Minha crônica sobre meu irmão – “Júnior vive”

Júnior queria viver. Mas desde que nasceu já sentiu as dores do mundo. No parto, quase morreu. Sem oxigênio para o cérebro por alguns minutos em complicações no parto,ele ficou com sequelas. Assim como quem não sabe nadar e cai num rio profundo, prestes a se afogar, essa criança lutou. E emergiu, respirando fundo, com toda a força que a divina providência havia lhe concedido. A vida era seu prêmio.

Ele foi o último a chegar à casa de madeira na rua João Pinheiro. Seus cinco irmãos, quatro homens, seu pai e sua mãe o receberam com alegria. Quando nasceu Júnior, o céu estava cinza. E por muitos anos esse céu permaneceu sobre sua cabeça. Cabeça que ficou meio assim, falhando. Os anos foram passando, assim como passam carros nas rodovias. Rápido, muito rápido. Com seus dentes saltados, o menino transbordava simpatia, amizade. Seu sorriso e alegria eram permanentes. Porém aquela falta de oxigênio deixou marcas, freios que seguravam o avanço, a sua capacidade de aprender.

Em casa, os irmãos não entendiam a diferença. Tinham vergonha. Afastavam-se, e mesmo não saiam a seu lado. Júnior sentia agora outras das dores do mundo, o preconceito. Por vezes sua cabeça doía. As paredes eram duras demais, as convulsões, duras demais. A escola particular não o quis. Os outros alunos, e seus pais, não gostaram de ver aquele menino diferente entre os seus. No máximo uma formatura de pré. Com seu canudo de formado, partiu em busca de um lugar que o recebesse. Com carinho, como ele merecia.

Com sua mãe guerreira, que sofria ao lado de Júnior as dores do esquecimento, do afastamento, do preconceito, ele foi lutar. Uma escola pública com nome de mulher o acolheu. O menino cresceu e chegou até a quarta série. Mas tinha sido difícil aprender! E lá foi ele conversar com uma nova amiga. Com bonecos, massas e lápis de cor, ele contava o que sentia a Talita. E avançou mais um pouco. Foram anos conversando, e ao mesmo tempo compreendendo que era possível aprender algo. Ser útil, se sentir útil.

E assim, fazendo amigos, Júnior foi crescendo, Passava alegria, descontração, carinho, amizade e lealdade a cada um que conhecia. Quando não engolia alguém, não dava conversa. Sua mãe enviuvou, e mais ainda ele a cuidou. Viviam os dois na casa de madeira da rua Ibirapuera, que já tinha 40 anos. Herança do pai. Só saía para sua terapia, para o futebol e dançar. Em cada um que conheceu deixou sua marca. Indelével, inesquecível. Passando três décadas da sua chegada ao mundo, pela última vez as dores do mundo voltaram a lhe encontrar.

Por seis meses ele sofreu com a fraqueza do seu coração. Suas pernas incharam. Seu tronco quase secou. Hospital, exames, casa, hospital. Curtiu ainda mais uma aniversário dele, dos sobrinhos Lucas e Gabriel, e quando daria mais um parabéns a Joinville, sua força expirou. Em seu velório, as flores chegavam aos montes. Amigos de toda a parte, de todos os credos de todas as deficiências, de todas as idades, foram lhe dar um último adeus. Júnior queria viver. E graças a Deus, ele continua vivo na memória de cada um em quem tocou com seu exemplo, seu carinho e perseverança na busca pelo respeito, reconhecimento e contra o preconceito.

* Publicado no jornal A Notícia em 26 de março de 2008 para homenagear meu irmão querido que deixou uma marca inesquecível de amizade, companheirismo e solidariedade.

Autor: Salvador Neto

Jornalista, escritor, e consultor. Editor do Palavra Livre, apresentou o programa de entrevistas Xeque Mate na TV Babitonga Canal 9 da NET entre 2012/2014 e vários programas de rádio em SC. Tem mais de 30 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011) e Gente Nossa (2014). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde é membro fundador e foi diretor de comunicação. Como freelance, escreve para vários veículos de comunicação do país.

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