Aí não dá Governador Moisés, R$ 33 milhões em respiradores pagos sem receber os equipamentos?

Atuar no jornalismo profissional – profissional, repito – não é para os fracos. Dias atrás compartilhei uma notícia real, fonte de alta credibilidade, matéria publicada, que deixava claro o envolvimento do filho do Presidente da República no time das fake news do Governo Federal. Eis que fui interpelado por um oficial da PM, tenente coronel com cargo público em SC, que aquilo era fake news, fruto do trabalho de um bandido, no caso o jornalista multipremiado Gleen Greenwald, editor do The Intercept Brasil.

Respondi: jornalista, e o jornalismo, não são bandidos. Que a matéria era real, verdadeira, de fonte creditada, e que Greenwald não roubou informações. Ele recebeu e tem a garantia da preservação de identidade da fonte prevista na CF. Assim como a polícia dá ao denunciante de crimes o privilégio do anonimato. É lógico, quem entregaria esquemas e malfeitos com gente graúda, ou perigosa, sem garantia de não se queimar. Digo isso porque fazer jornalismo em um país atrasado culturalmente como o Brasil, eivado de coronelismos e governantes que acham que podem tudo e sem prestar contas, é um serviço público que merece estabilidade e ganho de insalubridade. Dito isso, vamos lá.

Governador Carlos Moisés (PSL) e o seu Secretário da Saúde, Helton Zeferino, precisam explicar com urgência os fatos relatados em matéria publicada hoje no The Intercept Brasil que denuncia que o Governo de SC aceitou propostas forjadas para a compra de respiradores no valor de R$ 33 milhões pagos antecipadamente (!!??) e sem receber os equipamentos até hoje! Que é isso gente? Após o caso da compra, sem licitação (!!) para a construção de hospital de campanha em Itajaí/SC no valor de R$ 76 milhões também em tempo recorde de edital e definição, graças à reação da sociedade foi cancelada, eis que o mesmo método é utilizado para os respiradores…

Parabéns aos grandes jornalistas Fábio Bispo e Hiury Potter que assinam a corajosa, bem apurada e escrita matéria para o The Intercept. Por isso que jornalistas profissionais tem de ser respeitados, apoiados e protegidos. Sem o trabalho minucioso e correto, talvez os catarinenses jamais saberiam disso tudo acontecendo em meio a tragédias familiares por conta da Covid-19, a mesma doença de que se utilizam governos para realizarem atos nada republicanos e muito menos legais e corretos. Esperamos a reação rápida na resposta clara e objetiva do Governador e seu Secretário, a apuração dos responsáveis, cancelamento da compra e ressarcimento dos valores ao Estado. Aos deputados estaduais cabe a investigação imediata do caso.

O dia a dia do jornalista é assim mesmo. Um dia nossas matérias contentam descontentes. Amanhã, os que ficaram contentes podem ir para o time dos descontentes porque a reportagem os atinge. Ces’t la vie. Jornalista não é bandido. Jornalista é fundamental para a manutenção da democracia e para a informação da sociedade.

Autor: Salvador Neto

Jornalista, escritor, e consultor. Editor do Palavra Livre, apresentou o programa de entrevistas Xeque Mate na TV Babitonga Canal 9 da NET entre 2012/2014 e vários programas de rádio em SC. Tem mais de 30 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011) e Gente Nossa (2014). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde é membro fundador e foi diretor de comunicação. Como freelance, escreve para vários veículos de comunicação do país.

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