Entre policias e bandidos, somos reféns de ambos

EPalavra-Livre-policia-bandidos-refensra uma quarta-feira, dia 3/12 por volta das 14 horas quando estacionei o Renault Symbol pouco à frente das sedes do Fórum – Poder Judiciário e Câmara de Vereadores de Joinville (SC). Estava em cima da hora para uma reunião com o juiz da Vara de Execuções Penais, João Marcos Buch, sobre um projeto social via educação pela leitura e literatura em que estava debruçado há três meses.

Após tudo correr bem, a ideia ser aprovada, passamos a conversar sobre o tema no próprio Fórum. Saímos de lá por volta das 17 horas para seguir de volta a correria do dia. E aí a surpresa: sumiu o Symbol, mesmo com uma blitz da PM em conjunto com a Guarda Municipal de Joinville. Questionamos. Nada. Liguem para o 190, disseram os soldados. Ligamos. Atendente, após a explicação do ocorrido pede para que falemos antes com o serviço de guincho, já que havia blitz. Ligamos. A telefonista do guincho diz que informações, somente no outro dia.

Acharam pouco? Os soldados, a nosso pedido, passam então a tentar, isso, tentar escrever um BO da PM, ali mesmo no veiculo multador. Cai uma chuva torrencial. Escreve um pouco, para. Outro pega, continua. Pede documentos. Continua, lento. Por volta das 18:15 terminaram, mas sem cópia para o cidadão em prejuízo. Informam para ir até a delegacia do bairro Boa Vista fazer o BO que vale, segundo eles. A odisseia continua. Pedimos um táxi, que naquele horário demorou a chegar com o belo trânsito da maior cidade catarinense.

Após quase meia hora, chegamos em meio às chuvas na delegacia, a central de todas. O policial nos atende, e muito educado, informa que ali não é o local para relatar furtos. Isso mesmo. Reclamamos. Nada. Somente poderia fazer na delegacia da Marques de Olinda, ou no Morro do Meio, área a qual meu endereço residencial pertence. Com apoio de amigo, lá fomos nós para o Glória/Costa e Silva.

Lá chegando, tudo fechado. Janelas com películas super-pretas inviabilizam saber se há alguém para nos atender. Ficamos por uns quinze minutos batendo em janelas. Eis que surge o policial civil. Poucas palavras, manda sentar. Redige o boletim de ocorrência. Reclama que tem de trabalhar assim, fechado, pois fica sozinho no local. Feito o serviço, imprime, nos entrega uma via. Agradecemos, boa noite, e vamos para casa.

Esse é o retrato da segurança pública na maior cidade catarinense. Você é furtado em pleno luz do dia, em frente às sedes de dois poderes públicos, Judiciário e Legislativo, e com uma blitz instalada há menos de cem metros de onde estava o seu carro (ela foi instalada após eu deixar o veículo na via). Depois disso, é enviado com o seu prejuízo rumo a lugar indevido. Corre a outro. Sai de lá com um papel, e mais nada acontece.

De que forma o cidadão pode se sentir seguro diante de um quadro de abandono desses? De desinteresse, sem qualquer alarme imediato e certeiro no crime. Após isso, tivemos o apoio de vários amigos, todos tentando ajudar de alguma forma, inclusive nos levando até locais de possíveis desmanches. Todos irmanados tentando reduzir a perda, o choque da perda material. A polícia? Até hoje, uma semana depois, sequer dá pistas de alguma coisa.

Mais que isso, busquei contatos com todas as fontes que tenho, privilegiadas como jornalista que sou, e aí você descobre que há mais por trás de tudo isso que apenas falta de vontade. Há uma espécie de acordo consentido, onde um faz de conta que coíbe, e o outro faz de conta que rouba pouco. Até que um lado resolve dar uma brecada pois está além do limite aceitável.  E olha que falo aqui somente do furto de um bem material, porque em casos de crimes contra a vida, por causar comoção, a polícia até age, devagar, mas age, e em alguns casos com erros gravíssimos contra pessoas de bem.

De nada adiantam seminários, reportagens especiais nos jornalões, se a classe política, os governantes do país são inertes diante do crime. O fato é que maquiagem cai, dia a dia, mostrando a verdadeira face da gestão de segurança falida, atrasada e conivente com o crime, como a que vivemos. Somos hoje uma sociedade refém da polícia e dos bandidos. Que futuro queremos?

* Salvador Neto, jornalista e editor do Blog.

Autor: Salvador Neto

Jornalista, escritor, e consultor. Editor do Palavra Livre, apresentou o programa de entrevistas Xeque Mate na TV Babitonga Canal 9 da NET entre 2012/2014 e vários programas de rádio em SC. Tem mais de 30 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011) e Gente Nossa (2014). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde é membro fundador e foi diretor de comunicação. Como freelance, escreve para vários veículos de comunicação do país.

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