Um editorial mais que infeliz

Li com aguçado senso crítico o editorial do Grupo ND, na verdade um manifesto em favor da não realização de eleições este ano, contrariando o que diz a nossa Lei Maior, a Constituição Federal. A defesa intransigente da quebra da regra democrática exposta neste editorial se mostra infeliz, primeiro porque nega a democracia, nega o direito do cidadão a escolher os seus representantes no período legal.

Em segundo lugar, faz uma comparação ainda mais infeliz com a presença do Covid-19, o coronavírus, e que com a realização de eleições poderia se proliferar por conta da presença do povo votando. Nada mais ridículo defender isso, enquanto defende que a economia, comércio, lojas, fábricas, transporte coletivo, etc, voltem com força total. Será que o voto transmite o vírus ou o ardente desejo capitalista extremo de ganhar mais e mais sem a sensibilidade humana supera o valor da vida humana? O que o direito de votar pode fazer, a mais ou a menos, com o aumento da presença do vírus entre nós?

Não se nega, e o editor aqui também pensa igualmente, que as eleições deveriam ser realizadas de forma geral, ou seja, o eleitor votaria do cargo de vereador ao de Presidente da República em uma só eleição. Também pensamos que os mandatos deveriam ser entre cinco ou seis anos, sem reeleição, que aliás não deveria mais existir a partir desta mudança. Acabaria com a negociata, saltos em meio a um mandato para alcançar a outro, bem como reduziria os gastos com eleições a cada dois anos, exigindo também dos eleitos planos de médio a longo prazos para realmente levar os municípios, estados e o país para o desenvolvimento pleno.

O que o editorial do Grupo ND promove é a manutenção dos atuais eleitos sem o voto, a anuência do eleitor. Retira um direito do cidadão previsto na lei maior, e no meio do jogo. Isso é ilegal, e desnecessário. As mudanças, algumas como disse acima, bem vindas, mas em outro momento político que não este, onde enfrentamos as pandemias do Covid-19, das fake news, de um governo federal de linha fascista e autoritária que deseja governar sem a democracia, sem os pesos e contrapesos previstos na CF.

Infeliz editorial. O custo da eleição é não ter eleição. O custo da eleição é café pequeno diante do custo das vidas em jogo diante da abertura indiscriminada da economia em todos os setores só porque empresários desejam. Há sim que se cobrar do Governo Federal que implemente medidas de renda para os brasileiros e brasileiras, inclusive de financiamento para as empresas em geral, para que se mantenham sem a volta das atividades devido ao Covid-19. Cobre-se isso deste Governo Federal que só faz tentar derrubar a democracia, defender filhos e amigos do presidente, e que não governa simplesmente porque não sabe o que fazer.

Democracia plena, com direito ao voto previsto na CF, defesa da vida das pessoas e cobrança dos governantes para que cuidem da sua gente, como países desenvolvidos fazem até sair da pandemia. Assim voltaremos a nos desenvolver. Mas dentro da democracia e dos direitos previstos na Constituição Federal. Retirar o direito ao voto neste ano é uma porta aberta para que se instale de vez o autoritarismo novamente no Brasil.

** O Editor

Autor: Salvador Neto

Jornalista, escritor, e consultor. Editor do Palavra Livre, apresentou o programa de entrevistas Xeque Mate na TV Babitonga Canal 9 da NET entre 2012/2014 e vários programas de rádio em SC. Tem mais de 30 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011) e Gente Nossa (2014). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde é membro fundador e foi diretor de comunicação. Como freelance, escreve para vários veículos de comunicação do país.

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