Literatura: Meu primeiro conto – “O reencontro de Natal”

Um conto envolvente, simples e encantador
Um conto envolvente, simples e encantador

Pressionado a escrever um conto ou uma crônica, ou poesia para a sétima mini antologia da Associação Confraria das Letras, o “Letras da Confraria” especial de Natal, ao final de 2014, resolvi arriscar a produzir um conto. Mais complexo que a crônica, que é uma linguagem mais fácil, livre, e leve, o conto exige mais do escritor, algo que ainda persigo.

Por isso publico aqui no Palavra Livre o meu primeiro conto, já que poucos tiveram a oportunidade de lê-lo, apreciando e criticando o conteúdo. É isso que desejo dos amigos leitores. Não o divido em partes para não perder a sequência da história de Fred, Joana, Jujuba e crianças que esperam seus presentes… Aí vai o “Reencontro de Natal”:

“Estavam os três ali, sacolejando ao balanço do caminhão, dentro de um caixote que não parava de pular na carroceria. Pudera, em ruas tão esburacadas como queijo suíço… Fred, um carrinho de madeira, Joana, uma boneca descabelada, e Jujuba, um velho pião com as cordas surradas de tanto rodar por aí, já estavam há dias naquele vai, não vai. Já usados, velhos de tanto brincarem com seus donos, não tinham mais esperanças de voltar às mãos de crianças brincalhonas, arteiras e felizes. Estavam ali entre tantos outros brinquedos abandonados.

É a vida, pensavam os velhos companheiros de tantas crianças! Conheceram várias delas por algumas gerações, doações, mas agora competiam com poderosos concorrentes internacionais que falam, voam, pulam, choram, andam em velocidade sem serem jogados pelas mãozinhas. O Natal estava à porta, e em meio às campanhas solidárias, lá se foram Fred, Joana e Jujuba para uma caixa entre tantas dispostas naquele shopping luxuoso. Sequer tiveram tempo de se despedir de seus donos! E o pior, até ali, ninguém os pegara para cuidar e brincar…

Joana era a mais sentida. Com seus belos olhos azuis, cabelos loiros, já um pouco ralos, sim é verdade, vestida com uns paninhos coloridos e sem sapatinhos, não aceitava a solidão. – Sou muito bela para estar aqui! Mereço uma bela cama com lençóis de seda!, reclamava. Fred, do alto da dureza do seu ser, madeira bruta, apesar de bem arrebentado por muitas corridas e carregamentos de barros e batidas (já não tinha mais a caçamba…), retrucava. – Ora, eu sim, um forte, parceiro para todas as durezas, preciso de quem me valorize, que goste de aventura! E Jujuba… ah, este não tinha ambições.

– Eu quero é girar logo por aí. Sei que perdi um pouco a graça, afinal tem uns novos colegas aí bem mais modernos, mas ainda tenho muito a rodopiar e dar show!, dizia. A verdade é que em meio a tantos outros brinquedos, uns mais quebrados, outros não, a rota do caminhão solidário de Natal dirigido pelo velho voluntário Sebastião estava chegando ao final. Tião, como era conhecido em tantos anos de corridas pelos bairros da cidade, já tinha os ralos cabelos brancos. Se na próxima parada sobrasse algum daqueles brinquedos, o jeito era deixar por aí, ou jogar no lixo. – Tenho pena, quando eu era criança nem tinha um desses para brincar, pensava enquanto dirigia-se ao ultimo ponto de parada.

Nas paradas anteriores a maioria da criançada tinha pegado os brinquedos mais novos, modernos, com menos uso. O que estava ali na carroceria do velho Mercedes cara chata talvez não agradasse aos meninos e meninas que o esperavam nos fundões do Paranaguamirim, bairro da periferia. Afinal, o que sobrara ali eram brinquedos antigos, bem velhinhos e uns tão usados e quebrados que… bom, era melhor não pensar nisso e seguir a missão. Junto com Tião ia João, vestido de vermelho como manda o figurino. Não via a hora de terminar o serviço que durava o dia todo.

Mas lá no Panágua, como o povão chama seu próprio lugar mais ao gosto da simplicidade, a gurizada esperava. Mães e pais também, na esperança de que os filhos ficassem felizes com a chegada do bom velhinho e seus brinquedos. Famílias pobres, lutavam todos os dias para por comida na mesa, e não sobrava para dar brinquedos novos e modernos como os de hoje, que dirá tablets, celulares. Então, aguardavam amontoadas no pátio da igreja, local de encontro daquele ano. Era uma festa. No meio do povo, vendedores ambulantes ofertavam algodão doce, pipoca, doces, também na busca dos últimos trocados para garantir as festas de final de ano.

De repente, lá na esquina surge o cara chata com o bom velhinho acenando! Alvoroço na comunidade. Era só criança correndo para ver quem chegava primeiro para abraçar o Noel, e ver o que podia ganhar. Tião dirige com todo o cuidado, porque nessas horas a multidão não tem controle. Ao parar o caminhão, João Noel desce e distribui balas e doces. Uma alegria só, e um empurra-empurra generalizado! Imagine o desejo infantil do brinquedo adorado, e o sonho de pais em ver seus filhos felizes. De repente o vozeirão avisa: – Atenção! Vamos organizar a fila gente! Era o padre Felício tentando organizar a desorganização de sempre.

O povo o respeitava muito, afinal ele era o homem de Deus na região, e também sabia das coisas. Cobrava das autoridades uma vida melhor para aquele povo. Magro, com seus óculos quadrados, pretos, mas com fala firme e olhar decidido, padre Felício liderava movimentos em favor de mais saúde, infraestrutura, e agora, ajeitava tudo para que não faltassem brinquedos para a criançada. O motorista Tião já sabia que, se faltasse brinquedo ali a bronca seria enorme! No roteiro de visitas pela cidade, cuidava para que nada faltasse até o final no encontro com o padre.

Se o alvoroço era grande lá fora, imagine naquela caixa. Entre os colegas brinquedos, Fred, Joana e Jujuba tentavam se ajeitar para serem notados, afinal, queriam voltar para a alegria das crianças, viver em animação nas ruas, animar histórias nas mãos infantis. E começou a entrega dos brinquedos. Uma a uma as crianças saiam com seus troféus, já a brincar com os coleguinhas. Quase ao final da fila estava José. Com seus dez anos, pequeno para a idade, olhos miúdos e castanhos, cabelos da mesma cor, ondulados, tinha chegado atrasado.

A tristeza já tomava o seu coração. Será que ainda sobraria brinquedos para ele seus irmãos? A cada metro que a fila avançava, mais sua respiração acelerava, parecia que o coração saltaria boca afora. Seu pai e sua mãe garantiam o sustento da casa com a pesca artesanal. Seu atraso se justificava: estava até a pouco cuidando dos manos pequenos. Quando os pais chegaram, ele correu até a igreja. Será que daria certo? Conseguiria ao menos um presente? E a fila andava… e não chegava a sua vez!

E João Noel não aguentava mais de entregar presente para a meninada agitada. Tião preparava o caminhão para ir embora ver a sua família. E o padre avisava a todos que daqui a pouco tinha a missa, não poderiam faltar! Deus não perdoa, dizia ele. Fred se batia ao lado de Jujuba, e aquele barulho de madeira batendo o deixava furioso! Joana, já quase perdendo o vestidinho, lamentava a sua má sorte: nenhuma criança a tinha escolhido! E agora! Será que ficariam sem dono, sem eira nem beira em pleno Natal?

Chegou a vez de José. Ansioso, olha nos olhos do Papai Noel como quem espera o prato de comida. Tião empurra a caixa que ainda tinha algo dentro. – É o que sobrou filho, diz ele a José. Um brilho nos olhos surgiu, e por trás dele, lágrimas de alegria, pois sobraram apenas três brinquedos! Era muita sorte! – Obrigado!, disse José já pegando nas mãos aqueles três brinquedos, exatamente o que precisava para que todos em casa ficassem contentes. Ao espiar cada um deles nos pacotes de presente meio rasgados, parece que via alegria também vinda daqueles brinquedos! Seria possível?

Correu para casa sem parar! O trecho da igreja até a sua pequena casa de madeira que beirava o rio parecia ter milhares de metros, não acabava mais! Os cabelos esvoaçavam ante os ventos do inicio da noite. Fred, Joana e Jujuba percebiam o chacoalhar, diferente dos pulos na carroceria do Mercedes de Tião. O que acontecia, imaginavam. José chegou finalmente. Seu pai e sua mãe o receberam enquanto limpavam seus peixes. A pequena Sara, a caçula, e Mateus, irmão do meio, pularam em sua frente. – O que nós ganhamos, o que veio, gritavam!

José então entregou a cada um o seu presente. Sara não sabia o que dizer da boneca loira que tinha nas mãos… era a mais linda que tinha ganhado, na verdade, inteira, era a única. Mateus pegou o pião nas mãos e saiu a atirar ele ao chão e ver rodar. Já tinha visto os amigos com alguns, mas agora tinha o dele. E José, enfim teve seu caminhão. Faltava a caçamba, mas isso dava para enjambrar. Saiu também a fazer vruummm, vruummm, pelo terreiro da casa. Depois do susto, era a realização de sonhos, sonhos natalinos dele, dos pais, da família. O reencontro da alegria que só o Natal faz.

E Fred, Joana e Jujuba? Bom, eles também se reencontraram com a alegria da brincadeira, dos inventos, e sentiram-se úteis e felizes. No dia seguinte, Fred já tinha sua caçamba feita de casca de ostra. Joana ganhou novo vestido feito pela mãe de Sara, todo florido! E Jujuba, ah, Jujuba agora roda mais forte que nunca! Ganhou uma nova corda reforçada e sai por aí rodando o mundo a partir do Panágua!

* Escrito por Salvador Neto em 8 de dezembro de 2014, especial para a sétima mini antologia Letras da Confraria da Associação Confraria das Letras.

Autor: Salvador Neto

Jornalista, escritor, e consultor. Editor do Palavra Livre, apresentou o programa de entrevistas Xeque Mate na TV Babitonga Canal 9 da NET entre 2012/2014 e vários programas de rádio em SC. Tem mais de 30 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011) e Gente Nossa (2014). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde é membro fundador e foi diretor de comunicação. Como freelance, escreve para vários veículos de comunicação do país.

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