Mulheres relatam torturas à Comissão da Verdade em Joinville (SC)

As quatro mulheres ouvidas nas duas primeiras audiências públicas da Comissão da Verdade de Joinville confirmaram a existência de um padrão de ação dos órgãos de segurança durante a Operação Barriga Verde, entre 1975 e 1976. Em sequências idênticas, seus maridos foram encapuzados e levados ao Batalhão do Exército de Joinville, transferidos para Curitiba onde passaram por torturas durante uma ou duas semanas e, por fim, transportados para Florianópolis, onde ficaram presos por vários meses na penitenciária ou na Polícia Federal.

“Fomos massacradas, porque lutávamos por um Brasil melhor”, disse Lúcia Schatzmann, emocionada. Os sequestros ocorreram em novembro de 1975. Todos foram devolvidos às famílias em outubro de 1976 em péssimo estado de saúde em decorrência das torturas com choques elétricos, pau-de-arara, afogamento e empalação. “Encontrei meu marido em Florianópolis em estado deplorável”, relembrou Maria Damásio.

Os depoimentos colhidos nos dias 2 e 8 deste mês foram dados por Lúcia Schtzmann, mulher de Edegar Schatzmann; Maria Damásio, mulher de Valdemar Damásio; Linete Borges, mulher de Irineu Borges; e Glória Rocha, mulher de Osni Rocha. Dos quatro, apenas Edegar Schatzmann está vivo.

As mulheres destacam a criação de forte laço de amizade entre elas que dura até hoje, nascido nas tentativas de localização dos maridos, e um apoio material oferecido pela Prefeitura e Câmara de Vereadores, que cederam carros e cestas básicas de alimentos.

Traços em comum nos depoimentos das mulheres são a militância sindical de seus maridos, vinculação com o Partido Comunista do Brasil, humilhação nos órgãos de segurança, perseguição, tachação de subversivos, instabilidade emocional, familiar e financeira. “Até hoje não entendo a ameaça que nossos maridos representavam”, disse Linete Borges. “O medo da polícia era tanto que cheguei a enterrar dois sacos de livros no quintal para me afastar dessa cruz”, relembrou. “Meu marido caiu na depressão e no alcoolismo”, disse Glória Rocha.

A Comissão da Verdade de Joinville, constituída por lei municipal em agosto, é a única criada em âmbito municipal em Santa Catarina e tem como meta ouvir vítimas e testemunhas de episódios de violação de direitos humanos. O relatório final será incorporado pelo trabalho da Comissão Estadual da Verdade até o mês de novembro.

É integrada por representantes da Prefeitura, Câmara de Vereadores, Ordem dos Advogados do Brasil, Centro de Direitos Humanos Maria da Graça, Instituto de Desenvolvimento e Direitos Humanos, Departamento de História da Univille e Curso de Jornalismo do Instituto Superior e Centro Educacional Luterano Bom Jesus/Ielusc.

As primeiras audiências foram realizadas nos dias 2 e 8 de setembro. Outras três estão marcadas para os dias 15, 22 e 29 na Câmara de Vereadores de Joinville (Av. Hermann August Lepper, 1100), às 19 horas.

Com informações da Secom/Prefeitura de Joinville.

Autor: Salvador Neto

Jornalista, escritor, e consultor. Editor do Palavra Livre, apresentou o programa de entrevistas Xeque Mate na TV Babitonga Canal 9 da NET entre 2012/2014 e vários programas de rádio em SC. Tem mais de 30 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011) e Gente Nossa (2014). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde é membro fundador e foi diretor de comunicação. Como freelance, escreve para vários veículos de comunicação do país.

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