha, onde seus feitos eram narrados. Encontram o Duque e a Duquesa, entre outros indivíduos, que tinham sido leitores de suas aventuras, passando também a ser personagens.

Romances de cavalaria e amor imaginário

O protagonista, de seu verdadeiro nome Alonso Quijano, é um homem cuja mente para ter sido “contaminada” pela leitura de romances de cavalaria. Assim, a leitura é apontada como uma atividade muito poderosa, capaz de mudar o comportamento de um indivíduo e até mesmo de o corromper.

Atraído pelos valores transmitidos nessas narrativas (glória, honra, coragem), Quixote troca o tédio da vida burguesa pelas aventuras da cavalaria. Tentando imitar seus heróis, precisa lutar para defender a honra de sua amada, correndo todos os riscos para conquistar seu coração. Cria, então, Dulcineia de Toboso.

É através desse amor imaginário que Quixote se mantem motivado e disposto a se reerguer vezes sem conta. Adotando uma postura petrarquista (sentimento amoroso como servidão), justifica suas ações:

(…) o Amor nem atende a respeitos, nem guarda limites de razão nos seus discursos, e tem a mesma condição que a morte, a qual tanto acomete os alcáçares dos reis, como as humildes choças dos pastores; e, quando toma inteira posse de uma alma, a primeira coisa que faz é tirar-lhe o temor e a vergonha”

Parte 2, capítulo LVIII

Deste modo, explica que a paixão é uma espécie de loucura permitida, graças à qual todas as pessoas perdem a razão. O seu sentimento platônico parece ser o mais duradouro, já que não se concretiza e, por isso, também não se deteriora com o tempo.

Dom Quixote e Sancho Pança

Um dos elementos que mais captam a atenção dos leitores é a relação entre Dom Quixote e Sancho Pança e a estranha simbiose que se forma entre eles. Apresentando visões opostas do mundo (espiritualista / idealista e materialista / realista), os personagens contrastam e se complementam simultaneamente, criando uma grande amizade.

Embora durante grande parte da narrativa Sancho seja a “voz da razão”, procurando encarar todos os acontecimentos com bom senso e realismo, começa a ser contagiado pela loucura do seu amo. Inicialmente motivado pelo dinheiro, abandona sua família para seguir os delírios do cavaleiro.

Essa é uma das diferenças cruciais entre os companheiros: Quixote era um homem burguês, com condições financeiras que permitiam passear e viver aventuras. Sancho, pelo contrário, era um homem do povo, preocupado em sustentar a família e garantir o futuro.

Ambicioso, acredita nas promessas do cavaleiro e espera se tornar o governador de um reino conquistado por Quixote.

Sua admiração e respeito pelo mestre vão crescendo e Sancho acaba virando um sonhador também:

Esse meu mestre, por mil sinais, foi visto como um lunático, e também eu não fiquei para trás, pois sou mais pateta que ele, já que o sigo e o sirvo…

Parte 2, Capítulo XX

O seu desejo acaba sendo realizado quando o Duque e a Duquesa, que tinham lido sobre as aventuras e aspirações da dupla, resolvem pregar uma peça a Sancho. A ação que decorre na Ilha da Barataria é uma espécie de ficção dentro da ficção onde assistimos ao período em que o escudeiro é governador.

É interessante notar a racionalidade dos conselhos que Quixote dá ao seu amigo sobre as suas responsabilidades e a importância de manter uma conduta irrepreensível.

O que deveria ser uma brincadeira acaba funcionando e Sancho se revela justo e competente. No entanto, desiste depois de uma semana, infeliz e exausto. Percebe, então, que dinheiro e poder não são sinônimos de felicidade e sente saudades de sua família, decidindo regressar.

Imaginação como lente transfiguradora

Dom Quixote mistura e contrapõe fantasia e realidade, através do olhar do protagonista. Encarando os livros de cavalaria como um refúgio da vida banal e monótona, o cavaleiro utiliza a imaginação para reinventar o mundo que o rodeia. Criando inimigos e obstáculos a partir de objetos do cotidiano, ignora os contratempos da vida real.

Daumuier, 1865 - 1870
Daumier Honore, Don Quixote, 1865 – 1870.

De todos os seus duelos com adversários imaginários, se destaca a cena dos moinhos de vento: a imagem se tornou um símbolo para as causas impossíveis, para os idealistas e os sonhadores. Quixote, encarado por todos como um louco, pode ser apenas visto como um homem disposto a tudo para correr atrás dos seus sonhos.

Apesar da impossibilidade de ser um verdadeiro cavaleiro andante, o protagonista da obra vive sua utopia, através da fantasia e das aventuras que cria para si mesmo.

O “Cavaleiro da Fraca Figura” vai mais longe, moldando e transformando também a realidade daqueles que o acompanham durante a viagem. Isso acontece com Sancho Pança, seu maior cúmplice, com o Duque e a Duquesa e também com os próprios leitores da obra.

Se no início achamos que ele é apenas um louco, aos poucos vamos reparando na sua sabedoria, na grandeza de seus valores e na sua estranha lucidez face ao resto do mundo.

Significado da obra

No final da narrativa, quando perde um duelo e é forçado a deixar a cavalaria, o protagonista fica deprimido e doente. Nesse momento, parece recuperar a consciência, percebendo que nunca foi um cavaleiro andante. Pede perdão à família e aos amigos, principalmente a Sancho, o fiel companheiro que arriscou a vida do seu lado.

Octavio Ocampo, Visions of Don Quixote, 1989
Octavio Ocampo, Visions of Don Quixote, 1989.

A obra, no entanto, deixa o questionamento: será que Quixote estava realmente louco? Podemos argumentar que o “Cavaleiro da Fraca Figura” estava apenas vivendo do jeito que queria e mudando sua realidade, de forma a ser mais feliz e reencontrar a alegria e o entusiasmo.

Sua suposta loucura possibilitou aventuras que não viveria de outra forma, algo que fica claro no seu epitáfio:

Teve tudo em muito pouco / Porque viveu como um louco

O idealismo do protagonista, em contraste com a dureza da realidade, provoca gargalhadas e, simultaneamente, conquista a empatia do leitor. Através das várias peripécias e derrotas de Quixote, Miguel de Cervantes faz uma crítica à realidade política e social do seu país.

Na sequência do regime absolutista do rei Felipe II, a Espanha enfrentava uma fase de pobreza causada pelos gastos militares e expansionistas. Ao longo da obra, é notória a miséria dos vários indivíduos que enganam e roubam para sobreviver, contrastando em tudo com os heróis dos romances de cavalaria.

Assim, os comportamentos aparentemente tresloucados do protagonista podem ser interpretados como uma forma de protesto, de crítica social, na busca de valores que parecem perdidos ou ultrapassados.

Quixote inspira seus leitores a lutar pelo mundo no qual querem viver, lembrando que nunca devemos nos acomodar nem ignorar as injustiças.

Símbolo de sonhadores e idealistas ao longo dos séculos, o personagem representa a importância da liberdade (de pensar, ser, viver) acima de todas as outras coisas:

A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida…

Parte 2, Capítulo LVIII

Dom Quixote no imaginário contemporâneo

Uma enorme influência para incontáveis romances que se seguiram, a obra de Miguel de Cervantes catapultou Dom Quixote e Sancho Pança para o imaginário contemporâneo. Ao longo de séculos, as figuras têm inspirado artistas das mais diversas áreas.

MARBELLA, ANDALUZIA/ESPANHA - 23 DE MAIO: Don Quixote Sentado Estátua por Salvador Dali em Marbella Espanha em 23 de maio de 2016
MARBELLA, ANDALUZIA/ESPANHA – 23 DE MAIO: Don Quixote Sentado Estátua por Salvador Dali em Marbella Espanha em 23 de maio de 2016. Philip Bird LRPS CPAGB/Shutterstock.com

Grandes pintores como Goya, Hogarth, Dali e Picasso representaram a obra de Cervantes, que também inspirou várias adaptações literárias e teatrais.

Na língua portuguesa, “quixotesco” se tornou um adjetivo atribuído a pessoas ingênuas, sonhadoras e com objetivos nobres. Em 1956, o pintor brasileiro Cândido Portinari lançou uma série de vinte e uma gravuras que retratam passagens marcantes da obra.

Cândido Portinari, Dom Quixote atacando um rebanho de ovelhas
Cândido Portinari, Dom Quixote atacando um rebanho de ovelhas, 1956.

Em 1972, Carlos Drummond de Andrade publicou um livreto com vinte e um poemas, baseados nas ilustrações de Portinari, entre os quais se destaca “Disquisição da Insônia”:

Disquisição na insônia


Que é loucura; ser cavaleiro andante
Ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
Vê o real e segue o sonho
De um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
E me sabendo tal, sem grão de siso,
Sou – que doideira – um louco de juízo.

Em 2003, a banda Engenheiros do Hawaii lançou a música “Dom Quixote”, recuperando o caráter humorístico do personagem. Totalmente desenquadrado na sociedade, continua sonhando e lutando “por amor às causas perdidas”.

Dom Quixote

Muito prazer, meu nome é otário
Vindo de outros tempos, mas sempre no horário
Peixe fora d’água, borboletas no aquário
Muito prazer, meu nome é otário
Na ponta dos cascos e fora do páreo
Puro sangue, puxando carroça

Um prazer cada vez mais raro
Aerodinâmica num tanque de guerra
Vaidades que a terra um dia há de comer
Ás de Espadas fora do baralho
Grandes negócios, pequeno empresário
Muito prazer, me chamam de otário

Por amor às causas perdidas
Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Tudo bem, seja o que for
Seja por amor às causas perdidas

Recentemente, Terry Gilliam dirigiu e escreveu uma adaptação para o cinema. O filme de fantasia, comédia e aventura intitulado O Homem Que Matou Dom Quixote foi lançado dia 19 de março de 2018 no Festival de Cinema de Cannes.

Imagem do filme The Man Who Killed Don Quixote, 2018
Imagem do filme O Homem que Matou Dom Quixote (2018).

Miguel de Cervantes: autor de Dom Quixote

Miguel de Cervantes y Saavedra (29 de setembro de 1547 – ‎22 de abril de 1616) foi um romancista, poeta e dramaturgo espanhol. Seu contributo para a literatura e o próprio idioma espanhol foi tão impactante que este é, muitas vezes, intitulado “a língua de Cervantes”.

Retrato de Miguel de Cervantes pintado por Juan de Jauregu (1600).
Retrato de Miguel de Cervantes pintado por Juan de Jáuregu (1600).

Foi também soldado e seu amor pelas armas parece surgir em algumas passagens de seu romance mais famoso, Dom Quixote de La Mancha. Publicou também Novelas exemplares (1613), Viagem de Parnaso (1614) e Oito comédias e oito entremezes novos nunca antes representados (1615). Depois de sua morte, foi publicada a obra Os trabalhos de Persiles e Sigismunda (1617).

  • com informações de Cultura Genial

Poesia de Segunda – “Escombros”

Em meio à escuridão que me invade a alma,
Eu sinto a desilusão fluir em cada veia,
Os sonhos outrora vivos, agora são carmas,
E a desesperança se instala feito uma teia.

As promessas vazias, como vento passageiro,
Desvaneceram-se no ar, num sopro sem rumo,
Decepção é o amargo sabor, verdade cruel,
Que atravessa o coração, deixando-o em jejum.

Nos olhos que outrora brilhavam esperanças,
Agora restam mágoas, lágrimas e tristeza,
A vida que parecia um trilho de bonanças,
Transformou-se numa estrada repleta de incertezas.

A desilusão é um vento que sopra sem piedade,
Levando embora a alegria e a fé em cada passo,
E o desespero é o abismo que me invade, com voracidade,
Engolindo os sonhos, deixando só o fracasso.

Mas apesar da tormenta que em meu peito há,
Ergo-me diante do desânimo que me consome,
Pois a vida é feita de momentos bons e maus,
E a esperança há de brotar novamente, mesmo que demore.

A desilusão e a desesperança são escolhos,
Que enrijecem os corações em profunda dor,
Mas acreditar na superação, no renascer dos escolhos,
É o primeiro passo para abrir as portas do amor.

Então, mergulho na incerteza, mas com resiliência,
Enfrento os tempos sombrios com bravura e coragem,
Pois sei que a desilusão é apenas uma aparência,
E que a desesperança se dissolve em sua própria miragem.

Ainda que as feridas persistam e doam com ardor,
Sigo adiante na busca de um novo horizonte,
Deixando para trás o peso de cada desilusão e desamor,
Confiantemente, reconstruo-me em cada recomeço.

  • por Salvador Neto, 20nov2023

Poesia de Sexta – Partilha

Sabe que sinto com profundidade
Também sei o que é ter saudade
Por isso abraço esse vento na janela
É um jeito simples de ter tua partilha

Sinto com profundidade porque sou
Saudade
Quero tua presença ainda que distante
Felicidade

O abraço no vento não explica nem tem
Razão
É partilha, é oração, perto ou longe
Emoção

por Salvador Neto, Portugal, 10nov2023

#poemas#partilha#poesia#literatura

Poesia de Terça – Sonho de Paz

No azul do céu, brilha o sol a me guiar
No canto dos pássaros, ouço a lua a cantar
E nesse universo de luz e esplendor
Vou te cantar uma história de amor

No brilho dos olhos, o pensamento voa
Num abraço apertado, a paz se entrelaça à nossa pele
E nesse encontro de almas em sintonia
Vamos construir uma eterna sinfonia

Com o coração ardendo de esperança
Vamos colorir o mundo com nossa confiança
E no ritmo dessa melodia celestial
Vamos espalhar o amor em cada portal

Sol, lua, amor e pensamento
Paz, esperança, o nosso juramento
Que essas palavras possam ecoar
E transformar nosso mundo em um lugar melhor de habitar

Que o sol nos aqueça e nos faça sorrir
Que a lua nos guie, nos faça refletir
Que o amor nos envolva e nos faça sonhar
Que o pensamento nos inspire a criar

Que a paz nos inunde, nos traga harmonia
Que a esperança nos fortaleça em cada dia
E que juntos possamos, enfim, alcançar
Um mundo onde o amor eternamente irá reinar.

* por Salvador Neto, Portugal, 3nov2023