Quero voltar para os meus pais

Juro que não entendo! Quanto mais eu choro, mais eles brigam comigo! Quanto mais me bato, mais me seguram, e quanto mais eu peço para ir com meus pais, eles não deixam! Sinto falta deles, do carinho deles, do meu quarto, meus brinquedos. Da minha vó! Eu quero voltar prá casa, quero voltar para meus pais! O que eu fiz de errado? Desde o dia que me levaram para um lugar chamado de lar, só vejo minha mãe e meu pai uma vez, de vez em quando! Eu quero ir prá casa e ficar lá todo dia!

Sei que às vezes sou levado, e que também fico meio doentinho, mas será que é por isso que não me deixam ir com eles? Ou eles não me querem mais? Só sei que naquele lar não quero mais ficar. Tem gente lá querendo ser meu pai, minha mãe, mas eu não quero isso! Já apanhei, fiquei machucado, e me bato muito porque sinto muito a falta dos meus pais. Nas vezes que me levam para um lugar chato, com gente chata que me perguntam coisas que não entendo, são os piores dias!

Sabe por quê? Porque eu peço as coisas para meus pais, choro, quero brincar com eles, passear com eles, mas tem uma mulher que não deixa! Minha mãe chora, meu pai chora, eu choro, eu pergunto: pai, mãe, porque vocês não me levam com vocês? Eu quero ir, não quero ficar aqui, não quero voltar para aquela casa! Aí essa mulher chata me segura, aí eu grito, grito muito, mas ela não me solta! Meus pais vão embora, e eu estou revoltado! E eles me levam de volta prá onde eu não quero ir… não é minha casa, não são meus pais… e ainda apanho!

Porque essa gente grande não entende que isso não é bom prá mim? Eu já falei para um tal de juiz que eu quero ir prá casa. Mas ele não diz nada, só pergunta, e nada! Só sei de uma coisa: enquanto não me deixarem ir, eu vou ficar ainda mais bravo, vou bater, vou gritar, vou pular até que me deixem ir prá casa, é lá que eu gosto! Tô com saudades da minha vó, da outra vó da outra cidade…

Agora, um dia quando eu crescer, vou descobrir porque estão fazendo isso comigo! Vou saber por que meus pais não me levam. Será que não me amam mais? Será que me trocaram? E quando eu sair desse lugar ruim, um dia eu vou fazer com eles o que eles fazem comigo hoje! Aí eles vão entender que eu só quero ir para casa, quero ir com meus pais…! Gente grande só sabe fazer coisa ruim prá gente… Eu quero é voltar prá casa…

 

  • Essa pequena crônica busca mostrar um pouco da tristeza, do desespero, da desgraça que é afastar filhos de pais com base em laudos pouco confiáveis produzidos para pronunciamentos de juízes de família. Feita com base em fatos reais, essa crônica busca iluminar um pouco o que acontece nas centenas de situações de famílias nos judiciários brasileiros. Este caso, espero, seja solucionado, resolvido, para que a paz e o amor voltem a quem mais precisa: filho, pais e avós.

Por Salvador Neto

Autor: Salvador Neto

Jornalista, escritor, e consultor. Editor do Palavra Livre, apresentou o programa de entrevistas Xeque Mate na TV Babitonga Canal 9 da NET entre 2012/2014 e vários programas de rádio em SC. Tem mais de 30 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011) e Gente Nossa (2014). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde é membro fundador e foi diretor de comunicação. Como freelance, escreve para vários veículos de comunicação do país.

2 comentários em “Quero voltar para os meus pais”

  1. Merilene de Paulo, bom receber sua participação aqui no Palavra Livre, obrigado! Bom, o que posso te dizer? O que ficou da colonização… que tal usar como base a vontade de fazer, o desejo de conquista que leva ao desenvolvimento, o sentimento dos colonizadores da época em comparação à busca pela terra que ainda acontece hoje… Que tal? Espero que tenha ajudado um pouco, abraços e boa sorte!

  2. Boa noite! Gostaria de te pedir uma ajuda. Preciso escrever uma crônica/carta da permanência sobre o que ficou da colonização.
    Estou sem ideia. Pode me ajudar?

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