“O bálsamo do labor da cigarra”, crônica do amigo Donald Malschitzky

Com a anuência do amigo, escritor, poeta e confrade das letras, Donald Malschitzky, reproduzo aqui uma de suas crônicas, que publica em jornais de Joinville e de São Bento do Sul, falando de incompreensões, etc…. Sempre eloquente, Donald sempre nos passa toda a crueza da vida em linhas suaves…. Confiram abaixo:

Escrever tem dessas coisas. Mencionei a posição dúbia do papa para com o ecumenismo; leitora escreveu-me que se o papa não aprovava “esse tal de ecumenismo”, coisa boa não era! Obviamente, não tinha a menor noção de seu significado, que vem de “aldeia”, um lugar onde as pessoas convivem e se aceitam sem se acharem superiores às outras. Da outra, disse que o “workalcolic” tinha uma doença que deveria ser tratada. Antes de fazê-lo, pesquisei no são Google e em livros e indaguei especialista. A reação não foi das melhores!

Em “Fogo Pálido”, Vladimir Nabokov (para ajudar: autor de “Lolita”) escreveu: “La Fontaine errou: morta a mandíbula, a canção perdura”. Não foi La Fontaine o autor da fábula, foi Esopo, mas o francês a colocou num poema que todo mundo que um dia estudou a língua teve de aprender. Bilac inventou outra fábula, enaltecendo a canção, e Khalil Gibran chamou de limitado o pensamento que coloca o labor da formiga acima da música da cigarra. Nabokov foi perfeito: a mandíbula um dia para; a canção é perene. Não só a canção: a arte.

Quem montou o primeiro tanque de guerra? E quem compôs a Nona Sinfonia? Quantos sabem a resposta para a primeira pergunta? E para a segunda? Em uma religião, o que vem antes, o templo ou a palavra? Quando os bens acumulados se vão, o assobio não fica guardado e um dia se manifesta e faz carinho no coração? Se, da contemplação da beleza, aparente ou oculta, não nascessem quadros, esculturas, poemas, acordes, seríamos mais ou menos felizes?

O conceito de que fazer arte não é trabalhar tem várias origens, todas elas burras; quem faz arte, normalmente, tem outra visão das coisas, não gosta de caretice, não vê sentido em regras sem sentido e por aí vai, mas trabalha, e muito. Ou pintar a Capela Sistina foi um descanso para Michelangelo? E como podemos classificar o esforço de Beethoven, surdo, mandando cortar as pernas do piano para, pela vibração no solo, melhor identificar as notas? E o escritor que passa dez horas por dia escrevendo e mais um tempo pesquisando? Quantos anos de duro aprendizado precisa a bailarina e, depois, quantas horas de ensaio para minutos de aplausos? Cigarras, sim, que trabalham para que o suor seja mais agradável. E gostam do que fazem. Talvez esteja aí a razão do preconceito”.

Autor: Salvador Neto

Jornalista, escritor, e consultor. Editor do Palavra Livre, apresentou o programa de entrevistas Xeque Mate na TV Babitonga Canal 9 da NET entre 2012/2014 e vários programas de rádio em SC. Tem mais de 30 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011) e Gente Nossa (2014). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde é membro fundador e foi diretor de comunicação. Como freelance, escreve para vários veículos de comunicação do país.

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