“Seu Pipa” – Conto para ler e voar na imaginação

No Dia do Escritor deste ano (13/10) escrevi um novo conto para comemorar, após longo inverno criativo… Publiquei apenas no Facebook e agora aqui em meu blog que sobrevive há 13 anos, rumo aos 14, incrível não é? Espero que gostem!

Seu Pipa, Por Salvador Neto

“Se eu não tivesse visto com os meus próprios olhos, jamais teria acreditado. Já fui criança também, e inventava meus amiguinhos imaginários, meus heróis, ou usava os famosos bonequinhos para fantasiar o que via nos livros e gibis. Por isso que ao ouvir o que Miguel me falava naquele instante, uma tarde luminosa no Morro da Luz, área central da pequena Vem quem Quer, entendi que era um daqueles momentos que também tive lá pelos 10 anos de idade, mesmo tempo de estadia na terra que o pequeno garoto de olhos pretos, cabelos ondulados e claros, pele queimada do sol, me contava ali ao lado da venda do seu Manoel.

Passava pelo vilarejo vendendo minhas mercadorias, uma batalha diária para ganhar o pão de cada dia, e ao vender meus aviamentos no Mercado do Manel, assim mesmo, sem o “o” do Manoel, eis que me aparece o Miguel logo na porta da vendinha. Pés descalços, calção curto e surrado, o garoto me perguntava se havia visto a sua pipa falante. – Pipa falante? Retruquei. – Sim, eu mesmo que fiz com varetas de bambu, linha de costura da minha mãe, cola emprestado da vizinha e papel de seda que ganhei da minha vó Elza! Pensei que ele estava era arrumando uma desculpa para pedir alguma coisa. – O que você quer garoto? Bala, um doce? Diga-me logo que estou com pressa.

Estava cansado da viagem que já durava umas três semanas por aquelas bandas secas, pobres e poeirentas. – Não é mentira não seu moço, é verdade! Ela é grande assim ó – mostrava com as mãozinhas pequenas e sujas de brincar na rua. Comprei umas balas de goma, umas paçocas e lhe dei, mas não adiantou. Ele insistia e já estava triste por não ver mais a sua pipa, sua primeira pipa criada por ele mesmo. Senti um aperto no coração ao ver no rosto de Miguel a mesma decepção que tive quando era criança, ao perder um brinquedo querido.

– Tá bom, falei. Toma aqui essas balas, vamos procurar a sua pipa, mas só um pouquinho, entendeu? Ele abriu um largo sorriso, pegou minha mão e puxou.- Estava com ele amarrado ali naquela árvore, ele estava bem alto. Fui pegar uns gravetos para levar para minha casa para fazer fogo, e quando voltei ele não estava mais ali! – Vai ver que alguém a levou, devia ser bonita, respondi. Miguel fechou a cara e disse que não, ele era muito inteligente e que não sairia dali nas mãos de outro menino. E que não era “ela”, mas sim “ele”. Intrigado, resolvi entrar na brincadeira do garoto.

– Pipa é ela, não ele, larguei. – Você não sabe de nada, disse ele franzindo a testa. – Seu Pipa é menino, homem como eu! Tentei consertar o engano. – Tá bom, ele então. E porque seu Pipa? – Porque quando ele acordou e viveu, ele se apresentou e pronto, completou Miguel. Decidi então partir para a ajuda na busca ao “Seu Pipa”. – Como ele é então garoto? Ainda chateado com a minha falta de atenção ao seu problema, ele descreveu em detalhes a pipa que fala. Era das grandes, feita com papel de seda em quatro cores: azul, vermelho, rosa e verde, e tinha o rabo também comprido, com duas cores, amarelo e roxo em papel crepom. A linha era forte, e o carretel de tamanho médio, com bastante linha, dizia meu amiguinho de Vem quem Quer.

Mas tinha mais: quando ele falava, uma boca sorridente se abria na parte de baixo, e olhos redondos e grandes na parte de cima piscavam sem parar. – Seu Pipa me disse que quando ele nasceu bateu um vento forte, e ele ficou assim, piscador, alertou Miguel. Já entediado com aquilo, não questionei. – Vamos encontrar o seu Pipa então, falei e saí com ele ao meu lado na rua em frente à vendinha. Ele mostrou a árvore onde ele, seu Pipa, deveria estar. Decidimos seguir em meio à mata que tinha poucas árvores naquela área do Morro da Luz. Era um pequeno caminho, uma trilha que moradores usavam para ir de um lado a outro daquela comunidade, explicava Miguel. Estava um dia quente, e eu com sapatos, calça comprida jeans e camisa de manga longa, já suava as bicas.

O vento era só uma brisa morna, e o garoto seguia com suas pequenas pernas no chão batido, e olhos abertos mirando de um lado a outro na mata em busca da sua pipa. Ou melhor, do Seu Pipa. Já estava decidido em acabar com aquela brincadeira em que havia entrado quando ouvimos uma voz grave que dizia: – Estou aqui, olhem para cá! Enquanto tentava ver quem nos chamava, Miguel já corria à minha direita em meio aos tufos de mato gritando de alegria: – Seu Pipa, seu Pipa, você está aí! Incrédulo eu avistava então aquela imagem coloridíssima tal qual o menino tinha descrito, engatado em uma goiabeira de tamanho médio.

Espantado fiquei quando aquela figura de papel seda, crepom, bambus, linha e cola se mexia e falava! – Miguel, quem é esse aí com você, um desconhecido perigoso? A pipa emitia frases nítidas, e uma espécie de boca abria e fechava, e olhos piscavam sem parar! Também pisquei várias vezes, esfreguei meus olhos, me belisquei para ver se não estava era acordando de uma soneca, mas não! Aquele ser realmente se mexia no galho da goiabeira, e falava, e olhava cobrando do pequeno Miguel aonde ele havia se metido e o deixado voar por aí.

– Você não deveria andar por esse mato com gente assim. Nem sabe quem é! O pequeno, feliz da vida por ter encontrado a sua pipa, opa, seu Pipa, esbanjava um sorriso após algumas marcas de lágrimas em suas bochechas, pedia desculpas: – Foi só um instante que o deixei amarrado no poste, só para pegar gravetos para a minha mãe seu Pipa, e quando olhei você não estava mais lá. Ai fiquei desesperado e encontrei esse homem. Ele aceitou ajudar a te procurar, falava sem parar o Miguel. Ainda atordoado pelo que via, fiquei mudo vendo o garoto resgatar seu Pipa daquela árvore com todo o cuidado e carinho.

Enquanto isso aquele ser contava como tinha chegado até ali. Um jovem havia passado de bicicleta e visto a pipa ali amarrada. Deu meia volta e maldosamente soltou o fio do poste e seguiu pedalando em seu caminho. – Foi tão inesperado que quando vi a ventania já tinha me arrastado para cá Miguel, explicava a… o Pipa. Já com o seu amigo brinquedo à mão e no chão, o garoto sentou em um tronco grande à beira da trilha e pediu que eu sentasse também. – Não chegue muito perto não!, gritou a pipa… o Pipa. – Não se preocupe, não farei mal algum a você. Encontrei o menino na venda, e ele me pediu ajuda. Não acreditei na história de uma pipa falante, mas resolvi ajudar ao ver a sua aflição.

Miguel então agradeceu o meu apoio, pediu desculpas à Pipa por sua falta, e disse: – Acredita agora que tenho uma pipa que fala, escuta, enxerga e também voa? O que poderia dizer diante daquilo… – Posso tocar em você Pipa? Meio desconfiado, Pipa deixou não antes que eu mostrasse se não tinha nenhum canivete ou outra coisa nas mãos. O garoto me passou o Pipa cuidadosamente. Segurei na vareta central, uma mão em cima, outra embaixo. Era incrível!- Satisfeito? Perguntou a pipa enquanto se movia para um lado e outro, balançando o rabo colorido e piscando os olhos quase sem parar.

– Como isso pode ser verdade, acontecer, perguntei em voz alta. – Acontecendo, respondeu seu Pipa. – Quando a pureza de uma criança linda como Miguel acredita e precisa, o senhor Universo autoriza que objetos como eu tenham vida, falou seu Pipa. – Minha mãe cria eu e meus cinco irmãos sozinha, e não temos brinquedos. De tanto eu pedir minha vó apareceu um dia com bastante papel de seda, crepom, cola e me disse para fazer uma pipa, pandorga. Meu amigo José me ajudou, e assim nasceu o seu Pipa, explicou Miguel. Devolvi com cuidado o seu Pipa ao garoto, não queria estragar aquele momento de reunião entre criador e criatura após terem se perdido um do outro.

– Mas como foi que começou a falar, a ter boca e olhos? – Todos os dias a gente reza pedindo uma vida melhor para nossa casa. Uma noite eu resolvi pedir a Deus que seu Pipa falasse, fosse vivo para que eu tivesse um amigo de verdade para conversar. Eu ouvia com atenção, enquanto seu Pipa dançava com o vento para lá e pra cá. – No dia seguinte quando voltei da escola, fui direito pegar a pipa para soltar, tinha bastante vento! Chegando ao quarto levei um susto quando ele me deu oi! Mas entendi que Deus tinha me ouvido. Mas é segredo, e agora segredo nosso viu moço?

Emocionado com aquela história, mexi a cabeça afirmativamente. Seria o nosso segredo para sempre. Olhando fixamente em meus olhos, seu Pipa ainda disse: – Nunca esqueça que o que se promete a uma criança é sagrado! Mantenha o segredo que o Universo saberá recompensá-lo! Daquele dia em diante minhas vendas aumentaram, consegui melhorar de vida e posso ajudar a outras pessoas em momentos de dificuldades. E toda semana vou a Vem quem Quer colocar a nossa conversa em dia lá no Morro da Luz. Eu, Miguel e seu Pipa viramos grandes e inseparáveis amigos. Para sempre”.

No reencontro com os leitores, um conto: “O reencontro de Natal”

Olá pessoal como estão todos vocês? Espero que estejam bem, vacinados, em cuidados permanentes para evitar a Covid-19, e com saúde. Há sete anos fui desafiado a escrever um conto para a antologia natalina da Associação das Letras de Joinville (SC), da qual fui co-fundador e diretor. Jamais havia escrito um conto, e fui à luta a pedido do nosso então presidente, o escritor David Gonçalves. Mestre como é, conseguiu arrancar deste vivente uma produção.

Como o Natal está chegando mais uma vez, resolvi republicá-lo aqui em meu Blog para compartilhar um pouco do valor da solidariedade, da simplicidade, da alegria de uma época em que é possível ver famílias em confraternização. Tempo em que se espera paz, união, amizade, amor e muito mais. Espero que gostem, comentem, e se puderem, compartilhem com mais pessoas. Gratidão é o que tenho desde já por todos que nos apoiam aqui!

Segue o conto:

“O reencontro de Natal

“Estavam os três ali, sacolejando ao balanço do caminhão, dentro de um caixote que não parava de pular na carroceria. Pudera, em ruas tão esburacadas como queijo suíço… Fred, um carrinho de madeira, Joana, uma boneca descabelada, e Jujuba, um velho pião com as cordas surradas de tanto rodar por aí, já estavam há dias naquele vai, não vai. Já usados, velhos de tanto brincarem com seus donos, não tinham mais esperanças de voltar às mãos de crianças brincalhonas, arteiras e felizes. Estavam ali entre tantos outros brinquedos abandonados.

É a vida, pensavam os velhos companheiros de tantas crianças! Conheceram várias delas por algumas gerações, doações, mas agora competiam com poderosos concorrentes internacionais que falam, voam, pulam, choram, andam em velocidade sem serem jogados pelas mãozinhas. O Natal estava à porta, e em meio às campanhas solidárias, lá se foram Fred, Joana e Jujuba para uma caixa entre tantas dispostas naquele shopping luxuoso. Sequer tiveram tempo de se despedir de seus donos! E o pior, até ali, ninguém os pegara para cuidar e brincar…

Joana era a mais sentida. Com seus belos olhos azuis, cabelos loiros, já um pouco ralos, sim é verdade, vestida com uns paninhos coloridos e sem sapatinhos, não aceitava a solidão. – Sou muito bela para estar aqui! Mereço uma bela cama com lençóis de seda!, reclamava. Fred, do alto da dureza do seu ser, madeira bruta, apesar de bem arrebentado por muitas corridas e carregamentos de barros e batidas (já não tinha mais a caçamba…), retrucava. – Ora, eu sim, um forte, parceiro para todas as durezas, preciso de quem me valorize, que goste de aventura! E Jujuba… ah, este não tinha ambições.

– Eu quero é girar logo por aí. Sei que perdi um pouco a graça, afinal tem uns novos colegas aí bem mais modernos, mas ainda tenho muito a rodopiar e dar show!, dizia. A verdade é que em meio a tantos outros brinquedos, uns mais quebrados, outros não, a rota do caminhão solidário de Natal dirigido pelo velho voluntário Sebastião estava chegando ao final. Tião, como era conhecido em tantos anos de corridas pelos bairros da cidade, já tinha os ralos cabelos brancos. Se na próxima parada sobrasse algum daqueles brinquedos, o jeito era deixar por aí, ou jogar no lixo. – Tenho pena, quando eu era criança nem tinha um desses para brincar, pensava enquanto dirigia-se ao ultimo ponto de parada.

Nas paradas anteriores a maioria da criançada tinha pegado os brinquedos mais novos, modernos, com menos uso. O que estava ali na carroceria do velho Mercedes cara chata talvez não agradasse aos meninos e meninas que o esperavam nos fundões do Paranaguamirim, bairro da periferia. Afinal, o que sobrara ali eram brinquedos antigos, bem velhinhos e uns tão usados e quebrados que… bom, era melhor não pensar nisso e seguir a missão. Junto com Tião ia João, vestido de vermelho como manda o figurino. Não via a hora de terminar o serviço que durava o dia todo.

Mas lá no Panágua, como o povão chama seu próprio lugar mais ao gosto da simplicidade, a gurizada esperava. Mães e pais também, na esperança de que os filhos ficassem felizes com a chegada do bom velhinho e seus brinquedos. Famílias pobres, lutavam todos os dias para por comida na mesa, e não sobrava para dar brinquedos novos e modernos como os de hoje, que dirá tablets, celulares. Então, aguardavam amontoadas no pátio da igreja, local de encontro daquele ano. Era uma festa. No meio do povo, vendedores ambulantes ofertavam algodão doce, pipoca, doces, também na busca dos últimos trocados para garantir as festas de final de ano.

De repente, lá na esquina surge o cara chata com o bom velhinho acenando! Alvoroço na comunidade. Era só criança correndo para ver quem chegava primeiro para abraçar o Noel, e ver o que podia ganhar. Tião dirige com todo o cuidado, porque nessas horas a multidão não tem controle. Ao parar o caminhão, João Noel desce e distribui balas e doces. Uma alegria só, e um empurra-empurra generalizado! Imagine o desejo infantil do brinquedo adorado, e o sonho de pais em ver seus filhos felizes. De repente o vozeirão avisa: – Atenção! Vamos organizar a fila gente! Era o padre Felício tentando organizar a desorganização de sempre.

O povo o respeitava muito, afinal ele era o homem de Deus na região, e também sabia das coisas. Cobrava das autoridades uma vida melhor para aquele povo. Magro, com seus óculos quadrados, pretos, mas com fala firme e olhar decidido, padre Felício liderava movimentos em favor de mais saúde, infraestrutura, e agora, ajeitava tudo para que não faltassem brinquedos para a criançada. O motorista Tião já sabia que, se faltasse brinquedo ali a bronca seria enorme! No roteiro de visitas pela cidade, cuidava para que nada faltasse até o final no encontro com o padre.

Se o alvoroço era grande lá fora, imagine naquela caixa. Entre os colegas brinquedos, Fred, Joana e Jujuba tentavam se ajeitar para serem notados, afinal, queriam voltar para a alegria das crianças, viver em animação nas ruas, animar histórias nas mãos infantis. E começou a entrega dos brinquedos. Uma a uma as crianças saiam com seus troféus, já a brincar com os coleguinhas. Quase ao final da fila estava José. Com seus dez anos, pequeno para a idade, olhos miúdos e castanhos, cabelos da mesma cor, ondulados, tinha chegado atrasado.

A tristeza já tomava o seu coração. Será que ainda sobraria brinquedos para ele seus irmãos? A cada metro que a fila avançava, mais sua respiração acelerava, parecia que o coração saltaria boca afora. Seu pai e sua mãe garantiam o sustento da casa com a pesca artesanal. Seu atraso se justificava: estava até a pouco cuidando dos manos pequenos. Quando os pais chegaram, ele correu até a igreja. Será que daria certo? Conseguiria ao menos um presente? E a fila andava… e não chegava a sua vez!

E João Noel não aguentava mais de entregar presente para a meninada agitada. Tião preparava o caminhão para ir embora ver a sua família. E o padre avisava a todos que daqui a pouco tinha a missa, não poderiam faltar! Deus não perdoa, dizia ele. Fred se batia ao lado de Jujuba, e aquele barulho de madeira batendo o deixava furioso! Joana, já quase perdendo o vestidinho, lamentava a sua má sorte: nenhuma criança a tinha escolhido! E agora! Será que ficariam sem dono, sem eira nem beira em pleno Natal?

Chegou a vez de José. Ansioso, olha nos olhos do Papai Noel como quem espera o prato de comida. Tião empurra a caixa que ainda tinha algo dentro. – É o que sobrou filho, diz ele a José. Um brilho nos olhos surgiu, e por trás dele, lágrimas de alegria, pois sobraram apenas três brinquedos! Era muita sorte! – Obrigado!, disse José já pegando nas mãos aqueles três brinquedos, exatamente o que precisava para que todos em casa ficassem contentes. Ao espiar cada um deles nos pacotes de presente meio rasgados, parece que via alegria também vinda daqueles brinquedos! Seria possível?

Correu para casa sem parar! O trecho da igreja até a sua pequena casa de madeira que beirava o rio parecia ter milhares de metros, não acabava mais! Os cabelos esvoaçavam ante os ventos do inicio da noite. Fred, Joana e Jujuba percebiam o chacoalhar, diferente dos pulos na carroceria do Mercedes de Tião. O que acontecia, imaginavam. José chegou finalmente. Seu pai e sua mãe o receberam enquanto limpavam seus peixes. A pequena Sara, a caçula, e Mateus, irmão do meio, pularam em sua frente. – O que nós ganhamos, o que veio, gritavam!

José então entregou a cada um o seu presente. Sara não sabia o que dizer da boneca loira que tinha nas mãos… era a mais linda que tinha ganhado, na verdade, inteira, era a única. Mateus pegou o pião nas mãos e saiu a atirar ele ao chão e ver rodar. Já tinha visto os amigos com alguns, mas agora tinha o dele. E José, enfim teve seu caminhão. Faltava a caçamba, mas isso dava para enjambrar. Saiu também a fazer vruummm, vruummm, pelo terreiro da casa. Depois do susto, era a realização de sonhos, sonhos natalinos dele, dos pais, da família. O reencontro da alegria que só o Natal faz.

E Fred, Joana e Jujuba? Bom, eles também se reencontraram com a alegria da brincadeira, dos inventos, e sentiram-se úteis e felizes. No dia seguinte, Fred já tinha sua caçamba feita de casca de ostra. Joana ganhou novo vestido feito pela mãe de Sara, todo florido! E Jujuba, ah, Jujuba agora roda mais forte que nunca! Ganhou uma nova corda reforçada e sai por aí rodando o mundo a partir do Panágua!”

* Escrito por Salvador Neto em 8 de dezembro de 2014, especial para a sétima mini antologia Letras da Confraria da Associação Confraria das Letras

Literatura: Meu primeiro conto – “O reencontro de Natal”

Um conto envolvente, simples e encantador
Um conto envolvente, simples e encantador

Pressionado a escrever um conto ou uma crônica, ou poesia para a sétima mini antologia da Associação Confraria das Letras, o “Letras da Confraria” especial de Natal, ao final de 2014, resolvi arriscar a produzir um conto. Mais complexo que a crônica, que é uma linguagem mais fácil, livre, e leve, o conto exige mais do escritor, algo que ainda persigo.

Por isso publico aqui no Palavra Livre o meu primeiro conto, já que poucos tiveram a oportunidade de lê-lo, apreciando e criticando o conteúdo. É isso que desejo dos amigos leitores. Não o divido em partes para não perder a sequência da história de Fred, Joana, Jujuba e crianças que esperam seus presentes… Aí vai o “Reencontro de Natal”:

“Estavam os três ali, sacolejando ao balanço do caminhão, dentro de um caixote que não parava de pular na carroceria. Pudera, em ruas tão esburacadas como queijo suíço… Fred, um carrinho de madeira, Joana, uma boneca descabelada, e Jujuba, um velho pião com as cordas surradas de tanto rodar por aí, já estavam há dias naquele vai, não vai. Já usados, velhos de tanto brincarem com seus donos, não tinham mais esperanças de voltar às mãos de crianças brincalhonas, arteiras e felizes. Estavam ali entre tantos outros brinquedos abandonados.

É a vida, pensavam os velhos companheiros de tantas crianças! Conheceram várias delas por algumas gerações, doações, mas agora competiam com poderosos concorrentes internacionais que falam, voam, pulam, choram, andam em velocidade sem serem jogados pelas mãozinhas. O Natal estava à porta, e em meio às campanhas solidárias, lá se foram Fred, Joana e Jujuba para uma caixa entre tantas dispostas naquele shopping luxuoso. Sequer tiveram tempo de se despedir de seus donos! E o pior, até ali, ninguém os pegara para cuidar e brincar…

Joana era a mais sentida. Com seus belos olhos azuis, cabelos loiros, já um pouco ralos, sim é verdade, vestida com uns paninhos coloridos e sem sapatinhos, não aceitava a solidão. – Sou muito bela para estar aqui! Mereço uma bela cama com lençóis de seda!, reclamava. Fred, do alto da dureza do seu ser, madeira bruta, apesar de bem arrebentado por muitas corridas e carregamentos de barros e batidas (já não tinha mais a caçamba…), retrucava. – Ora, eu sim, um forte, parceiro para todas as durezas, preciso de quem me valorize, que goste de aventura! E Jujuba… ah, este não tinha ambições.

– Eu quero é girar logo por aí. Sei que perdi um pouco a graça, afinal tem uns novos colegas aí bem mais modernos, mas ainda tenho muito a rodopiar e dar show!, dizia. A verdade é que em meio a tantos outros brinquedos, uns mais quebrados, outros não, a rota do caminhão solidário de Natal dirigido pelo velho voluntário Sebastião estava chegando ao final. Tião, como era conhecido em tantos anos de corridas pelos bairros da cidade, já tinha os ralos cabelos brancos. Se na próxima parada sobrasse algum daqueles brinquedos, o jeito era deixar por aí, ou jogar no lixo. – Tenho pena, quando eu era criança nem tinha um desses para brincar, pensava enquanto dirigia-se ao ultimo ponto de parada.

Nas paradas anteriores a maioria da criançada tinha pegado os brinquedos mais novos, modernos, com menos uso. O que estava ali na carroceria do velho Mercedes cara chata talvez não agradasse aos meninos e meninas que o esperavam nos fundões do Paranaguamirim, bairro da periferia. Afinal, o que sobrara ali eram brinquedos antigos, bem velhinhos e uns tão usados e quebrados que… bom, era melhor não pensar nisso e seguir a missão. Junto com Tião ia João, vestido de vermelho como manda o figurino. Não via a hora de terminar o serviço que durava o dia todo.

Mas lá no Panágua, como o povão chama seu próprio lugar mais ao gosto da simplicidade, a gurizada esperava. Mães e pais também, na esperança de que os filhos ficassem felizes com a chegada do bom velhinho e seus brinquedos. Famílias pobres, lutavam todos os dias para por comida na mesa, e não sobrava para dar brinquedos novos e modernos como os de hoje, que dirá tablets, celulares. Então, aguardavam amontoadas no pátio da igreja, local de encontro daquele ano. Era uma festa. No meio do povo, vendedores ambulantes ofertavam algodão doce, pipoca, doces, também na busca dos últimos trocados para garantir as festas de final de ano.

De repente, lá na esquina surge o cara chata com o bom velhinho acenando! Alvoroço na comunidade. Era só criança correndo para ver quem chegava primeiro para abraçar o Noel, e ver o que podia ganhar. Tião dirige com todo o cuidado, porque nessas horas a multidão não tem controle. Ao parar o caminhão, João Noel desce e distribui balas e doces. Uma alegria só, e um empurra-empurra generalizado! Imagine o desejo infantil do brinquedo adorado, e o sonho de pais em ver seus filhos felizes. De repente o vozeirão avisa: – Atenção! Vamos organizar a fila gente! Era o padre Felício tentando organizar a desorganização de sempre.

O povo o respeitava muito, afinal ele era o homem de Deus na região, e também sabia das coisas. Cobrava das autoridades uma vida melhor para aquele povo. Magro, com seus óculos quadrados, pretos, mas com fala firme e olhar decidido, padre Felício liderava movimentos em favor de mais saúde, infraestrutura, e agora, ajeitava tudo para que não faltassem brinquedos para a criançada. O motorista Tião já sabia que, se faltasse brinquedo ali a bronca seria enorme! No roteiro de visitas pela cidade, cuidava para que nada faltasse até o final no encontro com o padre.

Se o alvoroço era grande lá fora, imagine naquela caixa. Entre os colegas brinquedos, Fred, Joana e Jujuba tentavam se ajeitar para serem notados, afinal, queriam voltar para a alegria das crianças, viver em animação nas ruas, animar histórias nas mãos infantis. E começou a entrega dos brinquedos. Uma a uma as crianças saiam com seus troféus, já a brincar com os coleguinhas. Quase ao final da fila estava José. Com seus dez anos, pequeno para a idade, olhos miúdos e castanhos, cabelos da mesma cor, ondulados, tinha chegado atrasado.

A tristeza já tomava o seu coração. Será que ainda sobraria brinquedos para ele seus irmãos? A cada metro que a fila avançava, mais sua respiração acelerava, parecia que o coração saltaria boca afora. Seu pai e sua mãe garantiam o sustento da casa com a pesca artesanal. Seu atraso se justificava: estava até a pouco cuidando dos manos pequenos. Quando os pais chegaram, ele correu até a igreja. Será que daria certo? Conseguiria ao menos um presente? E a fila andava… e não chegava a sua vez!

E João Noel não aguentava mais de entregar presente para a meninada agitada. Tião preparava o caminhão para ir embora ver a sua família. E o padre avisava a todos que daqui a pouco tinha a missa, não poderiam faltar! Deus não perdoa, dizia ele. Fred se batia ao lado de Jujuba, e aquele barulho de madeira batendo o deixava furioso! Joana, já quase perdendo o vestidinho, lamentava a sua má sorte: nenhuma criança a tinha escolhido! E agora! Será que ficariam sem dono, sem eira nem beira em pleno Natal?

Chegou a vez de José. Ansioso, olha nos olhos do Papai Noel como quem espera o prato de comida. Tião empurra a caixa que ainda tinha algo dentro. – É o que sobrou filho, diz ele a José. Um brilho nos olhos surgiu, e por trás dele, lágrimas de alegria, pois sobraram apenas três brinquedos! Era muita sorte! – Obrigado!, disse José já pegando nas mãos aqueles três brinquedos, exatamente o que precisava para que todos em casa ficassem contentes. Ao espiar cada um deles nos pacotes de presente meio rasgados, parece que via alegria também vinda daqueles brinquedos! Seria possível?

Correu para casa sem parar! O trecho da igreja até a sua pequena casa de madeira que beirava o rio parecia ter milhares de metros, não acabava mais! Os cabelos esvoaçavam ante os ventos do inicio da noite. Fred, Joana e Jujuba percebiam o chacoalhar, diferente dos pulos na carroceria do Mercedes de Tião. O que acontecia, imaginavam. José chegou finalmente. Seu pai e sua mãe o receberam enquanto limpavam seus peixes. A pequena Sara, a caçula, e Mateus, irmão do meio, pularam em sua frente. – O que nós ganhamos, o que veio, gritavam!

José então entregou a cada um o seu presente. Sara não sabia o que dizer da boneca loira que tinha nas mãos… era a mais linda que tinha ganhado, na verdade, inteira, era a única. Mateus pegou o pião nas mãos e saiu a atirar ele ao chão e ver rodar. Já tinha visto os amigos com alguns, mas agora tinha o dele. E José, enfim teve seu caminhão. Faltava a caçamba, mas isso dava para enjambrar. Saiu também a fazer vruummm, vruummm, pelo terreiro da casa. Depois do susto, era a realização de sonhos, sonhos natalinos dele, dos pais, da família. O reencontro da alegria que só o Natal faz.

E Fred, Joana e Jujuba? Bom, eles também se reencontraram com a alegria da brincadeira, dos inventos, e sentiram-se úteis e felizes. No dia seguinte, Fred já tinha sua caçamba feita de casca de ostra. Joana ganhou novo vestido feito pela mãe de Sara, todo florido! E Jujuba, ah, Jujuba agora roda mais forte que nunca! Ganhou uma nova corda reforçada e sai por aí rodando o mundo a partir do Panágua!

* Escrito por Salvador Neto em 8 de dezembro de 2014, especial para a sétima mini antologia Letras da Confraria da Associação Confraria das Letras.

Minha crônica – Carta ao menino que amo

Oi menino, como vai você? Não te assustes, nem te desesperes, não pretendo me estender por essas linhas, não quero te aborrecer. Não te chateie, sou do tempo da carta escrita a mão, em papel pautado com linhas, e colocado em envelope. Destinatário na frente, remetente no verso. Coisa antiga. Hoje é email, face, twitter. Escrevo-te de meu notebook. Em outros tempos poderia até ter datilografado para ficar mais bonito… mas deixa isso prá lá. Já disse que não quero te aborrecer com pouca coisa.

Te escrevo menino meu, porque morro de saudades! Desde nosso primeiro contato, do primeiro olhar, do abraço em que te envolvi, do cheirinho seu, esse é o maior tempo que fiquei longe de ti! Não bastasse a falta de tocar em você, não ouço mais tua voz, nem te carrego para qualquer lugar onde pudéssemos nos divertir. Tampouco ligas para mim, me deixas surdo de tanto silêncio. Será que estás mais alto, mais magro, mais forte talvez… E teus cabelos, lisos, castanhos, que tantos penteados já recebeu, moicano, com franja, surfista, como estarão hoje?

Olha, por essas linhas tento chegar de novo ao seu coração. Sim, tenho medo que me rejeites, que não me ames mais! A tua negação ao meu amor, assim, mais uma vez, me arderia como fogo na pele, como um corte profundo que insistiria em não cicatrizar. Ah, se pelo menos cicatrizasse essa ferida da tua falta. Porque me negas teu carinho, qual a causa de tanto desalinho quanto a mim? Que fiz para você me deixar pelo caminho, logo agora que temos tanto para fazer juntos! Ah menino, te disse não querer entediar tua vida, mas meu amor por você é infinito, sua fonte não seca, é perene!

Pensa, relembra nossos momentos de amor! Quando sorrias para mim parecíamos um só. Não feliz por te levar na escola todos os dias, ia te buscar alegremente. Saber de tudo, me embriagar das tuas coisas! Galo na cabeça do tamanho de uma bola, bola que você sempre adorou, a correr pelos campos e quadras por aí afora. A emoção de te ver correndo atrás do gol em campeonatos, de aparar tuas lágrimas na derrota, e alegria no gol marcado… menino, ah menino, como te amo! Não, não pare de ler agora, não jogue essa carta no lixo, por favor!

Aqui comigo tenho coisas tuas, coisas nossas. A cada palavra que preenche a tela em branco, levanto os olhos e vejo teu quadro, obra de arte da pequena infância. Abro gavetas e lá estão eles, os teus bonequinhos do forte apache. Teus desenhos, formosos, com dedicatória e tudo! Aí pego uma caneta, e lá está meu nome, presente teu! Como faço para te esquecer, se não posso, não quero e jamais vou te esquecer? Vivo assim com esse amor todo para te dar, mas… onde está você menino? Venha, saia dessas sombras, dessa tristeza, vem cá me dar teu abraço!

Sei, sei, já te canso com tantas linhas em tempos de 140 caracteres, mas sou assim, emoção, sou assim, escritor das vidas, de outras vidas, de tantas vidas, de nossas vidas… Lembra do tanto que fomos felizes, do tanto que nos demos um ao outro, das dores que passamos juntos, das felicidades, do colo, do abraço, do beijo na bochecha, das aventuras, brigas, brincadeiras, decepções, desilusões.

Escrever é meu bálsamo para matar a distancia, a saudade. Enquanto digito, lágrimas vêm e vão, lavam minha alma ferida, mas não molham nenhum papel. Encharcam meus pensamentos de esperança no reencontro contigo. Recorda, menino, acorda, meu filho, seja muito feliz. Saiba sempre que te amo João Pedro, meu menino. Feliz aniversário em teus 12 anos! Dia desses a gente se vê por essa vida, o tempo há de fazer isso por nós. Milhões de beijos e abraços de quem sempre vai te esperar e torcer por ti. Com carinho, amor e paixão eternas, teu pai.

* crônica para meu filho João Pedro, que completa 12 anos nesta sexta-feira, 4 de maio.

Perfil: A história de amor de Lilian e Luiz Gomes, o Lula – “A companheira de todas as horas”

Essa reportagem foi publicada em três páginas no jornal Notícias do Dia na edição dos dias 15 e 16 de outubro de 2011 com o título de “Uma rua cheia de política”, título este dado pela editoria. O original é esse aí de cima, onde conto um pouquinho da história de Luiz Gomes, o Lula, ex-prefeito de Joinville (SC) entre 1989/1992, já falecido, com sua Lilian Gomes, esposa, filha, sobrinha e neta de ex-prefeitos da cidade, que mantém viva a memória do marido, e faz um trabalho formidável junto à Rede Feminina de Combate ao Câncer. Espero que os leitores gostem, nessa fase maravilhosa da nossa Feira do Livro de Joinville:

“Muitas pessoas já passaram pela travessa São José, rua estreita que dá acesso à rua Ministro Calógeras, e que sedia a Associação Catarinense de Ensino, bem próximo ao Hospital São José. Mas certamente muito poucas sabem que dali saíram três prefeitos de Joinville, e um prefeito da vizinha Araquari. O cheiro de história se espalha a partir do sobrado de número 407, residência de Lilian Rachel Colin Gomes. Construída há 76 anos pelo seu pai, o ex-prefeito Rolf Colin (1951-1955), abrigou também o seu falecido marido, também ex-prefeito, Luiz Gomes, o Lula (1989/1992). Na mesma rua ainda moraram o ex-prefeito Pedro Ivo Campos (1973/1976) e o ex-prefeito de Araquari, Higino Aguiar (1961/1965). Um celeiro de políticos que marcaram época.

“Eu nasci em 29 de outubro de 1937 ali no Hospital São José. Me trouxeram no colo aqui para esta casa, onde moro desde então”, conta dona Lilian na sala onde seu marido Luiz Gomes tinha seu reduto de trabalho. Neta do também ex-prefeito Max Colin, ela guarda com carinho centenas de fotos, documentos, imagens, homenagens, enfim, tudo que se relacione a essa história da família Colin/Gomes. Mas tem mais: o seu bisavô por parte da mãe, Manoel Gomes Tavares (1896-1914) também foi ex-prefeito de São Bento do Sul. Destino ou missão? Dona Lilian responde: “Tenho orgulho da história da família. Mas se paga um tributo muito alto quando se é político, principalmente na família. Mas política não é uma coisa ruim, é necessária, e quem põe a cara prá bater é sim um grande corajoso”, ressalta.

Na ampla sala de jantar e estar do sobrado histórico, dona Lilian espalha história pela mesa. Fala com alegria, e muita saudade, do seu pai Rolf Colin. “Ele foi o primeiro presidente da Câmara de Vereadores quando voltou a democracia, depois de Getúlio Vargas em 1947. Quem o levou para a política foi o primo João Colin que foi prefeito duas vezes, deputado estadual e secretário de obras do Governo Estadual”, observa. Lilian tinha 10 anos na época, e logo depois foi estudar em Curitiba no Colégio Sion, como interna, voltando definitivamente para Joinville com 16 anos. “Naquele tempo era chique ir para internato! Eu detestava né, mas fiquei, fazer o quê, não dava prá contrariar o papai”, fala sorrindo.

Por estar interna no colégio, Lilian acompanhou muito pouco as campanhas políticas do pai, mas era sempre presente nos bailes, solenidades, já que a mãe não gostava muito e também era acometida por doenças. “Papai não tinha jogo de cintura para a política. Era muito franco e sofria muito. Teve o primeiro infarto aos 41 anos já na Prefeitura, e o segundo o matou em maio de 1964. Ele morreu em meu ombro… Com ele era pão-pão, queijo-queijo, muito metódico, correto. Sofreu muito, não era mundo para ele”, revela. Companheira do pai, ela lista suas realizações: realização da festa do Centenário de Joinville, criação e construção do prédio da Biblioteca Pública, a lei que declarou o Corpo de Bombeiros Voluntários como de utilidade pública (Lei 381/1953), desapropriação de áreas para alargamento da avenida Procópio Gomes.

“Mas a principal realização dele foi a construção da adutora de água do rio Piraí em 9 de março de 1955, que abastece a cidade até hoje”, afirma Lilian. Desse fato, ela conta que viajou com o pai ao Rio de Janeiro. Ele buscava fontes de financiamento para a obra. Lá ofereceram “propina” para liberar o dinheiro, e Rolf quase infartou novamente. “Eu vi isso, imagine meu pai! Ficou branco, suava. Logicamente não aceitou. Tivemos de chamar médico e tudo, e ao voltar, foi direto ao Hospital São José”, relembra a filha companheira. Ainda com muitas saudades do pai, tece muitos elogios pela postura de Rolf. “Papai era uma pessoa à frente do seu tempo. Era aberto, amigão nosso, meu e da minha irmã Manja”, diz emocionada. Na época Lilian já namorava o advogado e funcionário do Banco do Brasil, Luiz Gomes, que sequer militava em política.

Nascido em Tijucas, Luiz Gomes veio para Joinville após estudar no Colégio Catarinense em Florianópolis. Já namoravam desde Curitiba, trocavam cartas. O romance avançou na cidade onde ele encontrou com Lilian nos famosos “footings” – passeios a pé – onde os enamorados flertavam após a missa. “Eu tinha 16 anos quando começamos a namorar. Entre namoro e casamento foram quatro anos e meio. Casamos em 1958 na catedral, entre mil casamentos! A festa foi na Lyra, mas bem simples, e a lua de mel no Rio de Janeiro, com o papai junto, ele pagou a conta né”, conta às risadas. Eles tiveram três filhos, Luiz Alexandre, Fernando e Eduardo, que lhes deram seis netos. Até o início da década de 1970, Luiz Gomes e Lilian viviam normalmente, sem política.

“Aí o Oswaldo Douat era presidente da Celesc em 1971 e convidou o Lula para trabalhar com ele. Lula aceitou, e ficou como diretor até 1974 em Florianópolis. No ano seguinte resolveu estudar na Esag (Escola Superior de Guerra) no Rio, aí bati o pé e fui junto”, destaca. Ao voltarem em 1976, a surpresa: Lula resolve entrar na política, segundo Lilian, para retribuir o gesto do partido (Arena) na sua colocação na Celesc. “Ele nunca tinha se manifestado político! Para mim, foi surpresa, mas fomos em frente”, comenta a sempre companheira. Lula disputa a Prefeitura contra Luiz Henrique da Silveira e perde. Lilian sempre ao seu lado, com seu Fusca, e ele com a famosa e lendária Veraneio marrom, e as camisas pólo amarelas, marcas registradas do político. “Tinha umas duzentas”, conta ela.

Enquanto Lula militava na política, Lilian cuidava da família e o ajudava, até que em 1981 por convite da amiga Maria José Lobo Douat, que tinha câncer de mama e buscava tratamento em São Paulo, resolveram fundar aqui a Rede Feminina de Combate ao Câncer, com base no que já existia por lá. “Fui a segunda presidente, e primeira tesoureira. Tivemos muito apoio, muitas amigas voluntárias, e hoje a Rede já tem 30 anos”, comemora Lilian, que atualmente dá palestras sobre a prevenção do câncer em empresas, entidades, e de onde vierem convites. Mas agora está licenciada para voltar no início de 2012. A radioterapia no São José foi uma conquista da Rede Feminina já no governo Luiz Gomes.

Lula chegou à Prefeitura em 1988 vencendo José Carlos Vieira. Em seu mandato, conta dona Lilian, foram feitos os primeiros assentamentos nos mangues invadidos, construída a escola agrícola, o centrinho Luiz Gomes, criados o IPPUJ e a Fundema, entre outras realizações que ela lembra. “Até o presidente Collor veio aqui ver os assentamentos”, comenta ela. Depois do mandato, Lula tentou se eleger senador, deputado estadual, federal, mas não teve êxito. “Ele ainda foi presidente da Celesc, da SC Gás, e secretário do Desenvolvimento, mas ficou frustrado com as manobras políticas”, relata. O marido morreu em agosto de 2003 aos 70 anos, quando estavam prestes a completar 45 anos de casamento, na mesma sala onde trabalhou por anos no sobrado da Travessa São José.

“Imagine um homem como Lula, que não parava, aí saiu da SC Gás e parou tudo! Além do coração, problemas na próstata, também a depressão, aí acabou me deixando por aqui”, fala com melancolia. Ativa, ligada em tudo – “ainda milito no PP, meu partido de sempre, acho que sou a mais antiga”- dona Lilian sabe que não pode parar. “Em três anos morreram minha nora, o pai dela e o Lula. Meus netos ficaram comigo, sofreram muito. Não me dei o direito de me deprimir”, revela. Lamenta que o marido não tenha ganho o título de cidadania honorária da cidade, mas fica feliz em ver o nome dele no Centrinho, em escola municipal do Adhemar Garcia. E sobre a política, dá lições. “Hoje tá muito ruim! Tem muita impunidade, ninguém paga pelos desvios, e ainda voltam aos cargos depois, e isso tem de acabar”. Seu desejo é continuar o voluntariado, participar das reuniões do grupo de reflexão e viver no sobrado histórico até quando for possível. “Enquanto eu subir as escadas, vou continuar por aqui”, finaliza.

A casa que chora – crônica do dia

lagrimaSemana passada publiquei essa crônica no jornal Notícias do Dia, uma crítica leve ao atual abandono da Casa da Cultura em Joinville (SC). A casa conta suas dores, e pede socorro. Como muitos não leram, e talvez não entenderam qual casa chora e reclama tanto, reproduzo aqui o texto para compartilhar com os leitores do Palavra Livre:

“Nunca pensei que ao entrar nos quarenta eu seria tão abandonada! Logo eu, tão chique e bem apresentada logo que nasci, ora bolas! Até fogos de artifício soltaram iluminando os céus da minha cidade, e não faltaram discursos de tanta gente que lógico, já nesta idade e com esse abandono, nem lembro mais. O fato é que me sinto um lixo, e nem sei como me deixei ficar assim, sem brilho, sem cor, toda molhada e úmida pela malvada dona água, sempre ela a entrar nas pequenas frestas e cantinhos que apareciam em mim. Eu choro por todos os cantos!

Já nasci grande para a época. Cheia de espaços para quem me visitava, e ainda visita mesmo assim desalinhada, pude receber desde cerâmicas, violinos, violões, baixos, contrabaixos, flautas, ah as flautas! Pianos inundavam meu ser com sua música linda, e por outro lado, crianças e jovens me enchiam com desenhos dos mais lindos, pinturas com tons de todas as cores! Oh, quanta gente veio aqui para ver exposições de quadros, gravuras, desenhos, cerâmicas. Quem não se emocionou com milhares de encenações dos artistas adultos, mirins, jovens!

É, mas mesmo com tanta gente andando por meus espaços e salas, corredores e jardins, até mesmo com bailarinos que preenchiam os espaços nos festivais de dança que por mim passaram, eu estou aqui, assim, com minha pele descascando, e meu telhado cedendo de tanta sujeira e chuva. Sei que não sou mais uma menina assim, novinha, fresquinha, mas bem que podiam ter me dado uma plástica não é? Enxotar os cupins, passar uma massinha da boa nas minhas rugas e pés de galinha, pintar meu rosto. Acho que ficaria bem bonitinha!

Menos mal que assim como eu, também as partituras, os pianos, violões, e também os que deveriam ter se preocupado com minha saúde e beleza, envelheceram. Aliás, é assim mesmo que me sinto: feia por fora e doentinha por dentro. Dizem agora, pelos jornais, que talvez nem as crianças e os adultos que sempre vinham passar algumas horas comigo poderão voltar! Que tragédia minha gente, e ninguém faz nada! E olha só: eu sempre dei meus dízimos para manter a casa em ordem, e vejam só, esqueceram de mim!

Dizia um poeta, não lembro mais o nome – talvez até tenha passado por aqui um dia – que a vida começa aos 40. Eu rezo todo dia para que seja verdade e apareça aqui um príncipe encantado montado em seu cavalo branco, com espada e tudo. A esperança é a última que morre. Todo dia eu choro de dor pelos fungos que atacam minhas paredes, pelo limo que insiste em grudar em meus pés fazendo alguns escorregarem de tão liso, e olha que alguns até merecem. Será que ainda dá tempo de começar uma vida nova, cheia de luz, cor, cupins em retirada e ao som de pianos renovados e felizes? Até quando vão me esquecer aqui, sozinha mesmo com tanta gente a me cuidar?”

Um conto sobre o Urubu e o Pavão, enviado por leitor do blog

Chico_da_Silva_E103_PavaoDo grande amigo e colaborador do blog, manezinho emprestado de Canelinha, cidade do Vale do Rio Tijucas próxima de Florianópolis, Moacir Montibeller, recebo um conto que deixa uma boa lição para quem gosta de inventar quando não há necessidade. Valeu Moacir, continue nos ajudando a construir o Palavra Livre, abração!!

“O urubú e o pavão

Tem um conto japonês milenar que é mais ou menos assim:

Em uma planície, viviam um Urubu e um Pavão. Certo dia, o Pavão refletiu: Sou a ave mais bonita do mundo animal, tenho uma plumagem colorida e exuberante, porém nem voar eu posso, de modo a mostrar minha beleza.

Feliz é o Urubu que é livre para voar para onde o vento o levar. O Urubu, por sua vez, também refletia no alto de uma árvore: Que infeliz ave sou eu, a mais feia de todo o reino animal e ainda tenho que voar e ser visto por todos, quem me dera ser belo e vistoso tal qual aquele Pavão.

Foi quando ambas as aves tiveram uma brilhante idéia em comum e se juntaram para discorrer sobre ela: Cruzar-se seria ótimo para ambos, gerando um descendente que voasse como o Urubu e tivesse a graciosidade de um Pavão… Então cruzaram… e daí nasceu o peru, que é feio prá cacete e não voa!! Moral da história: “Se a coisa tá ruim, não inventa gambiarra que piora!!”