A casa que chora – crônica do dia

lagrimaSemana passada publiquei essa crônica no jornal Notícias do Dia, uma crítica leve ao atual abandono da Casa da Cultura em Joinville (SC). A casa conta suas dores, e pede socorro. Como muitos não leram, e talvez não entenderam qual casa chora e reclama tanto, reproduzo aqui o texto para compartilhar com os leitores do Palavra Livre:

“Nunca pensei que ao entrar nos quarenta eu seria tão abandonada! Logo eu, tão chique e bem apresentada logo que nasci, ora bolas! Até fogos de artifício soltaram iluminando os céus da minha cidade, e não faltaram discursos de tanta gente que lógico, já nesta idade e com esse abandono, nem lembro mais. O fato é que me sinto um lixo, e nem sei como me deixei ficar assim, sem brilho, sem cor, toda molhada e úmida pela malvada dona água, sempre ela a entrar nas pequenas frestas e cantinhos que apareciam em mim. Eu choro por todos os cantos!

Já nasci grande para a época. Cheia de espaços para quem me visitava, e ainda visita mesmo assim desalinhada, pude receber desde cerâmicas, violinos, violões, baixos, contrabaixos, flautas, ah as flautas! Pianos inundavam meu ser com sua música linda, e por outro lado, crianças e jovens me enchiam com desenhos dos mais lindos, pinturas com tons de todas as cores! Oh, quanta gente veio aqui para ver exposições de quadros, gravuras, desenhos, cerâmicas. Quem não se emocionou com milhares de encenações dos artistas adultos, mirins, jovens!

É, mas mesmo com tanta gente andando por meus espaços e salas, corredores e jardins, até mesmo com bailarinos que preenchiam os espaços nos festivais de dança que por mim passaram, eu estou aqui, assim, com minha pele descascando, e meu telhado cedendo de tanta sujeira e chuva. Sei que não sou mais uma menina assim, novinha, fresquinha, mas bem que podiam ter me dado uma plástica não é? Enxotar os cupins, passar uma massinha da boa nas minhas rugas e pés de galinha, pintar meu rosto. Acho que ficaria bem bonitinha!

Menos mal que assim como eu, também as partituras, os pianos, violões, e também os que deveriam ter se preocupado com minha saúde e beleza, envelheceram. Aliás, é assim mesmo que me sinto: feia por fora e doentinha por dentro. Dizem agora, pelos jornais, que talvez nem as crianças e os adultos que sempre vinham passar algumas horas comigo poderão voltar! Que tragédia minha gente, e ninguém faz nada! E olha só: eu sempre dei meus dízimos para manter a casa em ordem, e vejam só, esqueceram de mim!

Dizia um poeta, não lembro mais o nome – talvez até tenha passado por aqui um dia – que a vida começa aos 40. Eu rezo todo dia para que seja verdade e apareça aqui um príncipe encantado montado em seu cavalo branco, com espada e tudo. A esperança é a última que morre. Todo dia eu choro de dor pelos fungos que atacam minhas paredes, pelo limo que insiste em grudar em meus pés fazendo alguns escorregarem de tão liso, e olha que alguns até merecem. Será que ainda dá tempo de começar uma vida nova, cheia de luz, cor, cupins em retirada e ao som de pianos renovados e felizes? Até quando vão me esquecer aqui, sozinha mesmo com tanta gente a me cuidar?”

Autor: Salvador Neto

Jornalista, escritor, e consultor. Editor do Palavra Livre, apresentou o programa de entrevistas Xeque Mate na TV Babitonga Canal 9 da NET entre 2012/2014 e vários programas de rádio em SC. Tem mais de 30 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011) e Gente Nossa (2014). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde é membro fundador e foi diretor de comunicação. Como freelance, escreve para vários veículos de comunicação do país.

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