Áreas de Risco na Capital – Vem aí reportagem especial

Em todo o mundo existem áreas de risco onde vivem milhares de pessoas em situações logicamente de risco. Todos vemos todos os dias desastres que levam sonhos e vidas por água abaixo, ou terra e pedras abaixo. Recentemente vimos na Baixada Santista a desgraça que se abateu sobre a população que vive nas encostas. Belo Horizonte também já sentiu os efeitos das chuvas em excesso, Rio de Janeiro, e por aí vai. Falamos de desastres naturais, e logicamente aliados a ocupações que não deveriam ter ocorrido nestas áreas, conhecidas como de risco.

O fato é que as pessoas buscam um lugar para fixar seu lar, sua vida. Um processo histórico de falta de moradias, e pouca ou quase nenhuma ação por parte dos poderes públicos para oferecer moradia digna a milhões de brasileiros, levaram ao longo de décadas que pessoas com baixa renda a moradias em áreas de risco, não porque desejam correr riscos, mas sim porque precisam de um teto para viver, criar seus filhos, e ainda sobrar algum dinheiro para comprar alimentos…

Florianópolis já passou por vários desastres em áreas de risco. Alagamentos são frequentes em várias áreas da ilha e também do continente. Mas o que preocupa muito são os deslizamentos nos morros e encostas, cujo marco foi a morte de uma moradora do Morro da Mariquinha no final de 2011. De lá para cá pouco foi feito para mudar a situação das áreas de risco. Isso vamos mostrar em reportagem especial que publicaremos aqui no Palavra Livre a partir da semana que vem, em partes. Contamos com a sua audiência, é um registro para que as autoridades façam alguma coisa antes que uma tragédia maior, e anunciada há muito tempo, ocorra. Até breve!

Jornalismo: Prêmio Vladimir Herzog recebe inscrições até 3 de agosto

Com o objetivo de reconhecer e valorizar os trabalhos jornalísticos que tenham como tema democracia, cidadania e direitos humanos, os profissionais da área poderão inscrever suas reportagens até o dia 3 de agosto para o ‘34 ° Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos 2012’.

O Prêmio, criado dois anos após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, reconhece trabalhos de diversas mídias. São nove categorias: Artes (ilustrações, charges, cartuns, caricaturas e quadrinhos), Fotografia, Documentário de TV, Reportagem de TV, Rádio, Jornal, Revista, Internet e Categoria Especial (envolve todas as mídias) e que tem como tema, neste ano, “Criança em situação de rua”.

Os vencedores serão anunciados em uma sessão pública com transmissão ao vivo pela internet. O resultado será divulgado no dia 10 de outubro, na Sala Sérgio Vieira de Melo da Câmara Municipal de São Paulo. A cerimônia de entrega do prêmio acontecerá no dia 23 de outubro, no Teatro da Pontifícia Universidade Católica (PUC), na capital.

Do Comunique-se

Memória: Conrado de Mira, o organizador do sindicalismo joinvilense

Esta é mais uma matéria, reportagem especial que fiz para o jornal Notícias do Dia para a seção Memória, publicada na edição de final de semana – 17 e 18 de dezembro de 2011 – que retira do baú a história do sindicalismo joinvilense com um pouco da vida do senhor Conrado de Mira, já falecido. Baseei essa reportagem em entrevista com sua viúva, dona Irany Caldas de Mira, e pesquisa em arquivos históricos e documentos familiares. Mais uma contribuição para o resgate de nossa história, falando dos trabalhadores que muitas vezes são “invisíveis” aos olhos das pessoas por falta de abordagem da mídia em geral. Compartilho com os leitores do Blog em homenagem a esses dias em que o livro está em alta com nossa Feira do Livro, confiram abaixo:

” Se hoje os trabalhadores brasileiros têm direito às férias, jornada de trabalho definida, décimo-terceiro, aposentadorias, pensões, entre outros direitos, tudo se deve a muitos líderes operários que enfrentaram a dura disputa contra o capital no início do século 20. Entre eles um marceneiro, Conrado de Mira, que entre 1929 e 1930 abraçou a causa de Getúlio Vargas com a famosa Revolução de 1930, que derrubou o governo de Washington Luís, e ampliou os direitos trabalhistas. Mira foi um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil em 1931, e logo virou seu presidente. Em seguida os trabalhadores foram se organizando nos sindicatos dos trabalhadores em olarias, dos metalúrgicos, dos gráficos, dos moinhos, das oficinas mecânicas, dos estivadores, dos têxteis e também dos trabalhadores em massas alimentícias.

Graças ao seu preparo intelectual, Conrado de Mira foi aos poucos sendo funcionário de todos os sindicatos. Ele dirigia e administrava toda a burocracia sindical, e inclusive fazia as defesas trabalhistas. Tudo isso está registrado na enorme documentação que está depositada no Arquivo Histórico de Joinville, fruto de doação da família. Mas também está em parte anotado na memória de sua viúva, Irany Caldas de Mira, que aos 72 anos mantém uma saúde em dia, viaja e passeia bastante com as amigas, e mantém tudo arrumadinho na casa em que viveu com seu marido por 25 anos, no centro da maior cidade catarinense. “Ele era viúvo, e eu trabalhava como secretária no Sindicato. Acabamos casando quando eu tinha 18 anos, e ele uns 55 acho”, explica.

Ela vive com a filha Fárida na casa quase centenária. O outro filho, Farley, mora em Foz do Iguaçu. Eles lhes deram três netos. Conrado teve ainda dois filhos do primeiro casamento, Fausto que mora em Florianópolis, e Flavio que já faleceu. Dona Irany relata que ele era muito animado, festeiro, e muito alvoroçado. “Ele não parava nunca! Trabalhava direto, no sindicato, e trazia trabalho prá casa. Não tinha ano novo, nada. Só descansou quando morreu mesmo”, confirma a senhora franzina que superou momentos difíceis ao lado do marido sindicalista. A devoção pelo trabalhismo de Vargas o levou também a política partidária. Conrado de Mira foi candidato a prefeito por duas vezes (1947 e 1955), a deputado estadual pelo menos outras duas, e foi eleito vereador.

A farta documentação meticulosamente datilografada, organizada, anotada e arquivada mostra que sua intelectualidade era acima da média. De milhares de documentos, dona Irany guarda poucas coisas, mas nesses papéis se vêem manifestos aos trabalhadores, boletins informativos periódicos, vários com o título “Deixa o trabalhador passar”, e muito material político promocional. Segundo Irany, Conrado era muito articulado. “Ele se dava bem com todos, com o Jota Gonçalves, apoiou o João Colin, mas brigavam também. Depois, voltava tudo ao normal”, conta abrindo o sorriso tímido. O sindicalista foi do PTB, PSB e também do PSP de Adhemar de Barros, até chegar o golpe militar de 1964.

Dona Irany conta, aflita com as lembranças, quando Conrado foi preso pelos militares. “Ele estava com o filho no Sindicato. Os soldados os levaram todos presos! Depois dois soldados vieram até em casa e pediram para ir buscar o Farley (filho), que ele não podia ficar lá. Foi tão ruim que nem gosto de lembrar”, assinala. A filha Fárida completa. “A mãe nem viu o pai. Deixaram ela em uma sala, e foi difícil trazer meu irmão, que chorava e dizia que estavam batendo no pai”, recorda. A família demorou meses para rever Conrado, que foi enviado para Florianópolis, depois Rio de Janeiro, até ser liberado. A acusação era de associação ao comunismo, coisa comum naqueles anos de chumbo. “A vida ficou muito difícil prá gente. Vendemos coisas para manter a casa”, revela Irany.

O medo foi companhia freqüente. A polícia invadiu a casa sem mandado, reviraram móveis, roupas íntimas, tudo que viam conta ela. “Procuravam não sei o que. Não diziam nada! E eu não sabia de nada disso, de comunismo, política. Isso não me interessava”, relembra dona Irany. A partir dessa época, diz ela, amigos e vizinhos abandonaram os Mira. “Ninguém queria falar comigo. Diziam que eu era comunista, pode? Nem brincar com meus filhos os outros pais deixavam. Temiam ser presos porque eu era vigiada”, fala emocionada. Até Conrado de Mira ser libertado, viveram também de compras em mercados que vendiam fiado.

Em meio aos móveis antigos, fotos da família e do casamento, Irany destaca o trabalho e a dedicação que o líder sindical à causa dos trabalhadores. “Ele trabalhava nessa mesa (indica sentada), dia e noite. Depois da sua prisão, ficou sem nada, sem emprego, sem vínculos com sindicatos, nada. Trabalhou como autônomo para manter a família, inclusive com o atual senador Luiz Henrique em seu escritório, até morrer”, enfatiza. A filha Fárida comenta que seu pai foi amado e odiado. “Uns diziam que era pelego, que defendia os patrões. Outros que era governista. Mas o fato é que ele defendia as suas convicções, no caso do trabalhismo de Getúlio. E foi muito, muito injustiçado”, defende. De um lado, empresas e empresários não gostavam por sua ativa defesa dos trabalhadores. De outro, os trabalhadores que achavam que seus direitos não eram defendidos. Não era possível agradar a todos.

“Olha, o que eu via era que muitas pessoas vinham trazer galinha, pato, aipim, cará, tudo já limpo em agradecimento pela vitória com o trabalho de Conrado. Eu nunca entendi porque um homem que fez tanto por tanta gente foi tao atacado. Até quando a filha nasceu ele estava fora, no Rio de Janeiro”, explica dona Irany. Conrado de Mira foi o grande articulador do movimento sindical joinvilense durante quase 40 anos. Aos poucos os sindicatos foram se desmembrando e seus dirigentes passaram a administrar suas estruturas próprias, oferecendo gradativamente assistência aos sócios e trabalhadores.

Morto aos 77 anos de infarto fulminante em 1981 – “dormiu e não acordou, relata a viúva Irany” -, seu corpo descansa no cemitério municipal próximo da escadaria que leva ao alto da cruz. Como única homenagem, seu nome está em uma rua no bairro Costa e Silva, por onde passam diariamente milhares de trabalhadores que desconhecem quem é o personagem com o nome dependurado em um poste. Ignoram a história do desbravador do movimento sindical que ajudou a consolidar os direitos básicos dos trabalhadores. Nos arquivos depositados no Arquivo Histórico com milhares de documentos e boletins informativos dos tempos em que sequer se imaginava o aparato tecnológico dos dias atuais com internet, jornais on-line, e estruturas de comunicação e de apoio aos trabalhadores, estão muitas lições aos atuais e futuros líderes sindicais. Um legado de respeito e indispensável para entender o mundo do trabalho”.

Morre Maria Laura Eleotério – Homenagem do Blog com o seu perfil, sua história

Maria Laura marcou época por suas posições fortes na educação, política e no movimento afrodescente

Acabei de receber a notícia da morte da sempre professora e diretora da Escola Básica João Colin, no bairro Itaum em Joinville (SC), Maria Laura Cardoso Eleotério, que também se notabilizou por ações junto ao movimento afro, no sesquicentenário da cidade, deixando marcas importantes para a sociedade. Tive o prazer de conviver com ela na política – quando assessor – e vivenciei a sua luta pelas mulheres, pelo movimento afro, sempre batendo de porta em porta, buscando apoios, recursos, e fazendo acontecer.

Escrevi seu perfil, um pouquinho da sua grande história, para o jornal Notícias do Dia. A matéria foi publicada no final de 2011. Nossa conversa foi longa, fui recebido com café, bolo, refrigerante, e muito carinho. Ela tinha muito orgulho dos seus feitos, e sempre estava maquiada, arrumada e perfumada. Para tirar a sua foto, a editora Loreni Franck teve de batalhar muito! Mas, ao final, conseguimos fazer e marcar a trajetória dela na educaçao e na vida comunitária. Com certeza ao lado do Criador, ela vai continuar a contribuir com boas energias para um mundo mais justo, solidário e humano. Aos seus familiares, os meus sinceros sentimentos. E para os leitores do Blog, segue o texto original que foi para o Notícias do Dia. Confiram, pois essa é a homenagem que o Blog presta a Maria Laura:

“Uma negra de fibra, baluarte da educação e do movimento afro”

Ela foi aluna dedicada, e depois professora exigente, diretora competente e fazia até o papel de polícia quando preciso para defender seus alunos da Escola Básica João Colin, onde trabalhou entre 1958 e 1987 e na qual foi diretora por 25 anos. Atuante nos bastidores da política, chegou a ser candidata ao senado como suplente em 2006. Não bastasse isso, fundou o Instituto Afro Brasileiro de Joinville para resgatar e manter viva a cultura dos afro descendentes do município que já teve a grande maioria da sua gente da raça alemã, suíça, norueguesa quando da imigração que formou a cidade. Essa é Maria Laura Cardoso Eleotério, 72 anos de vida de luta desde o Bucarein, onde nasceu.

Um pouco abatida pelo diabetes e um AVC, Maria Laura concedeu a entrevista na mesma casa em que nasceu, e mora até hoje. Mais magra, e com voz mais baixa, ela mantém a elegância que sempre a marcou, e se orgulha dos feitos como professora, diretora e fundadora do Instituto que ainda é presidente, mas que está passando o bastão para a filha e também professora Mariane Acácia Eleotério. O filho Edmilson é eletricista e funcionário público, e a filha mais nova, Biana, logo se forma em direito. “Eu nasci aqui, mas vivi muito junto da minha mãe lá no Palácio – onde hoje é o Museu da Imigração na rua Rio Branco -, já que ela era cozinheira da casa”, observa ela.

O pai morreu quando ela tinha apenas três anos. Logo cedo a menina Maria Laura foi estudar no colégio Rui Barbosa, onde as lendárias professoras Erondina Vieira e Maria Amin Ghanem marcaram época. Começou a trabalhar aos 14 anos, na biblioteca e já lecionando, substituindo uma professora. “Eu queria trabalhar, ter meu dinheiro. E queria comprar três coisas com meu salário: um batom, um sapato de salto alto e um óculos”, conta a ainda vaidosa senhora. Dava aula para turma de repetentes e outra turma melhor, diz. “Sou grata a essas professoras, pois na época só podiam dar aulas as concursadas, e elas ficaram firmes e me mantiveram”, destaca.

O Colégio João Colin entrou na vida de Maria Laura em 1958, quando segundo ela, a professora Lacy Cruz Flores veio para o Rui Barbosa e ocupou a vaga. “Devo também a dona Erondina a vaga no João Colin. Em 1962 assumi a direção e só parei em 1987. Fui eleita três vezes pela comunidade, votada”, comenta a educadora. Ela lembra das várias conquistas da sua gestão, como segundo grau, a quadra de esportes e outros. “O João Colin foi considerado o melhor colégio, tinha os melhores professores, muitos profissionais e lideres foram forjados lá”, diz orgulhosa Maria Laura. Nem as dificuldades com drogas e marginalidade que rondavam a escola nem o incêndio que a atingiu reduziram a vontade da diretora. “Sempre combati, e quem fez já pagou pelo que fez”, afirma.

Depois de aposentada, passou um tempo na praia em Ubatuba, e quando voltou criou o Instituto Afro Brasileiro de Joinville no sesquicentenário da cidade. A igualdade e oportunidade para os afros passaram a ser mais ainda a sua bandeira. Até hoje há atividades, e dona Maria Laura não descuida de nada. “Fizemos grande trabalho, são 45 mil negros na cidade, fizemos intercâmbios sociais, criamos o Museu da Mulher, enfim, muita coisa. Agora minha filha vai assumir e continuar a luta”, explica Maria Laura. Ela guarda fotos, placas, documentos e vídeos desse trabalho, lembra de cada um dos momentos. Jandira Reschiliani, 65 anos, é ex-aluna e exalta a mestra: “Ela ajudou muita gente, de forma desprendida, e até minha filha foi aluna nos tempos dela”, confirma. Agora chegou a hora de Maria Laura Cardoso Eleotério descansar, e receber as homenagens merecidas. Quem se habilita?”

Crônica da talentosa Vanessa Bencz: Sobre ser repórter

Recebi um chamado da jornalista, e recém-premiada com apoio do Simdec para lançar um livro, a jornalista Vanessa Bencz, via twitter para ler seu texto. Achei ótimo, forte, sincero, e reproduzo aqui sob permissão dela. Parabéns, compartilhar nossos momentos da profissão ajuda a nos humanizar um pouco, nos retirando do alto do pedestal em que por vezes nos colocam, ou que alguns se auto-colocam. Boa leitura aos leitores do Palavra Livre:

“Sobre ser repórter”
“Ao me aproximar do entrevistado, percebi que ele se arrumara especialmente para a entrevista. Camisa branca, bem passada. Cabelos penteados com pente de cerdas finas. Havia feito a barba naquela manhã. Estava muito cheiroso. Me aguardava na recepção do jornal com um sorriso sincero. Foi impossível não sorrir de volta. Assim começou a apuração da matéria que mais me marcou, nestes três anos de reportagem. André, 33 anos, é portador de uma doença degenerativa que o mantém eternamente sentado sobre uma cadeira de rodas. Neste dia, eu chorei duas vezes. Uma, pela história de vida do rapaz. Outra, por não ter conseguido levá-lo para conhecer o jornal por dentro – um degrauzinho de 20 centímetros impediu que conseguíssemos levá-lo para o interior da empresa. Senti vergonha por isso.

Este dia me marcou não apenas porque guardei André no coração. Registrei esta data porque foi a primeira vez que olhei meu reflexo no espelho e me senti grata por, cinco anos atrás, ter escolhido jornalismo como minha primeira opção no vestibular. Desde então, eu havia me decepcionado com o curso, me tornado uma universitária rebelde e havia lamentado para todos os ventos o piso salarial baixo. Ao me despedir de André, tratei de não calar aquela desconfiança que, de quando em quando, falava baixinho no meu ouvido: talvez jornalismo não seja tão ruim. Talvez a reportagem seja uma estratégia para dar voz aos que não tem. Talvez eu possa fazer muito como repórter. Talvez eu me divirta muito como jornalista. Talvez eu mude alguma coisa com a minha profissão.

Aos 18 anos, preenchi o quadradinho ao lado da palavra “jornalismo”, no ato da inscrição do vestibular. Mas eu não fazia a mínima ideia do que era ser jornalista – e acho que os vários estudantes que rabiscam o mesmo quadradinho, ano após ano, também não fazem. Ser jornalista é um mistério; cada um encontra um tesouro diferente. Não é objetivo como ser advogado, médico ou sacerdote. Ser jornalista é ser os entrevistados, as fontes e os adjetivos. É ser literatura, denúncia e relato. É encontrar seus Andrés e, com emoção, transformá-los em palavras, vírgulas e orações.

Hoje, com um livro de contos para sair do forno, concluo que a minha melhor forma de relatar o mundo é através de uma literatura que melhoro a cada dia, a cada André, a cada passo mais perto da naturalidade em ser um repórter cansado com um crachá balançando na barriga.”

Perfis: Valdir Moreira, o Betara – Futebol amador e sindicalismo no sangue

O sonho dele era ser jogador de futebol profissional, mas o destino o levou ao trabalho como torneiro mecânico e, finalmente, o sindicalismo. Valdir Moreira, 63 anos, é desconhecido para a grande maioria, mas o Betara, apelido e nome de guerra desde a infância – “é nome de peixe, mas nem meu pai sabia por que o chamavam assim também” -, é figura carimbada nas portas das fábricas entregando jornais, discursando em cima de caminhões de som, ou simplesmente conversando com trabalhadores e trabalhadores nas madrugadas, dividindo o café das garrafas térmicas com seus companheiros de luta.

Caxiense de coração – “coisa de família, desde pequeno” – pois nasceu na avenida Getúlio Vargas, ao lado do antigo campo do São Luiz (hoje existe o Elias Moreira no terreno), também tem paixão pelo Flamengo do Rio. Com dois anos Betara foi para a avenida Cuba, lendária região do Bucarein que foi celeiro de grandes craques do futebol joinvilense como Piava, Correca, Orlando, Tete, Giga, Helio Sestrem, Canã, Paca, Vieira e tantos outros, segundo elenca o ex-jogador de futebol amador, hoje avô de cinco netos, pai de quatro filhos com a esposa Erna, uma união que já dura quase quatro décadas.

O guerreiro atarracado, cabelos brancos e andar rápido com a inseparável pochete, lembra com saudades daqueles tempos. “Me criei jogando bola no campo do Santos, do Estrela. Vivia na casa de dona Amélia e seu Alemão, pais do Giga, Tite e Orlando, pessoas que reverencio e tenho saudades”, fala Betara. A família Moreira tem estreita ligaçao com o futebol. Jurandir Moreira, grande centroavante que jogou na Tigre, é seu primo. Betara buscou seu sonho no futebol. Jogou no Santos da avenida, Fluminense do Itaum, Juventus do Iririú, Tigre, Baependi de Jaraguá do Sul e Caxias, onde foi campeão do torneio Vera Fischer. “Jogava bem, mas não tinha cabeça. Larguei tudo e fui trabalhar como torneiro mecânico”, conta. Bola, só nas peladas das empresas e em veteranos.

Se o futebol perdeu um craque – “a turma dizia que eu jogava bem” – o sindicalismo ganhou uma liderança forte. Betara começou a trabalhar na Oficina do Jaci, foi para São Paulo trabalhar na oficina do primo. Voltou e serviu o exército, período em que jogou no extinto Guarani. Fundemaq, Kawo, Embraco, Granalha de Aço e Wetzel Tecnomecanica foram outros empregos até se aposentar, aí já alinhado ao Sindicato dos Mecânicos. “Sempre fui contestador. Uma vez demitiram colegas injustamente. Fizemos greve, e eles foram reintegrados. O Dentinho e o João Batista me colocaram na diretoria, e estou até hoje na luta”, afirma Betara.

Ele foi pegando gosto pela atividade. Em defesa dos direitos dos trabalhadores participou de várias greves, paralisações. Foi até da executiva da Central Única dos Trabalhadores (CUT), entre 1995 e 98, morando em Florianópolis. “Viajei o país inteiro, fazendo política sindical. Conheci o Lula nos eventos nacionais da categoria, tenho orgulho dessa trajetória”, comenta feliz. A morte do pai, e o roubo de todos os pertences da sua casa, no Costa e Silva, o fizeram voltar para Joinville. Combativo, não poupa nem colegas quando entende que há o que discutir em favor dos trabalhadores. “Eles me respeitam”, explica, agradecendo especialmente ao atual presidente João Bruggmann, que o trouxe de volta para a direção.

Após quase 20 anos no sindicalismo, ele busca filiados para o Sindicato todos os dias. Conta que há filiados em 400 das 700 empresas da categoria. Cheio de fotos da sua história, Betara diz lamentar que os campos de futebol do São Luiz, do Santos e outros tenham sumido. “Neles é que se criavam os craques, é uma tristeza, uma decepção”. Sobre a data de parada, ele prefere não comentar, mostrando apreensão. “Estar aqui é um orgulho, uma emoção muito grande, eu amo isso aqui. Marcou minha vida”, conta emocionado, para encerrar dizendo que não tem nada melhor que conversar com os trabalhadores no dia a dia e ajudar. “Sindicalismo e futebol é assim, depois que se conhece e participa, é difícil de largar”.

* publicado na seção Perfil do Jornal Notícias do Dia Joinville – Maio de 2011