Poesia de Sexta – “Peito aprisionado”

Na prisão do meu peito aprisionado,
Vive o amor em sufoco e desespero,
Um sentimento tão fortemente isolado,
Preso em grades de um passado austero.

Abandono é o que sinto em minha alma,
Como um poço escuro e sombrio,
Onde a tristeza e a solidão são calma,
E o vazio é meu único desafio.

Mas na prisão da minha existência,
Encontro a luz da amizade verdadeira,
Que desfaz toda minha resistência,
E traz de volta a esperança ligeira.

E é assim, entre prisão e liberdade,
Que busco a felicidade plena e se m fim,
Construindo pontes rumo à minha verdade,
Mesmo que às vezes tudo pareça tão ruim.

Pois a vida é um eterno jogo de dualidade,
E é na adversidade que aprendemos a crescer,
Amar, ser amado, superar a ansiedade,
E lutar para enfim a felicidade merecer.

  • por Salvador Neto, Portugal, 24nov2023

Jimmy Kimmel apresenta o Óscar pela quarta vez


O espetáculo de entrega de prémios da academia norte-americana de cinema terá lugar a 10 de março de 2024.

O apresentador de programas de televisão Jimmy Kimmel, vai repetir funções como anfitrião da entrega dos Óscares, anunciou a academia norte-americana de cinema. Será a quarta vez de Kimmel como mestre de cerimónias do evento que terá a 96.ª edição a 10 de março de 2024, com transmissão em direto para todo o mundo.

Kimmel é o apresentador e produtor executivo do programa “Jimmy Kimmel Live” no canal ABC e um dos apresentadores de talk shows mais antigos na história da televisão americana. Antes de ter sido anfitrião da 95.ª edição dos Óscares, conduziu o evento em duas ocasiões consecutivas, em 2017 e 2018.

A próxima entrega dos Óscares, terá lugar durante a madrugada 10 para 11 de março de 2024 (domingo para segunda-feira, hora portuguesa), no Dolby Theatre em Hollywood, com transmissão em direto pela ABC para mais de 200 países. O anúncio dos nomeados está marcado para 23 de janeiro.

Gilberto Gil abre o Coala Festival em Portugal em 2024

O evento brasileiro Coala Festival vai estrear-se em Portugal, em Cascais, nos dias 1 e 2 de junho do próximo ano, com o músico Gilberto Gil como primeiro cabeça de cartaz, anunciou hoje a organização.

Coala Festival chega a Portugal em 2024 com Gilberto Gil à cabeça

“O Coala Festival nasceu em 2014 com a proposta de ser um grande palco para a nova música brasileira em um contexto no qual a maioria dos festivais tinha foco em artistas e bandas internacionais. Virámos referência no Brasil e, agora, vamos levar essa identidade para Portugal com foco não apenas na música brasileira, mas na música em língua portuguesa como um todo, unindo as pontas do triângulo África, Portugal e Brasil”, afirmou o sócio-fundador e curador do Coala Festival Gabriel Andrade, citado em comunicado divulgado hoje.

A curadoria é partilhada com o músico e escritor Kalaf Epalanga, adiantou a organização. O festival vai ter lugar no Hipódromo de Cascais e a organização remete mais detalhes para breve.

A edição deste ano do Coala Festival, no Brasil, aconteceu em setembro e contou com nomes como Jorge Ben Jor, a celebração dos 50 anos dos Novos Baianos, João Donato e Martinho da Vila, Fafá de Belém, Boogarins, Céu e Joyce Moreno, Metá Metá, entre muitos outros.

Gilberto Gil regressa assim a Portugal menos de um ano depois de ter atuado, em outubro, nos coliseus de Lisboa e Porto, no âmbito da digressão “Aquele Abraço”. Com uma carreira musical que se iniciou na década de 1950, Gilberto Gil, de 81 anos, é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2021 e foi ministro da Cultura entre 2003 e 2008.

Dom Quixote, resumo e análise da obra

Dom Quixote de La Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha, no original) é uma obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes, publicada em duas partes. A primeira surgiu em 1605 e a segunda dez anos depois, em 1615.

Quando o livro foi traduzido para inglês e francês obteve um êxito súbito, arrebatando leitores de diversas origens.

Capa da primeira edição de Dom Quixote

Considerada a maior obra da literatura espanhola e o segundo livro mais lido da História, seu contributo para a cultura ocidental é incalculável. Dom Quixote é apontado como o primeiro romance moderno, tendo influenciado várias gerações de autores que se seguiram.

As suas personagens parecem ter pulado do livro para o imaginário contemporâneo, sendo representadas através de diversos meios (pintura, poesia, cinema, música, entre outros).

Resumo do livro Dom Quixote

A obra narra as aventuras e desventuras de Dom Quixote, um homem de meia idade que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Providenciando cavalo e armadura, resolve lutar para provar seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária. Consegue também um escudeiro, Sancho Pança, que resolve acompanhá-lo, acreditando que será recompensado.

Quixote mistura fantasia e realidade, se comportando como se estivesse em um romance de cavalaria. Transforma obstáculos banais (como moinhos de vento ou ovelhas) em gigantes e exércitos de inimigos.

É derrotado e espancado inúmeras vezes, sendo batizado de “Cavaleiro da Fraca Figura”, mas sempre se recupera e insiste nos seus objetivos.

Só volta para casa quando é vencido em batalha por outro cavaleiro e forçado a abandonar a cavalaria. Longe da estrada, fica doente e acaba morrendo. Nos seus momentos finais, recupera a consciência e pede perdão aos seus amigos e familiares.

Enredo da obra Dom Quixote

Primeira parte

O protagonista é um homem de meia idade que se dedicava à leitura de romances de cavalaria. Confundindo fantasia e realidade, resolve imitar os heróis e partir em busca de aventuras. Como precisa de uma amada em nome da qual lutar, cria Dulcineia, grande dama inspirada em uma paixão da juventude.

Encontra um albergue simples que confunde com um castelo. Pensando que o dono é um cavaleiro disposto a ordená-lo, resolve guardar o lugar durante a noite. Quando um bando de camponeses se aproxima, pensa que são inimigos e os ataca, acabando machucado. Depois de uma falsa sagração, o dono do albergue o manda embora, dizendo que já é cavaleiro. Embora ferido, Quixote volta para casa feliz.

Ele convence Sancho Pança a se juntar na viagem como escudeiro, com promessas de dinheiro e glória. A sobrinha do protagonista fica preocupada com sua saúde mental e pede ajuda ao Padre, que o diagnostica como louco. Decidem queimar seus livros para resolver o problema, mas ele pensa ser obra de Frestão, seu inimigo feiticeiro.

Quixote, Dore
Ilustração de Gustave Doré, 1863.

Parte em busca de vingança e se depara com cenários do cotidiano que a sua imaginação transforma em adversários. Assim, luta contra moinhos de vento pensando que são gigantes e quando é empurrado por eles, declara que estavam encantados por Frestão.

Passando por dois sacerdotes que carregavam a estátua de uma santa, pensa que está perante dois feiticeiros sequestrando uma princesa e resolve atacá-los. É durante esse episódio que Sancho o batiza de “Cavaleiro da Fraca Figura”.

Em seguida, tenta enfrentar vinte homens que aparecem para roubá-los e ambos acabam sendo espancados. Quando recuperam, encontram dois rebanhos que caminham em direções contrárias e estão prestes a se cruzar. Quixote imagina que são dois exércitos adversários e decide se juntar ao lado mais fraco. Sancho tenta chamar o amo à razão mas ele se recusa a escutar e acaba lutando com os pastores e perdendo até os dentes.

Depois se depara com um grupo de prisioneiros escoltados por guardas, que estavam sendo levados para campos de trabalho forçado. Vendo que estão acorrentados, questiona os homens acerca de seus crimes e todos parecem inofensivos (amor, música e feitiçaria, por exemplo). Decide que é preciso salvá-los e ataca os guardas, livrando os homens de suas correntes. Eles, no entanto, o agridem e assaltam.

Triste, Quixote escreve uma carta de amor para Dulcineia e manda Sancho entregar. No caminho, o escudeiro se depara com o Padre e o Barbeiro que o forçam a revelar o paradeiro do seu amo. O “Cavaleiro da Fraca Figura” é levado para casa mas persiste nas suas fantasias de cavalaria.

Segunda parte

Logo Quixote regressa à estrada e, ao ver um grupo de atores ambulantes, pensar estar perante demônios e monstros, atacando-os. A cena é interrompida pela chegada de outro homem, o Cavaleiro dos Espelhos, que afirma que a sua amada é a mais bela e que está a disposto a duelar quem disser o contrário.

Para defender a honra de Dulcineia, enfrenta o adversário e vence o combate. Descobre que o Cavaleiro dos Espelhos era, na verdade, Sansão Carrasco, um amigo que estava tentando dissuadi-lo da vida de cavalaria.

Mais adiante, Quixote e Sancho conhecem um casal misterioso, o Duque e a Duquesa. Eles revelam que conhecem seus feitos através de um livro que circulava na região. Resolvem recebê-lo com todas as honras dignas de um cavaleiro, rindo das suas ilusões. Pregam também uma peça a Sancho Pança, nomeando o escudeiro para o cargo de governador de um povoado.

Wilhelm Marstrand
Wilhelm Marstrand, Don Quixote and Sancho Panza at a Crossroads, 1908.

Exausto por tentar cumprir todas as obrigações do cargo, Sancho não consegue descansar nem desfrutar a vida, chegando a passar fome por temer o envenenamento. Depois de uma semana, resolve desistir do poder e voltar a ser escudeiro. Novamente reunidos, eles abandonam o castelo dos duques e partem a caminho de Barcelona. É aí que surge o Cavaleiro da Lua Branca afirmando a beleza e superioridade da sua amada.Dom Casmurro: análise completa e resumo do livro LEIA MAIS

Por amor a Dulcineia, o protagonista duela com o Cavaleiro da Lua, concordando em deixar a cavalaria e voltar para casa se perder. Quixote é vencido diante de uma multidão. O adversário era, mais uma vez, Sansão Carrasco, que montou um plano para salvá-lo de suas fantasias. Humilhado, regressa a casa mas acaba ficando doente e deprimido. No seu leito de morte, recupera a consciência e pede perdão à sobrinha e a Sancho Pança, que continua do seu lado até ao suspiro final.

Personagens do livro Dom Quixote

Dom Quixote

O protagonista é um fidalgo de meia idade, sonhador e idealista que te tanto ler romances de cavalaria e sonhar com feitos heroicos, perdeu a razão. Convencido de que é um cavaleiro andante, vive em busca de aventuras e duelos para provar o seu valor e a sua paixão por Dulcineia.

Sancho Pança

Um homem do povo, Sancho é ambicioso e se junta a Quixote em busca de dinheiro e poder. Realista, vê as fantasias de seu amo e procura ajudá-lo a encarar a realidade mas acaba se envolvendo nas suas confusões. Apesar de todas as falhas de Quixote, seu respeito, amizade e lealdade pelo cavaleiro se mantêm até ao final.

Dulcineia de Toboso

Fruto da imaginação de Quixote, Dulcineia é uma dama da alta sociedade, incomparável em beleza e honra. Inspirada na camponesa Aldonza Lorenzo, seu amor de juventude, a amada de Quixote é uma projeção das mulheres representadas nos romances de cavalaria. Querendo lutar por amor, o protagonista cria uma ligação platônica e indestrutível com essa figura.

Padre e Barbeiro

Por causa da preocupação de Dolores, a sobrinha de Quixote, estes dois personagens resolvem intervir e ajudar o amigo. Estão convencidos de que o homem teria sido corrompido pelas suas leituras mas, mesmo quando destroem sua biblioteca, não conseguem curá-lo.

Sansão Carrasco

Na tentativa de resgatar o amigo, Sansão precisa usar a loucura a seu favor. Assim, é através da cavalaria que consegue resolver a questão. Para isso, precisa se disfarçar e derrotar Quixote, diante de todos.

Análise da obra

Dom Quixote de La Mancha é um livro dividido em 126 capítulos. A obra foi publicada em duas partes, refletindo diferentes influências: a primeira se aproxima do estilo maneirista e a segunda do barroco.

Inspirado nos romances de cavalaria que já estavam caindo em desuso e no idealismo que atravessava as artes e as letras, Dom Quixote é, ao mesmo tempo, uma sátira e uma homenagem.

Misturando tragédia e comédia e combinando registros populares e eruditos de linguagem, esta é uma obra muito rica. A sua estrutura contribui em larga medida para a sua complexidade, criando várias camadas narrativas que dialogam entre si.

Na primeira parte, o narrador aponta que esta é a tradução de um manuscrito árabe, cujo autor é alguém chamado Cid Hamete Benengeli. Contudo, ele não se limita a traduzir: tece comentários e faz correções frequentemente.

Na parte seguinte, o protagonista e seu escudeiro descobrem a existência de um livro chamado O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote da Mancha, onde seus feitos eram narrados. Encontram o Duque e a Duquesa, entre outros indivíduos, que tinham sido leitores de suas aventuras, passando também a ser personagens.

Romances de cavalaria e amor imaginário

O protagonista, de seu verdadeiro nome Alonso Quijano, é um homem cuja mente para ter sido “contaminada” pela leitura de romances de cavalaria. Assim, a leitura é apontada como uma atividade muito poderosa, capaz de mudar o comportamento de um indivíduo e até mesmo de o corromper.

Atraído pelos valores transmitidos nessas narrativas (glória, honra, coragem), Quixote troca o tédio da vida burguesa pelas aventuras da cavalaria. Tentando imitar seus heróis, precisa lutar para defender a honra de sua amada, correndo todos os riscos para conquistar seu coração. Cria, então, Dulcineia de Toboso.

É através desse amor imaginário que Quixote se mantem motivado e disposto a se reerguer vezes sem conta. Adotando uma postura petrarquista (sentimento amoroso como servidão), justifica suas ações:

(…) o Amor nem atende a respeitos, nem guarda limites de razão nos seus discursos, e tem a mesma condição que a morte, a qual tanto acomete os alcáçares dos reis, como as humildes choças dos pastores; e, quando toma inteira posse de uma alma, a primeira coisa que faz é tirar-lhe o temor e a vergonha”

Parte 2, capítulo LVIII

Deste modo, explica que a paixão é uma espécie de loucura permitida, graças à qual todas as pessoas perdem a razão. O seu sentimento platônico parece ser o mais duradouro, já que não se concretiza e, por isso, também não se deteriora com o tempo.

Dom Quixote e Sancho Pança

Um dos elementos que mais captam a atenção dos leitores é a relação entre Dom Quixote e Sancho Pança e a estranha simbiose que se forma entre eles. Apresentando visões opostas do mundo (espiritualista / idealista e materialista / realista), os personagens contrastam e se complementam simultaneamente, criando uma grande amizade.

Embora durante grande parte da narrativa Sancho seja a “voz da razão”, procurando encarar todos os acontecimentos com bom senso e realismo, começa a ser contagiado pela loucura do seu amo. Inicialmente motivado pelo dinheiro, abandona sua família para seguir os delírios do cavaleiro.

Essa é uma das diferenças cruciais entre os companheiros: Quixote era um homem burguês, com condições financeiras que permitiam passear e viver aventuras. Sancho, pelo contrário, era um homem do povo, preocupado em sustentar a família e garantir o futuro.

Ambicioso, acredita nas promessas do cavaleiro e espera se tornar o governador de um reino conquistado por Quixote.

Sua admiração e respeito pelo mestre vão crescendo e Sancho acaba virando um sonhador também:

Esse meu mestre, por mil sinais, foi visto como um lunático, e também eu não fiquei para trás, pois sou mais pateta que ele, já que o sigo e o sirvo…

Parte 2, Capítulo XX

O seu desejo acaba sendo realizado quando o Duque e a Duquesa, que tinham lido sobre as aventuras e aspirações da dupla, resolvem pregar uma peça a Sancho. A ação que decorre na Ilha da Barataria é uma espécie de ficção dentro da ficção onde assistimos ao período em que o escudeiro é governador.

É interessante notar a racionalidade dos conselhos que Quixote dá ao seu amigo sobre as suas responsabilidades e a importância de manter uma conduta irrepreensível.

O que deveria ser uma brincadeira acaba funcionando e Sancho se revela justo e competente. No entanto, desiste depois de uma semana, infeliz e exausto. Percebe, então, que dinheiro e poder não são sinônimos de felicidade e sente saudades de sua família, decidindo regressar.

Imaginação como lente transfiguradora

Dom Quixote mistura e contrapõe fantasia e realidade, através do olhar do protagonista. Encarando os livros de cavalaria como um refúgio da vida banal e monótona, o cavaleiro utiliza a imaginação para reinventar o mundo que o rodeia. Criando inimigos e obstáculos a partir de objetos do cotidiano, ignora os contratempos da vida real.

Daumuier, 1865 - 1870
Daumier Honore, Don Quixote, 1865 – 1870.

De todos os seus duelos com adversários imaginários, se destaca a cena dos moinhos de vento: a imagem se tornou um símbolo para as causas impossíveis, para os idealistas e os sonhadores. Quixote, encarado por todos como um louco, pode ser apenas visto como um homem disposto a tudo para correr atrás dos seus sonhos.

Apesar da impossibilidade de ser um verdadeiro cavaleiro andante, o protagonista da obra vive sua utopia, através da fantasia e das aventuras que cria para si mesmo.

O “Cavaleiro da Fraca Figura” vai mais longe, moldando e transformando também a realidade daqueles que o acompanham durante a viagem. Isso acontece com Sancho Pança, seu maior cúmplice, com o Duque e a Duquesa e também com os próprios leitores da obra.

Se no início achamos que ele é apenas um louco, aos poucos vamos reparando na sua sabedoria, na grandeza de seus valores e na sua estranha lucidez face ao resto do mundo.

Significado da obra

No final da narrativa, quando perde um duelo e é forçado a deixar a cavalaria, o protagonista fica deprimido e doente. Nesse momento, parece recuperar a consciência, percebendo que nunca foi um cavaleiro andante. Pede perdão à família e aos amigos, principalmente a Sancho, o fiel companheiro que arriscou a vida do seu lado.

Octavio Ocampo, Visions of Don Quixote, 1989
Octavio Ocampo, Visions of Don Quixote, 1989.

A obra, no entanto, deixa o questionamento: será que Quixote estava realmente louco? Podemos argumentar que o “Cavaleiro da Fraca Figura” estava apenas vivendo do jeito que queria e mudando sua realidade, de forma a ser mais feliz e reencontrar a alegria e o entusiasmo.

Sua suposta loucura possibilitou aventuras que não viveria de outra forma, algo que fica claro no seu epitáfio:

Teve tudo em muito pouco / Porque viveu como um louco

O idealismo do protagonista, em contraste com a dureza da realidade, provoca gargalhadas e, simultaneamente, conquista a empatia do leitor. Através das várias peripécias e derrotas de Quixote, Miguel de Cervantes faz uma crítica à realidade política e social do seu país.

Na sequência do regime absolutista do rei Felipe II, a Espanha enfrentava uma fase de pobreza causada pelos gastos militares e expansionistas. Ao longo da obra, é notória a miséria dos vários indivíduos que enganam e roubam para sobreviver, contrastando em tudo com os heróis dos romances de cavalaria.

Assim, os comportamentos aparentemente tresloucados do protagonista podem ser interpretados como uma forma de protesto, de crítica social, na busca de valores que parecem perdidos ou ultrapassados.

Quixote inspira seus leitores a lutar pelo mundo no qual querem viver, lembrando que nunca devemos nos acomodar nem ignorar as injustiças.

Símbolo de sonhadores e idealistas ao longo dos séculos, o personagem representa a importância da liberdade (de pensar, ser, viver) acima de todas as outras coisas:

A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida…

Parte 2, Capítulo LVIII

Dom Quixote no imaginário contemporâneo

Uma enorme influência para incontáveis romances que se seguiram, a obra de Miguel de Cervantes catapultou Dom Quixote e Sancho Pança para o imaginário contemporâneo. Ao longo de séculos, as figuras têm inspirado artistas das mais diversas áreas.

Dom Quixote de La Mancha (El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de La Mancha, no original) é uma obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes, publicada em duas partes. A primeira surgiu em 1605 e a segunda dez anos depois, em 1615.

Quando o livro foi traduzido para inglês e francês obteve um êxito súbito, arrebatando leitores de diversas origens.

Capa da primeira edição de Dom Quixote

Considerada a maior obra da literatura espanhola e o segundo livro mais lido da História, seu contributo para a cultura ocidental é incalculável. Dom Quixote é apontado como o primeiro romance moderno, tendo influenciado várias gerações de autores que se seguiram.

As suas personagens parecem ter pulado do livro para o imaginário contemporâneo, sendo representadas através de diversos meios (pintura, poesia, cinema, música, entre outros).

Resumo do livro Dom Quixote

A obra narra as aventuras e desventuras de Dom Quixote, um homem de meia idade que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Providenciando cavalo e armadura, resolve lutar para provar seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária. Consegue também um escudeiro, Sancho Pança, que resolve acompanhá-lo, acreditando que será recompensado.

Quixote mistura fantasia e realidade, se comportando como se estivesse em um romance de cavalaria. Transforma obstáculos banais (como moinhos de vento ou ovelhas) em gigantes e exércitos de inimigos.

É derrotado e espancado inúmeras vezes, sendo batizado de “Cavaleiro da Fraca Figura”, mas sempre se recupera e insiste nos seus objetivos.

Só volta para casa quando é vencido em batalha por outro cavaleiro e forçado a abandonar a cavalaria. Longe da estrada, fica doente e acaba morrendo. Nos seus momentos finais, recupera a consciência e pede perdão aos seus amigos e familiares.

Enredo da obra Dom Quixote

Primeira parte

O protagonista é um homem de meia idade que se dedicava à leitura de romances de cavalaria. Confundindo fantasia e realidade, resolve imitar os heróis e partir em busca de aventuras. Como precisa de uma amada em nome da qual lutar, cria Dulcineia, grande dama inspirada em uma paixão da juventude.

Encontra um albergue simples que confunde com um castelo. Pensando que o dono é um cavaleiro disposto a ordená-lo, resolve guardar o lugar durante a noite. Quando um bando de camponeses se aproxima, pensa que são inimigos e os ataca, acabando machucado. Depois de uma falsa sagração, o dono do albergue o manda embora, dizendo que já é cavaleiro. Embora ferido, Quixote volta para casa feliz.

Ele convence Sancho Pança a se juntar na viagem como escudeiro, com promessas de dinheiro e glória. A sobrinha do protagonista fica preocupada com sua saúde mental e pede ajuda ao Padre, que o diagnostica como louco. Decidem queimar seus livros para resolver o problema, mas ele pensa ser obra de Frestão, seu inimigo feiticeiro.

Quixote, Dore
Ilustração de Gustave Doré, 1863.

Parte em busca de vingança e se depara com cenários do cotidiano que a sua imaginação transforma em adversários. Assim, luta contra moinhos de vento pensando que são gigantes e quando é empurrado por eles, declara que estavam encantados por Frestão.

Passando por dois sacerdotes que carregavam a estátua de uma santa, pensa que está perante dois feiticeiros sequestrando uma princesa e resolve atacá-los. É durante esse episódio que Sancho o batiza de “Cavaleiro da Fraca Figura”.

Em seguida, tenta enfrentar vinte homens que aparecem para roubá-los e ambos acabam sendo espancados. Quando recuperam, encontram dois rebanhos que caminham em direções contrárias e estão prestes a se cruzar. Quixote imagina que são dois exércitos adversários e decide se juntar ao lado mais fraco. Sancho tenta chamar o amo à razão mas ele se recusa a escutar e acaba lutando com os pastores e perdendo até os dentes.

Depois se depara com um grupo de prisioneiros escoltados por guardas, que estavam sendo levados para campos de trabalho forçado. Vendo que estão acorrentados, questiona os homens acerca de seus crimes e todos parecem inofensivos (amor, música e feitiçaria, por exemplo). Decide que é preciso salvá-los e ataca os guardas, livrando os homens de suas correntes. Eles, no entanto, o agridem e assaltam.

Triste, Quixote escreve uma carta de amor para Dulcineia e manda Sancho entregar. No caminho, o escudeiro se depara com o Padre e o Barbeiro que o forçam a revelar o paradeiro do seu amo. O “Cavaleiro da Fraca Figura” é levado para casa mas persiste nas suas fantasias de cavalaria.

Segunda parte

Logo Quixote regressa à estrada e, ao ver um grupo de atores ambulantes, pensar estar perante demônios e monstros, atacando-os. A cena é interrompida pela chegada de outro homem, o Cavaleiro dos Espelhos, que afirma que a sua amada é a mais bela e que está a disposto a duelar quem disser o contrário.

Para defender a honra de Dulcineia, enfrenta o adversário e vence o combate. Descobre que o Cavaleiro dos Espelhos era, na verdade, Sansão Carrasco, um amigo que estava tentando dissuadi-lo da vida de cavalaria.

Mais adiante, Quixote e Sancho conhecem um casal misterioso, o Duque e a Duquesa. Eles revelam que conhecem seus feitos através de um livro que circulava na região. Resolvem recebê-lo com todas as honras dignas de um cavaleiro, rindo das suas ilusões. Pregam também uma peça a Sancho Pança, nomeando o escudeiro para o cargo de governador de um povoado.

Wilhelm Marstrand
Wilhelm Marstrand, Don Quixote and Sancho Panza at a Crossroads, 1908.

Exausto por tentar cumprir todas as obrigações do cargo, Sancho não consegue descansar nem desfrutar a vida, chegando a passar fome por temer o envenenamento. Depois de uma semana, resolve desistir do poder e voltar a ser escudeiro. Novamente reunidos, eles abandonam o castelo dos duques e partem a caminho de Barcelona. É aí que surge o Cavaleiro da Lua Branca afirmando a beleza e superioridade da sua amada.Dom Casmurro: análise completa e resumo do livro LEIA MAIS

Por amor a Dulcineia, o protagonista duela com o Cavaleiro da Lua, concordando em deixar a cavalaria e voltar para casa se perder. Quixote é vencido diante de uma multidão. O adversário era, mais uma vez, Sansão Carrasco, que montou um plano para salvá-lo de suas fantasias. Humilhado, regressa a casa mas acaba ficando doente e deprimido. No seu leito de morte, recupera a consciência e pede perdão à sobrinha e a Sancho Pança, que continua do seu lado até ao suspiro final.

Personagens do livro Dom Quixote

Dom Quixote

O protagonista é um fidalgo de meia idade, sonhador e idealista que te tanto ler romances de cavalaria e sonhar com feitos heroicos, perdeu a razão. Convencido de que é um cavaleiro andante, vive em busca de aventuras e duelos para provar o seu valor e a sua paixão por Dulcineia.

Sancho Pança

Um homem do povo, Sancho é ambicioso e se junta a Quixote em busca de dinheiro e poder. Realista, vê as fantasias de seu amo e procura ajudá-lo a encarar a realidade mas acaba se envolvendo nas suas confusões. Apesar de todas as falhas de Quixote, seu respeito, amizade e lealdade pelo cavaleiro se mantêm até ao final.

Dulcineia de Toboso

Fruto da imaginação de Quixote, Dulcineia é uma dama da alta sociedade, incomparável em beleza e honra. Inspirada na camponesa Aldonza Lorenzo, seu amor de juventude, a amada de Quixote é uma projeção das mulheres representadas nos romances de cavalaria. Querendo lutar por amor, o protagonista cria uma ligação platônica e indestrutível com essa figura.

Padre e Barbeiro

Por causa da preocupação de Dolores, a sobrinha de Quixote, estes dois personagens resolvem intervir e ajudar o amigo. Estão convencidos de que o homem teria sido corrompido pelas suas leituras mas, mesmo quando destroem sua biblioteca, não conseguem curá-lo.

Sansão Carrasco

Na tentativa de resgatar o amigo, Sansão precisa usar a loucura a seu favor. Assim, é através da cavalaria que consegue resolver a questão. Para isso, precisa se disfarçar e derrotar Quixote, diante de todos.

Análise da obra

Dom Quixote de La Mancha é um livro dividido em 126 capítulos. A obra foi publicada em duas partes, refletindo diferentes influências: a primeira se aproxima do estilo maneirista e a segunda do barroco.

Inspirado nos romances de cavalaria que já estavam caindo em desuso e no idealismo que atravessava as artes e as letras, Dom Quixote é, ao mesmo tempo, uma sátira e uma homenagem.

Misturando tragédia e comédia e combinando registros populares e eruditos de linguagem, esta é uma obra muito rica. A sua estrutura contribui em larga medida para a sua complexidade, criando várias camadas narrativas que dialogam entre si.

Na primeira parte, o narrador aponta que esta é a tradução de um manuscrito árabe, cujo autor é alguém chamado Cid Hamete Benengeli. Contudo, ele não se limita a traduzir: tece comentários e faz correções frequentemente.

Na parte seguinte, o protagonista e seu escudeiro descobrem a existência de um livro chamado O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote da Mancha, onde seus feitos eram narrados. Encontram o Duque e a Duquesa, entre outros indivíduos, que tinham sido leitores de suas aventuras, passando também a ser personagens.

Romances de cavalaria e amor imaginário

O protagonista, de seu verdadeiro nome Alonso Quijano, é um homem cuja mente para ter sido “contaminada” pela leitura de romances de cavalaria. Assim, a leitura é apontada como uma atividade muito poderosa, capaz de mudar o comportamento de um indivíduo e até mesmo de o corromper.

Atraído pelos valores transmitidos nessas narrativas (glória, honra, coragem), Quixote troca o tédio da vida burguesa pelas aventuras da cavalaria. Tentando imitar seus heróis, precisa lutar para defender a honra de sua amada, correndo todos os riscos para conquistar seu coração. Cria, então, Dulcineia de Toboso.

É através desse amor imaginário que Quixote se mantem motivado e disposto a se reerguer vezes sem conta. Adotando uma postura petrarquista (sentimento amoroso como servidão), justifica suas ações:

(…) o Amor nem atende a respeitos, nem guarda limites de razão nos seus discursos, e tem a mesma condição que a morte, a qual tanto acomete os alcáçares dos reis, como as humildes choças dos pastores; e, quando toma inteira posse de uma alma, a primeira coisa que faz é tirar-lhe o temor e a vergonha”

Parte 2, capítulo LVIII

Deste modo, explica que a paixão é uma espécie de loucura permitida, graças à qual todas as pessoas perdem a razão. O seu sentimento platônico parece ser o mais duradouro, já que não se concretiza e, por isso, também não se deteriora com o tempo.

Dom Quixote e Sancho Pança

Um dos elementos que mais captam a atenção dos leitores é a relação entre Dom Quixote e Sancho Pança e a estranha simbiose que se forma entre eles. Apresentando visões opostas do mundo (espiritualista / idealista e materialista / realista), os personagens contrastam e se complementam simultaneamente, criando uma grande amizade.

Embora durante grande parte da narrativa Sancho seja a “voz da razão”, procurando encarar todos os acontecimentos com bom senso e realismo, começa a ser contagiado pela loucura do seu amo. Inicialmente motivado pelo dinheiro, abandona sua família para seguir os delírios do cavaleiro.

Essa é uma das diferenças cruciais entre os companheiros: Quixote era um homem burguês, com condições financeiras que permitiam passear e viver aventuras. Sancho, pelo contrário, era um homem do povo, preocupado em sustentar a família e garantir o futuro.

Ambicioso, acredita nas promessas do cavaleiro e espera se tornar o governador de um reino conquistado por Quixote.

Sua admiração e respeito pelo mestre vão crescendo e Sancho acaba virando um sonhador também:

Esse meu mestre, por mil sinais, foi visto como um lunático, e também eu não fiquei para trás, pois sou mais pateta que ele, já que o sigo e o sirvo…

Parte 2, Capítulo XX

O seu desejo acaba sendo realizado quando o Duque e a Duquesa, que tinham lido sobre as aventuras e aspirações da dupla, resolvem pregar uma peça a Sancho. A ação que decorre na Ilha da Barataria é uma espécie de ficção dentro da ficção onde assistimos ao período em que o escudeiro é governador.

É interessante notar a racionalidade dos conselhos que Quixote dá ao seu amigo sobre as suas responsabilidades e a importância de manter uma conduta irrepreensível.

O que deveria ser uma brincadeira acaba funcionando e Sancho se revela justo e competente. No entanto, desiste depois de uma semana, infeliz e exausto. Percebe, então, que dinheiro e poder não são sinônimos de felicidade e sente saudades de sua família, decidindo regressar.

Imaginação como lente transfiguradora

Dom Quixote mistura e contrapõe fantasia e realidade, através do olhar do protagonista. Encarando os livros de cavalaria como um refúgio da vida banal e monótona, o cavaleiro utiliza a imaginação para reinventar o mundo que o rodeia. Criando inimigos e obstáculos a partir de objetos do cotidiano, ignora os contratempos da vida real.

Daumuier, 1865 - 1870
Daumier Honore, Don Quixote, 1865 – 1870.

De todos os seus duelos com adversários imaginários, se destaca a cena dos moinhos de vento: a imagem se tornou um símbolo para as causas impossíveis, para os idealistas e os sonhadores. Quixote, encarado por todos como um louco, pode ser apenas visto como um homem disposto a tudo para correr atrás dos seus sonhos.

Apesar da impossibilidade de ser um verdadeiro cavaleiro andante, o protagonista da obra vive sua utopia, através da fantasia e das aventuras que cria para si mesmo.

O “Cavaleiro da Fraca Figura” vai mais longe, moldando e transformando também a realidade daqueles que o acompanham durante a viagem. Isso acontece com Sancho Pança, seu maior cúmplice, com o Duque e a Duquesa e também com os próprios leitores da obra.

Se no início achamos que ele é apenas um louco, aos poucos vamos reparando na sua sabedoria, na grandeza de seus valores e na sua estranha lucidez face ao resto do mundo.

Significado da obra

No final da narrativa, quando perde um duelo e é forçado a deixar a cavalaria, o protagonista fica deprimido e doente. Nesse momento, parece recuperar a consciência, percebendo que nunca foi um cavaleiro andante. Pede perdão à família e aos amigos, principalmente a Sancho, o fiel companheiro que arriscou a vida do seu lado.

Octavio Ocampo, Visions of Don Quixote, 1989
Octavio Ocampo, Visions of Don Quixote, 1989.

A obra, no entanto, deixa o questionamento: será que Quixote estava realmente louco? Podemos argumentar que o “Cavaleiro da Fraca Figura” estava apenas vivendo do jeito que queria e mudando sua realidade, de forma a ser mais feliz e reencontrar a alegria e o entusiasmo.

Sua suposta loucura possibilitou aventuras que não viveria de outra forma, algo que fica claro no seu epitáfio:

Teve tudo em muito pouco / Porque viveu como um louco

O idealismo do protagonista, em contraste com a dureza da realidade, provoca gargalhadas e, simultaneamente, conquista a empatia do leitor. Através das várias peripécias e derrotas de Quixote, Miguel de Cervantes faz uma crítica à realidade política e social do seu país.

Na sequência do regime absolutista do rei Felipe II, a Espanha enfrentava uma fase de pobreza causada pelos gastos militares e expansionistas. Ao longo da obra, é notória a miséria dos vários indivíduos que enganam e roubam para sobreviver, contrastando em tudo com os heróis dos romances de cavalaria.

Assim, os comportamentos aparentemente tresloucados do protagonista podem ser interpretados como uma forma de protesto, de crítica social, na busca de valores que parecem perdidos ou ultrapassados.

Quixote inspira seus leitores a lutar pelo mundo no qual querem viver, lembrando que nunca devemos nos acomodar nem ignorar as injustiças.

Símbolo de sonhadores e idealistas ao longo dos séculos, o personagem representa a importância da liberdade (de pensar, ser, viver) acima de todas as outras coisas:

A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida…

Parte 2, Capítulo LVIII

Dom Quixote no imaginário contemporâneo

Uma enorme influência para incontáveis romances que se seguiram, a obra de Miguel de Cervantes catapultou Dom Quixote e Sancho Pança para o imaginário contemporâneo. Ao longo de séculos, as figuras têm inspirado artistas das mais diversas áreas.

MARBELLA, ANDALUZIA/ESPANHA - 23 DE MAIO: Don Quixote Sentado Estátua por Salvador Dali em Marbella Espanha em 23 de maio de 2016
MARBELLA, ANDALUZIA/ESPANHA – 23 DE MAIO: Don Quixote Sentado Estátua por Salvador Dali em Marbella Espanha em 23 de maio de 2016. Philip Bird LRPS CPAGB/Shutterstock.com

Grandes pintores como Goya, Hogarth, Dali e Picasso representaram a obra de Cervantes, que também inspirou várias adaptações literárias e teatrais.

Na língua portuguesa, “quixotesco” se tornou um adjetivo atribuído a pessoas ingênuas, sonhadoras e com objetivos nobres. Em 1956, o pintor brasileiro Cândido Portinari lançou uma série de vinte e uma gravuras que retratam passagens marcantes da obra.

Cândido Portinari, Dom Quixote atacando um rebanho de ovelhas
Cândido Portinari, Dom Quixote atacando um rebanho de ovelhas, 1956.

Em 1972, Carlos Drummond de Andrade publicou um livreto com vinte e um poemas, baseados nas ilustrações de Portinari, entre os quais se destaca “Disquisição da Insônia”:

Disquisição na insônia


Que é loucura; ser cavaleiro andante
Ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
Vê o real e segue o sonho
De um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
E me sabendo tal, sem grão de siso,
Sou – que doideira – um louco de juízo.

Em 2003, a banda Engenheiros do Hawaii lançou a música “Dom Quixote”, recuperando o caráter humorístico do personagem. Totalmente desenquadrado na sociedade, continua sonhando e lutando “por amor às causas perdidas”.

Dom Quixote

Muito prazer, meu nome é otário
Vindo de outros tempos, mas sempre no horário
Peixe fora d’água, borboletas no aquário
Muito prazer, meu nome é otário
Na ponta dos cascos e fora do páreo
Puro sangue, puxando carroça

Um prazer cada vez mais raro
Aerodinâmica num tanque de guerra
Vaidades que a terra um dia há de comer
Ás de Espadas fora do baralho
Grandes negócios, pequeno empresário
Muito prazer, me chamam de otário

Por amor às causas perdidas
Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Tudo bem, seja o que for
Seja por amor às causas perdidas

Recentemente, Terry Gilliam dirigiu e escreveu uma adaptação para o cinema. O filme de fantasia, comédia e aventura intitulado O Homem Que Matou Dom Quixote foi lançado dia 19 de março de 2018 no Festival de Cinema de Cannes.

Imagem do filme The Man Who Killed Don Quixote, 2018
Imagem do filme O Homem que Matou Dom Quixote (2018).

Miguel de Cervantes: autor de Dom Quixote

Miguel de Cervantes y Saavedra (29 de setembro de 1547 – ‎22 de abril de 1616) foi um romancista, poeta e dramaturgo espanhol. Seu contributo para a literatura e o próprio idioma espanhol foi tão impactante que este é, muitas vezes, intitulado “a língua de Cervantes”.

Retrato de Miguel de Cervantes pintado por Juan de Jauregu (1600).
Retrato de Miguel de Cervantes pintado por Juan de Jáuregu (1600).

Foi também soldado e seu amor pelas armas parece surgir em algumas passagens de seu romance mais famoso, Dom Quixote de La Mancha. Publicou também Novelas exemplares (1613), Viagem de Parnaso (1614) e Oito comédias e oito entremezes novos nunca antes representados (1615). Depois de sua morte, foi publicada a obra Os trabalhos de Persiles e Sigismunda (1617).

  • com informações de Cultura Genial

Poesia de Segunda – “Escombros”

Em meio à escuridão que me invade a alma,
Eu sinto a desilusão fluir em cada veia,
Os sonhos outrora vivos, agora são carmas,
E a desesperança se instala feito uma teia.

As promessas vazias, como vento passageiro,
Desvaneceram-se no ar, num sopro sem rumo,
Decepção é o amargo sabor, verdade cruel,
Que atravessa o coração, deixando-o em jejum.

Nos olhos que outrora brilhavam esperanças,
Agora restam mágoas, lágrimas e tristeza,
A vida que parecia um trilho de bonanças,
Transformou-se numa estrada repleta de incertezas.

A desilusão é um vento que sopra sem piedade,
Levando embora a alegria e a fé em cada passo,
E o desespero é o abismo que me invade, com voracidade,
Engolindo os sonhos, deixando só o fracasso.

Mas apesar da tormenta que em meu peito há,
Ergo-me diante do desânimo que me consome,
Pois a vida é feita de momentos bons e maus,
E a esperança há de brotar novamente, mesmo que demore.

A desilusão e a desesperança são escolhos,
Que enrijecem os corações em profunda dor,
Mas acreditar na superação, no renascer dos escolhos,
É o primeiro passo para abrir as portas do amor.

Então, mergulho na incerteza, mas com resiliência,
Enfrento os tempos sombrios com bravura e coragem,
Pois sei que a desilusão é apenas uma aparência,
E que a desesperança se dissolve em sua própria miragem.

Ainda que as feridas persistam e doam com ardor,
Sigo adiante na busca de um novo horizonte,
Deixando para trás o peso de cada desilusão e desamor,
Confiantemente, reconstruo-me em cada recomeço.

  • por Salvador Neto, 20nov2023

Poesia de Sexta – Partilha

Sabe que sinto com profundidade
Também sei o que é ter saudade
Por isso abraço esse vento na janela
É um jeito simples de ter tua partilha

Sinto com profundidade porque sou
Saudade
Quero tua presença ainda que distante
Felicidade

O abraço no vento não explica nem tem
Razão
É partilha, é oração, perto ou longe
Emoção

por Salvador Neto, Portugal, 10nov2023

#poemas#partilha#poesia#literatura

Poesia de Terça – Sonho de Paz

No azul do céu, brilha o sol a me guiar
No canto dos pássaros, ouço a lua a cantar
E nesse universo de luz e esplendor
Vou te cantar uma história de amor

No brilho dos olhos, o pensamento voa
Num abraço apertado, a paz se entrelaça à nossa pele
E nesse encontro de almas em sintonia
Vamos construir uma eterna sinfonia

Com o coração ardendo de esperança
Vamos colorir o mundo com nossa confiança
E no ritmo dessa melodia celestial
Vamos espalhar o amor em cada portal

Sol, lua, amor e pensamento
Paz, esperança, o nosso juramento
Que essas palavras possam ecoar
E transformar nosso mundo em um lugar melhor de habitar

Que o sol nos aqueça e nos faça sorrir
Que a lua nos guie, nos faça refletir
Que o amor nos envolva e nos faça sonhar
Que o pensamento nos inspire a criar

Que a paz nos inunde, nos traga harmonia
Que a esperança nos fortaleça em cada dia
E que juntos possamos, enfim, alcançar
Um mundo onde o amor eternamente irá reinar.

* por Salvador Neto, Portugal, 3nov2023

Projeto “Cicatrizes” tá chegando

Olá pessoal, desculpem pelo sumiço temporário, mas o fato é que para dedicação exclusiva a um blog como este é preciso um financiamento que me permita dedicação integral. Como isso não é realidade, ainda, a gente continua a manter o conteúdo da forma possível, mas sempre com qualidade, ok? Então, para iniciar o ano, eis que venho falar para vocês do meu novo projeto na literatura, o “Projeto Cicatrizes”.

Trata-se da produção literária de três obras: um livro de poemas, um de contos e um romance. O nome busca dar exatamente o mesmo significado da palavra: revelar marcas de uma vida, ou várias, de forma a dividir estas histórias com os leitores.

Todas as pessoas tem as suas cicatrizes de vida, e cada uma sabe o que faz com elas. Das minhas decidi, demoradamente, a transformá-las em bálsamo pessoal, e compartilhar como forma de apoio a quem busca curar as suas.

A ideia é utilizar minhas memórias, sofrimentos, reveses, dores, perdas marcantes da minha vida, como matéria prima para estas obras literárias.

Será uma espécie de catarse pessoal, um tratamento contra sofrimentos emocionais que afligiram não só meu coração, meus sentimentos mais profundos, mas inclusive minha saúde.

O prazo para que ele seja efetivamente posto para venda física e digital será maio de 2023. Talvez coloque como projeto de arrecadação para sua realização, em plataformas como Catarse, Apoia-se, e outras.

Gostou da novidade? Quer ajudar o projeto financeiramente? Mande sua mensagem, e vamos construindo mais cultura!

Crônica – E seu Barros chorou

Eu precisava encontrar uma xícara elegante. Bonita. Única. Ou, como chamam em Portugal, uma chávena. Minha esposa não parava de falar disso, que era para criar vídeos bacanas, enfim. Mas ir atrás, nada. Resolvi então em belo dia de outono europeu acabar com esta agonia. Era aquele dia ou nunca. Nunca é demais né. Mas queria por um fim a busca da chávena que jamais foi buscada. Sai pelas belas ruas de Alcobaça, cujas pedras ao chão vem todas da bela serra dos Candieiros.

Já tinha entrado em uma pequena loja de antiguidades que ficava no caminho ao Mosteiro de Alcobaça, onde Inês e Pedro tem seus túmulos. Um patrimônio da humanidade de 900 anos. Não sabe quem foi o casal? Vai continuar não sabendo, porque o caso aqui é a chávena única. Em frente à loja ficam, antes mesmo da porta, móveis antigos e tapetes a mostra. Uma vitrine, por aqui uma montra, dá a dimensão do que há em seu interior. Anjos barrocos, candelabros, vasos e… chávenas! Entrei.

Sim, ela existe de fato! Eis a chávena relíquia, linda, uma obra de arte

Dava até medo de esbarrar em tanta arte e cultura expostas. Prateleiras à esquerda e à direita estreitavam o caminho profundo que seguia rumo ao fundo da loja. Uma peça mais interessante que a outra. Até sopeiras, copos, bandejas. Com olhos focados nas chávenas, mas perdido entre tantas obras de arte, fui mergulhando em meio à história. Já estava quase ao fundo da loja quando uma voz aguda, cheia de esses, me chamou à realidade. – Bom dia, disse aquele senhor de cabelos grisalhos, abrindo um sorriso que te abraçava.

– Como está? Deseja algo? Ao abrir a boca ele já viu que era mais um brazuca curioso. Responde que sim, e que buscava uma chávena bonita, diferente. Expliquei a complexidade do sonho da minha companheira. Ele saiu da pequena toca onde estava sentado em uma cadeira centenária, certeza disso. E me apresentou algumas peças, entre as quais a que eu tinha absoluta convicção, agradaria minha esposa. Era uma porcelana diferenciada, feita por cerâmica local há pelo menos 50 anos. Relíquia.

A partir da minha decisão, iniciamos uma conversa. Seu Barros, sim, este era o nome dele, perdão por ter esquecido de lhes dizer. Seu avô era brasileiro, e ele mesmo já tinha conhecido o Brasil, e atendia muitos brasileiros, e gostava muito do nosso povo, e foi marinheiro a pescar lulas próximo às Malvinas, e etc. Conversador ele. Eu todo ouvidos, jornalista que sou. Já corria uma boa meia hora do português a falar e eu a escutar. Já buscava os euros – salgada a chávena viu – a pagar quando ele continua a desfiar sua história. Reclamar que ninguém mais conversa ou tem atenção ao outro.

Ampliei as antenas auditivas. E seu Barros abre mais seu leque biográfico, uma vida de viajante e dramas. E conta que viveu na guerra colonial na África em nome de Portugal. – Eu vi coisas horríveis com estes meus olhos seu Salvador, disse ele. Mortes, violência, torturas. Enquanto falava, os traumas lhe escorriam transmutados em lágrimas pelos olhos cansados de ver coisa ruim, e não ter a quem contar. Me contive para não trocar lágrimas com o seu Barros. E para permitir a ele o desabafo humano de uma vida dura.

Ele então me convida a um café. Recuso. Tenho compromissos, explico. Faltavam-se cinco euros, os quais seu Barros diz que poderia trazer outro dia. Surpreso insisto que vou a um caixa e volta a pagar. – Não é preciso, venha outra vez para continuar a nossa conversa. Não tenho com quem falar sobre esses fantasmas. Surpreendido por tudo que uma ida à compra de uma chávena me proporcionou, aceitei o compromisso. Seu Barros precisa chorar mais para lavar a alma e voltar a acreditar que sua vida valeu a pena.

Por Salvador Neto

12 Constatações Evolutivas por Joanna de Ângelis em Reforma Íntima

Uma pequena contribuição do Palavra Livre para quem deseja uma caminhada terrena com mais paz, leveza e certeza de que tudo, tudo mesmo, passa:

1 – O outro não existe para te agradar ou para te desagradar. O outro existe para te ensinar.

2 – Ninguém é culpado pelo que estás sentindo. É tu que optas pelos sentimentos que tens neste exato momento. Só tu.

3 – A arte de viver sem expectativas, e sim com perspectiva é a chave para não se frustrar.

4 – Cura em ti o vício da necessidade de aprovação do outro. Só assim poderás desfrutar da ousadia e da confiança natural do teu espírito, da tua essência.

5 – Tu não tens controle de nada, por mais que acredites que tens. Lembra-te, daqui a pouco a Terra irá reivindicar o teu corpo e deixarás este planeta para ingressar numa nova fase de existência. Abre mão do controle, só assim terás domínio sobre ti mesmo e sobre a tua vida. Controle é um reflexo do medo, já o domínio é um reflexo do estado de ausência absoluta de tensão interna e do teu encontro com a paz.

6 – Não te descaracterizes para tentar “caber” no espaço apertado do pensamento que o outro tem em relação a ti. Isso não vai dar certo. Quando tu te anulas para agradar alguém, a tua luz apaga-se e é apenas tu, quem fica no escuro sentindo-te perdido.

7 – Não acredites no que os outros dizem para ti, por mais romântico e poético que possa ser. O que importa são as atitudes e não as palavras.

8 – Abandona o orgulho e o delírio de acreditar que tudo vai ser como tu queres, desejas ou necessitas.

9 – Tudo é passageiro. De perto a vida é uma tragédia, de longe é uma comédia. Daqui algum tempo irás rir de todos os dramas que criaste. Pois tudo passa. Tudo.

10 – Tu és responsável por tudo que está acontecendo na tua vida. Teus pensamentos e sentimentos predominantes irão formatar a tua realidade, quer tu queiras, quer não. Portanto, se quiseres mudar a tua realidade, muda teus pensamentos e sentimentos.

11 – Carência emocional não é a necessidade de receber, e sim de se dar. Só tu poderás suprir as tuas necessidades emocionais. Projetá-las em alguém é o mesmo que pedir para que alguém se alimente para saciar a tua fome.

12 – Vive com simplicidade e com mais realidade. Só assim, quem tu realmente és, vai surgir de verdade. Ri mais e não leve tudo tão a sério. Afinal de contas, a essência da vida é se descobrir e desfrutar dessa maravilhosa aventura chamada evolução.

(Joanna de Ângelis – Reforma Íntima)