Jô Soares tem que morrer, por Roberto Tardelli

Jô Soares tem que morrer e Silas Malafaia precisa achar uma rola. Esse é o nível das questões debatidas atualmente. Parece que a estupidez pula todos os muros e nos contamina coletivamente.

Lá no Chile, após mais uma exibição vergonhosa, uma decadente seleção canarinho vê seu último astro agir como uma criança tola, dando cabeçadas ao vento.

Senadores e políticos brasileiros vão para a Venezuela, imperialistas e idiotas, sancionar a ausência de democracia por lá; na comitiva, tinha até um ruralista, que não é exatamente um exemplo de tolerância.

Na Câmara Federal, adolescentes passam a responder como adultos, nos casos de crimes hediondos, um resultado tosco e burríssimo de qualquer ponto de vista da histeria causada por um falso debate, uma falsa questão, a da redução da idade e imputabilidade penal.

Estamos vivendo o ódio militante. O ódio recíproco, o ódio democratizado, todos odeiam todos e ninguém passará despercebido. Relaxe, alguém o odiará, não há saída, algo sempre restará para ser odiado, um clube de futebol pode ser um bom início, ainda que esse futebol de merda a que assistimos. Se você gostar de funk, ou cantar funk, gol do ódio.

Após ter matado doze animais, estupidamente, uma mulher foi condenada a doze anos de Cadeia, sob os intensos aplausos do ódio ecológico. Animais precisam ser protegidos, como as crianças e os idosos. Rojões de felicidade estouraram pela pena enorme, igual a um homicídio qualificado. Doze anos, oba!!!

Uma garota levou uma pedrada gospel ao sair de um templo de candomblé. A novela mudou sua história e separou os casais homoafetivos porque houve protestos e gritos contra suas personagens, senhoras octogenárias, que trocaram um selinho. Para agravar o folhetim, uma sombra ateísta rondava o casal lésbico. Fim de linha, separadas até na ficção novelesca.

Em uma sessão do Congresso Nacional, deputados rezam, ou oram. Um culto evangélico, a propósito de uma transexual crucificada na passeata gay. Fotos de outras paradas e outros países guarneceram a reza oficial. Nem nos mais duros e cruciantes dias do regime militar, imaginou-se algo assim.

Um clube de bacanas de São Paulo, que tem no quadro de associados um sem-número de professores, doutores e sabidos de todos os ramos do saber científico, o Clube Pinheiros, exige que as babás usem branco. Roupas brancas. Branquíssimas, sob a justificativa da necessidade de proteção dos sócios. Babás suspeitas…

Na Arena Corinthians, o Time do Povo, o Coringão, o ingresso caro expulsou o que o time tinha de melhor, a torcida espontânea, que enfrentava ônibus, chuva e trem. Agora, há camarotes e ingressos caríssimos. O povão corintiano foi expulso. Cartão vermelho.

Estamos caminhando perigosamente na beira do abismo. Descobrimos nossa capacidade de odiar. E nosso ódio purificador nos dá a mais perigosa das sensações: a de superioridade, sem nos darmos conta que muitas vezes apenas sobrepomos preconceitos.

Ao mandar o pastor obscurantista procurar uma rola, nada mais se fez que lançar a um notório homofóbico uma ofensa profundamente machista, tão tacanha quanto a homofobia que abomina.

No Rio de Janeiro, onde as comunidades vivem sob estado de sítio, tomadas pelo Exército em guerra contra o crime, a ofensa eventualmente dirigida a um militar era julgada pela Corte Marcial. Houve a necessidade de o Supremo Tribunal Federal dizer o óbvio; até esse pronunciamento, um longo percurso jurídico em que se pisoteou o chão das estrelas dos direitos fundamentais.

Em São Paulo, nossa polícia militar conseguiu um feito terrificante: matou mais que os bandidos que persegue. Na crueza estatística, está mais perigoso encontrar a polícia.

Tudo se justifica na guerra contra o crime, em que o inimigo precisa ser identificado, mas há de ser construído. Essa construção somente se torna possível com o recrudescimento dos estereótipos sociais. Ou seja, aprofundando-se os preconceitos, que estimulam delações, entregas, dedurismo e estimula heroísmos jurídicos, capas pretas justiceiras.

Na trincheira da guerra contra o crime, existe um castelo a ser destruído, onde mora a Impunidade. Todas as balas se justificam, todos os incêndios são feitos para queimar suas paredes; nesse momento, não há sentido algum na preservação de direitos, que servem apenas para fortalecer os muros do castelo maldito. Depois de derrubado, construiremos novamente a cartilha dos direitos fundamentais que rasgamos.

O castelo, porém, é quimérico e nunca existiu. Antes de ser um castelo, é uma sombra, uma sombra enorme, que somente se dissipará se houver um céu claro e se todos puderem abrir suas portas e janelas, simplificarem-se os formulários burocráticos, rasgarem-se as bulas policialescas. A impunidade não se combate com obscurantismo, mas com transparência.

Procurando uma rola, atirando pedras contra meninas saídas de cultos afros, desejando a morte pintada na rua, prendendo midiaticamente, encarcerando pessoas para que elas confessem ou se curvem a versões oficiais, vestindo de branco jovens babás, transformando o Parlamento em um templo de ódio oficial e sacralizado por uns poucos, tornando-nos paranóicos dirigindo carros blindados, estamos não apenas quebrando uma ordem jurídica, não apenas violando direitos abstratos, por mais visíveis que sejam e, por isso mesmo, tão negados.

Algo começa a se quebrar dentro de nós. Dissolver-nos, dispersar-nos. Quando rompemos com a paz, o que nos sobra não é a guerra. É a barbárie.

Publicado no Justificando, por Roberto Tardelli, Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Opinião: Jornalismo, notícia, erros da mídia, espetacularização e redes sociais

Jornalismo é noticiar os fatos, não espetacularizar e destruir reputações
Jornalismo é noticiar os fatos, não espetacularizar e destruir reputações

Há exatos 13 anos conheci uma senhora de origem alemã de forma inusitada. Trabalhava na antiga Conurb, hoje Ittran ou coisa parecida quando lá ela apareceu para conversar comigo. Sabia meu nome, e pedia minha colaboração ao trabalho dela, confeitaria e cozinha em geral, já que precisava manter a família. Marli Plocharski, a mulher tinha os olhos cansados, a pele marcada pela dor e humilhação. A sua voz guardava a emoção ao falar do que tinha acontecido à sua família, atingida pela ação nefasta da mídia e da polícia civil catarinense. Ela era mãe de Aluísio Plocharski, cuja imagem foi espalhada pela cidade e país indevidamente como sendo o então “maníaco da bicicleta”, personagem criado para “estigmatizar” um criminoso que estuprava mulheres em Joinville (SC), sempre se deslocando com uma bicicleta.

Dali surgiu uma amizade, um pacto entre o jornalista e a vítima de erros da mídia e da polícia. Eu prometi discutir o caso em monografia, ela em ser a fonte e abrir ainda mais a vida em família e as cicatrizes. Há 10 anos defendi “Na Teia da Mídia – A história da família Plocharski no caso Maníaco da Bicicleta”, que se transformou em livro no final de 2011 em parceria com o também jornalista e advogado, Marco Schettert. Ali abordamos temas delicados da nossa profissão, ingrata, que nos pressiona sem dó em busca da notícia, do furo jornalístico e assim, da fama. Tratamos do dano moral, buscamos a comparação com outro erro gigantesco da mídia e da polícia brasileira no caso Escola Base. Citamos também o caso de Oscar do Rosário, acusado, condenado e inocentado após ser provada a falta de… provas. Discutimos seriamente a cobertura feita pela mídia.

Espetacularização das notícias e redes sociais
Naqueles tempos, e nem faz tanto tempo assim, ainda não existiam as poderosas redes sociais como vemos hoje. Era o início de uma nova era, e que por isso mesmo não abordamos em nossos estudos e pesquisas. Em todos estes casos que citei, pessoas tiveram suas vidas rasgadas, marcadas, e até destruídas. Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada, ex-proprietários da Escola Base morreram em 2014 e 2007 respectivamente, sem ver suas imagens restituídas, e tampouco as indenizações totalmente pagas. Marli Plocharski morreu em julho de 2012 sem ver os responsáveis punidos, nem a imagem do filho e da família resgatadas. Seu marido, Ludovico, e o filho que foi a vítima dos erros da polícia e mídia, Aluísio, vivem solitários e sofrendo as consequências de tudo há 14 anos. Oscar do Rosário foi solto após três anos e 14 dias em que ficou preso, com marcas psicológicas que somente ele pode avaliar. Voltou a morar em Canoinhas, casou e tem um filho. Pede indenização ao Estado de Santa Catarina no valor de R$ 8 milhões.

A midiatização da vida, e com ela a espetacularização dos fatos aumentaram exponencialmente a partir de 2004. Agora com um clique, uma frase do tipo “Verdade”, “Vergonha”, “Bandido”, e um compartilhamento com sua rede de seguidores, fãs e amigos, a “notícia” explode em milhares, por vezes milhões, de leitores. Porque digo isso? Vejam o caso do “boato” que culminou com o linchamento até a morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, no Guarujá (SP), no último sábado (3/5). As pessoas filmam os linchamentos, ou seja, assistem e são cúmplices de um crime, e depois repassam via redes sociais! Ou enviam para as grandes redes de televisão! E o ser humano que está ali? E se fosse inocente, como era realmente, como resgatar uma vida? Como já dizia em meu livro, quantos segundos de televisão ou quantos centímetros de papel jornal, valem uma vida? Atualizo para hoje: quantos compartilhamentos valem a vida de um ser humano como você, ou um dos seus?

Erros da mídia continuam, agora em maior escala pela internet
Não vou elencar aqui os outros casos de justiçamentos Brasil afora amarrando negros aos postes após agressões, ou mesmo o caso recente do assassinato de Mara Tayana em Joinville (SC) na última sexta-feira (2/5) cujo suposto assassino acaba de se entregar à polícia civil. O fato é que o jornalismo continua a errar, espetacularizando os fatos ao invés de noticiar os fatos. Quando o repórter busca apenas o furo jornalístico, o melhor ângulo da foto, a entrevista antes dos demais, as “ligações” do acusado ou suspeito com esse ou aquele, sem a profundidade devida, a análise apurada, ou então posta a foto do cidadão antes do outro veículo para ganhar visibilidade e “visitas” em seu site, fanpages, blog, sem cuidados com a imagem da pessoa, sem a convicção plena de que a pessoa é criminosa, o jornalismo passa a deixar de ser jornalismo e passa a ser apenas um espetáculo. E cruel.

O agravante hoje em dia é que além dos erros da polícia, que sempre ocorrem, os erros dos jornais e seus repórteres que ainda continuam por conta da pressão das redações e do lado comercial a perseguir o furo que rende mais leitores e negócios, temos também os “repórteres e jornalistas” das ruas! Sim, hoje as empresas de comunicação buscam a “participação” dos leitores como repórteres, ou colaboradores da mídia. Isso em altíssima escala na internet com suas redes e processos de comunicação altamente virais pode promover erros cada vez maiores e mais sérios, como esse que ocorreu em Guarujá (SP). Passados quase 14 anos do caso Maníaco da Bicicleta com suas vítimas, do caso Escola Base de São Paulo que completa 20 anos, de Oscar do Rosário que completa sete anos, infelizmente o que vemos é a barbárie voltando ao dia a dia da nossa sociedade com base em pretenso jornalismo informativo.

Os mesmos erros de apuração, edição e publicação continuam acontecendo, e agora em larguíssima escala via internet. Reputações que eram derretidas em páginas de jornal impressos, ou em horários de televisão altamente assistidos por incautos telespectadores, agora são dizimadas em alguns cliques no meio digital. Como evitar isso? Penso que as escolas de jornalismo, os centros de direitos humanos, as universidades e faculdades, devem investir mais em debater o tema, conscientizar os futuros jornalistas da grande importância do seu trabalho na vida das pessoas. Jamais publiquem algo sem a devida apuração, prova cabal do que parece estar à sua frente. Vidas valem mais, muito mais do que minutos de fama ou curtidas e fãs nas redes sociais.

* Por Salvador Neto, jornalista, editor do Blog Palavra Livre, autor do livro Na Teia da Mídia, apresentador do programa de entrevistas Xeque Mate na TV Babitonga Canal 9 da NET em Joinville (SC).