Perfis: Professora Dulce da Silva Santar – “A vida toda é uma escola”

Professora Dulce na sala de sua casa em 2011 - foto de Carlos Júnior

Retorno a publicar no Blog os perfis de personagens importantes da cidade de Joinville (SC) que produzi durante 2011 para o jornal Notícias do Dia. Hoje destaco o perfil de uma professora que educou milhares de crianças e jovens por quase 50 anos, marcando época no hoje Colégio Elias Moreira. Dona Dulce, como era conhecida, tem muito a ensinar ainda, e certamente muitos relembrarão da professora dura, mas que fazia entender que para vencer na vida, é preciso estudar, aprender, sempre! Com vocês o perfil da professora Dulce:

“Há 40 anos a maior cidade catarinense recebeu uma migrante joaçabense que vinha com toda a energia para espalhar conhecimento e formar cidadãos: a professora Dulce da Silva Santar. A escola Dom Pio de Freitas, no bairro Floresta, foi seu primeiro reduto, sua trincheira inicial para a trajetória que viria a empreender, deixando um legado de profissionalismo, dedicação e amor ao próximo. Ela, que já foi confundida com irmã de congregação religiosa, tal sua postura e aparência recatada que passa paz e tranqüilidade, finalizou oficialmente sua carreira há apenas seis meses na Secretaria Municipal de Educação.

“Trabalhei 27 anos em sala de aula, e os demais em coordenação pedagógica e planejamento”, ressalta Dulce que trabalhou oito anos em Joaçaba e Ibicaré, pouco tempo em São Francisco do Sul na Escola Annes Gualberto no Paulas, e Escola João Colin e Elias Moreira, onde marcou época lecionando História, OSPB e Estudos Sociais, além de orientar pais, alunos, professores quando foi coordenadora pedagógica. Em Ibicaré, ia para a escola de trem, todos os dias. Já em Joinville buscou sua formação na faculdade de Filosofia na antiga Furj, hoje Univille. “A gente pisou em muita lama para estudar, estava no início do que é hoje a universidade”, recorda a professora.

Da experiência de 47 anos na educação, desde a lousa, quadro negro até a atual tecnologia que está avançando rapidamente nas formas de produzir, gerar e ensinar conhecimento, Dulce passa suas impressões. “Penso que a vida toda é uma escola. Por onde a gente passa, aprende coisas boas, e as ruins se usa para não errar. E para se conseguir o melhor na educação, é preciso acompanhar de perto, porque em sala de aula, da um é um, é único”, ensina a veterana educadora. E um dos lemas que carrega em sua vida é da escritora Cora Coralina que dizia, “eu aprendo quando eu ensino”.

Do pai, que tinha pouca instrução, mas “ensina até raiz quadrada para a gente”, ela lembra do incentivo à leitura que a ajudou na carreira. “Na nossa casa não faltava o Correio do Povo, O Cruzeiro e a revista Seleções”, elogia Dulce. Tem saudades dos tempos do João Colin e Elias Moreira, suas paixões. No Elias lecionou e foi coordenadora pedagógica entre 1977 e 1992, e na Escola João Colin encerrou seu ciclo na rede estadual em 1989. Contemporânea da lendária ex-diretora da escola, Maria Laura Cardoso Eleotério, a professora diz que era um grupo muito unido. “Maria Laura fazia a união, e todos os professores ajudavam a superar as dificuldades”, lembra.

Até hoje um grupo de professoras e ex-professoras da escola do Itaum se reúne para conversar, celebrar e trocar ideias sobre a educação, e isso já superou os 20 anos de encontros. Viúva de Nilson Santar há 14 anos, dona Dulce – como era conhecida por seus alunos – tem três filhos, Marcos, Marcio e Raquel, e um casal de netos já adultos. Muito religiosa desde a infância, participa de pastorais diversas, e hoje ainda ajuda na Paróquia Cristo Ressuscitado no bairro Floresta. Mas já foi catequista também no Santuário Sagrado Coraçao de Jesus, no Bucarein. “Deus está acima de tudo, e é quem nos mantém fortes”, afirma.

Aos 68 anos, com muita saúde e vitalidade, dona Dulce agora se dedica a ler, curtir a família e praticar atividades como a oficina de italiano e dança oferecidos pelo Ipreville, instituto de aposentadoria dos servidores municipais. E como fazer para educar com qualidade hoje em dia professora? “Você precisa se dedicar, estudar, pesquisar. Eu preparava aulas depois das onze da noite, e finais de semana, é assim. E principalmente, voce precisa entender as pessoas mais do que ser entendida”, finaliza a educadora que atuou por 47 anos.

Morre Maria Laura Eleotério – Homenagem do Blog com o seu perfil, sua história

Maria Laura marcou época por suas posições fortes na educação, política e no movimento afrodescente

Acabei de receber a notícia da morte da sempre professora e diretora da Escola Básica João Colin, no bairro Itaum em Joinville (SC), Maria Laura Cardoso Eleotério, que também se notabilizou por ações junto ao movimento afro, no sesquicentenário da cidade, deixando marcas importantes para a sociedade. Tive o prazer de conviver com ela na política – quando assessor – e vivenciei a sua luta pelas mulheres, pelo movimento afro, sempre batendo de porta em porta, buscando apoios, recursos, e fazendo acontecer.

Escrevi seu perfil, um pouquinho da sua grande história, para o jornal Notícias do Dia. A matéria foi publicada no final de 2011. Nossa conversa foi longa, fui recebido com café, bolo, refrigerante, e muito carinho. Ela tinha muito orgulho dos seus feitos, e sempre estava maquiada, arrumada e perfumada. Para tirar a sua foto, a editora Loreni Franck teve de batalhar muito! Mas, ao final, conseguimos fazer e marcar a trajetória dela na educaçao e na vida comunitária. Com certeza ao lado do Criador, ela vai continuar a contribuir com boas energias para um mundo mais justo, solidário e humano. Aos seus familiares, os meus sinceros sentimentos. E para os leitores do Blog, segue o texto original que foi para o Notícias do Dia. Confiram, pois essa é a homenagem que o Blog presta a Maria Laura:

“Uma negra de fibra, baluarte da educação e do movimento afro”

Ela foi aluna dedicada, e depois professora exigente, diretora competente e fazia até o papel de polícia quando preciso para defender seus alunos da Escola Básica João Colin, onde trabalhou entre 1958 e 1987 e na qual foi diretora por 25 anos. Atuante nos bastidores da política, chegou a ser candidata ao senado como suplente em 2006. Não bastasse isso, fundou o Instituto Afro Brasileiro de Joinville para resgatar e manter viva a cultura dos afro descendentes do município que já teve a grande maioria da sua gente da raça alemã, suíça, norueguesa quando da imigração que formou a cidade. Essa é Maria Laura Cardoso Eleotério, 72 anos de vida de luta desde o Bucarein, onde nasceu.

Um pouco abatida pelo diabetes e um AVC, Maria Laura concedeu a entrevista na mesma casa em que nasceu, e mora até hoje. Mais magra, e com voz mais baixa, ela mantém a elegância que sempre a marcou, e se orgulha dos feitos como professora, diretora e fundadora do Instituto que ainda é presidente, mas que está passando o bastão para a filha e também professora Mariane Acácia Eleotério. O filho Edmilson é eletricista e funcionário público, e a filha mais nova, Biana, logo se forma em direito. “Eu nasci aqui, mas vivi muito junto da minha mãe lá no Palácio – onde hoje é o Museu da Imigração na rua Rio Branco -, já que ela era cozinheira da casa”, observa ela.

O pai morreu quando ela tinha apenas três anos. Logo cedo a menina Maria Laura foi estudar no colégio Rui Barbosa, onde as lendárias professoras Erondina Vieira e Maria Amin Ghanem marcaram época. Começou a trabalhar aos 14 anos, na biblioteca e já lecionando, substituindo uma professora. “Eu queria trabalhar, ter meu dinheiro. E queria comprar três coisas com meu salário: um batom, um sapato de salto alto e um óculos”, conta a ainda vaidosa senhora. Dava aula para turma de repetentes e outra turma melhor, diz. “Sou grata a essas professoras, pois na época só podiam dar aulas as concursadas, e elas ficaram firmes e me mantiveram”, destaca.

O Colégio João Colin entrou na vida de Maria Laura em 1958, quando segundo ela, a professora Lacy Cruz Flores veio para o Rui Barbosa e ocupou a vaga. “Devo também a dona Erondina a vaga no João Colin. Em 1962 assumi a direção e só parei em 1987. Fui eleita três vezes pela comunidade, votada”, comenta a educadora. Ela lembra das várias conquistas da sua gestão, como segundo grau, a quadra de esportes e outros. “O João Colin foi considerado o melhor colégio, tinha os melhores professores, muitos profissionais e lideres foram forjados lá”, diz orgulhosa Maria Laura. Nem as dificuldades com drogas e marginalidade que rondavam a escola nem o incêndio que a atingiu reduziram a vontade da diretora. “Sempre combati, e quem fez já pagou pelo que fez”, afirma.

Depois de aposentada, passou um tempo na praia em Ubatuba, e quando voltou criou o Instituto Afro Brasileiro de Joinville no sesquicentenário da cidade. A igualdade e oportunidade para os afros passaram a ser mais ainda a sua bandeira. Até hoje há atividades, e dona Maria Laura não descuida de nada. “Fizemos grande trabalho, são 45 mil negros na cidade, fizemos intercâmbios sociais, criamos o Museu da Mulher, enfim, muita coisa. Agora minha filha vai assumir e continuar a luta”, explica Maria Laura. Ela guarda fotos, placas, documentos e vídeos desse trabalho, lembra de cada um dos momentos. Jandira Reschiliani, 65 anos, é ex-aluna e exalta a mestra: “Ela ajudou muita gente, de forma desprendida, e até minha filha foi aluna nos tempos dela”, confirma. Agora chegou a hora de Maria Laura Cardoso Eleotério descansar, e receber as homenagens merecidas. Quem se habilita?”

Perfis: Marilda Oliveira Ramos – “Minha vida é a escola”

Ela foi aluna de professoras que marcaram história em Joinville, como Herondina Vieira, Ady Lopes dos Santos e Lia Jardim, profissionais em quem se espelhou para fazer o melhor na educação, onde queria atuar desde que se deu por gente. Marilda de Oliveira Ramos é talvez a recordista em tempo de trabalho na área, e principalmente na direção de escola. Há 45 anos ela é professora, e há 43 dirige a escola municipal Heriberto Hülse no bairro Boa Vista. Nascida em Brusque, ela é fruta que não caiu longe do pé, pois os avós, a mãe, irmãos são professores, e até os dois filhos também dão suas aulinhas.

“Minha vida é a escola”, afirma Marilda com convicção e alegria que passa pelos olhos azuis. Ela conta que começou a trabalhar na escola quando se denominava Júlio Machado da Luz, na gestão do prefeito Nilson Bender em 1966. Tinha 18 anos. Morava no Glória e estudava no colégio Celso Ramos. O trajeto era feito de bicicleta. Marilda lembra que foi surpreendida quando Iraci Schmidlin, então secretária de educação, avisou a ela que iria assumir a direção da escola. “Dona Iraci Schmidlin me comunicou. Eu fiquei super-nervosa. Imagina, tinha apenas 19 anos. Mas ela disse que conhecia minha família e acreditava na minha competência”, fala a diretora.

A transição foi complicada, mas ela não esmoreceu. Com muito tato e fé em Deus, segundo ela, foi compensando a falta de experiência com muita presença na escola. “Meu marido me apoiou muito. Ele ficava com os filhos, levava na creche, tudo. Assim fui conquistando a equipe, e estou aqui até hoje”, explica Marilda, reafirmando que faria tudo novamente se fosse preciso. Naquele tempo só havia ônibus e hora em hora, a rua Albano Schmidt era de chão batido. “Seu Moreira, o motorista, esperava os professores para tocar em frente”, comenta. Formou-se em pedagogia na primeira turma da faculdade do Guimbala – atual Associação Catarinense de Ensino – em 1974.

Em 1996 aposentou com 30 anos de serviços prestados no magistério, mas o destino a colocou novamente frente a frente com Iraci Schmidlin, novamente secretária de educação, agora no governo de Wittich Freitag. “Ela me convenceu a fazer novo concurso, e passar bem. Fui a quinta colocada. Assim que foi homologado o concurso, ela me nomeou novamente professora, e a seguir, diretora na mesma escola”, relembra. Marilda sobreviveu a vários administradores públicos desde o fim da década de 1960. Nilson Bender, Harald Karmann, Pedro Ivo, Luiz Henrique, Freitag, Luiz Gomes, Freitag, Luiz Henrique, Tebaldi e agora Carlito Merss foram os Prefeitos. Como superou as nuances da política? “Defendo a educação, e trabalhei duro, honestamente. Essa foi a receita. Nunca pedi para ficar”, conta.

Dos tempos em que começou a lecionar, a diretora diz que o que mudou muito foi a família. Segundo Marilda, a desestruturação familiar atinge a educação, já que os pais estão cada vez mais sem tempo para participar da vida dos filhos, há separações, mudanças nas relações familiares. Outra situação é a tecnologia, que desafia os professores. “Antes a professora ensinava o aluno a pegar o lápis, quando iniciava na escola. Hoje a criança tem acesso à internet, muita informação, são muito criativas, sabem de tudo. O professor tem de correr atrás, e é isso que fazemos aqui na equipe”, ensina. A escola mantém um blog no endereço www.emheribertohulse.blogspot.com para interagir com alunos, pais e comunidade.

A escola, que já teve mais de mil alunos na década de 1970, conta com 430 crianças em dois turnos, além de funcionar à noite com turmas da Educação de Jovens e Adultos e do Pró-Jovem. Marilda se orgulha do trabalho, que exerce com paixão. Para ela o olhar da criança, o abraço diário, a vivencia na escola não tem preço. “Não me vejo fora daqui. É difícil desapegar. Eu me preparo há três anos para isso, mas é complicado. Moro aqui perto, venho de carro para ajudar em alguma emergência. Ainda quero construir a quadra coberta, é meu sonho. Aí quem sabe, eu paro”, fala entre risadas. O sombreiro e o fícus plantados há 40 anos, comunidade, ex-alunos, professores, ex-professores são testemunhas dessa história de amor pela educação.

* publicado na seção Perfil do Jornal Notícias do Dia Joinville no mês de maio de 2011.