Chile lembra 39 anos da morte de Allende e da ditadura Pinochet

Desde a noite de segunda-feira (10), o governo já registrou manifestações em bairros e escolas e prendeu 27 manifestantes que homenageavam as vítimas da ditadura de Augusto Pinochet (1973 – 1990).

As manifestações ocorrem em um momento em que aumentam as denúncias dos abusos doscarabineiros (polícia militar do país) contra manifestantes, enquanto algumas autoridades tentam aprovar uma lei para criminalizar protestos. No início do ano, o Conselho Nacional de Educação aprovou uma controversa medida substituindo o termo “ditadura militar” por “regime militar” nos livros escolares para se referir ao governo de Pinochet.

Segundo críticos da administração de Sebastián Piñera, a atual democracia chilena ainda possui muitos resquícios do regime ditatorial de Pinochet. “A repetição dos casos e o surgimento de denúncias contendo novas modalidades de abuso nos faz pensar que chegamos a um momento limite, onde já não basta que as autoridades falem em sanções e investigações, é preciso haver uma profunda mudança de postura de atuação policial”, disse a presidente do INDH (Instituto Nacional de Direitos Humanos), Lorena Fries.

Por conta da data, os carabineiros enviaram nesta terça (11/09) mais de mil oficiais às ruas chilenas e inauguraram veículos equipados com câmeras de segurança e outros aparatos tecnológicos, que custaram 180 milhões de pesos chilenos (765 mil reais).

O chefe da Zona Metropolitana dos carabineiros, Luis Valdés, em Santiago explicou que o efetivo policial deve assegurar a ordem e reprimir qualquer manifestação violenta. O militar lembrou que, nas comemorações do ano passado, 103 pessoas foram presas apenas na capital chilena e em todo o país, houve 161 detidos.

Os ativistas prepararam homenagens ao ex-presidente Salvador Allende, morto no golpe do dia 11 de setembro de 1973, e às milhares de vítimas da ditadura militar. Como fazem todos os anos, eles deixam flores em frente ao monumento do ex-presidente, em frente ao palácio presidencial.

Além disso, marchas pelas ruas das cidades chilenas também são esperadas. Na noite de segunda-feira (10), mais de 50 pessoas protestaram em frente a uma delegacia e bloquearam o trânsito em Santiago.

Um dos principais protestos em lembrança ao período ditatorial aconteceu, no entanto, no domingo (09) quando milhares de chilenos tomaram às ruas da capital em memória aos detidos e desaparecidos.

Carregando cartazes, bandeiras chilenas e do Partido Comunista e gritando palavras de ordem, os manifestantes caminharam até o cemitério geral, onde está localizado o Memorial do Detido Desaparecido e Executado Político, que lembra as vítimas do regime militar. “Marchamos para lembrar aqueles que perderam suas vidas durante a ditadura cruel de Pinochet”, disse Carolina, uma das manifestantes que carregava a foto de um familiar desaparecido durante os 17 anos de ditadura.

Segundo organizações não-governamentais, a ditadura de Pinochet deixou mais de 3 mil mortos e 37 mil vítimas que sofreram prisões e torturas.Os tribunais chilenos mantêm abertas 350 ações judiciais por desaparecimentos, torturas, prisões ilegais ou conspirações que datam do período ditatorial e envolvem cerca de 700 militares e agentes civis.

Opera Mundi

Araguaia: Grupo de Trabalho retoma atividades hoje (11/6)

Integrantes do Grupo de Trabalho Araguaia (GTA) viajaram ontem para Xambioá (Tocantins), a fim de retomar os trabalhos de busca por desaparecidos da Guerrilha do Araguaia. As escavações no cemitério de Xambioá, paralisadas por causas das chuvas em outubro do ano passado, serão retomadas hoje, com término previsto para o dia 20 deste mês.

O GTA, que teve suas atividades prorrogadas por dois anos pela Portaria Interministerial 1.102, de 5 de junho último, foi criado por determinação da 1ª Vara Federal de Brasília. Na sentença, a Justiça estabelece que todos os esforços devem ser feitos pelo Poder Público com o objetivo localizar, recolher e identificar os corpos de guerrilheiros e militares mortos no episódio conhecido como Guerrilha do Araguaia, movimento que atuou entre as décadas de 1960 e 1970 no norte de Goiás (área hoje pertencente ao Tocantins), do Pará e Maranhão.

O grupo é composto por membros dos ministérios da Defesa e da Justiça, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Advocacia Geral da União, Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, do Departamento de Polícia Federal, da Polícia Técnico-Científica dos estados de Goiás e do Distrito Federal e de universidades federais e estaduais. Os trabalhos são acompanhados por representantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e por familiares de desaparecidos da guerrilha, além de um membro do Ministério Público Federal.

Para realizar o trabalho, o grupo busca informações de testemunhas – pessoas que viviam ou ainda vivem na área e de dados contidos em relatórios técnicos elaborados por expedições que antes visitaram a região. A equipe também checa dados disponíveis na literatura sobre o assunto, especialmente em livros, reportagens e publicações existentes em bibliotecas, órgãos públicos e empresas privadas.

Síria: perigo de guerra civil aumenta após massacre de Houla

O correspondente da BBC Paul Wood, que passou as últimas três semanas na Síria, sem se identificar como repórter, diz que a ameaça de guerra civil está aumentando no país. “Deus irá se vingar por nós” é uma declaração ouvida com frequência em vilarejos sunitas nos arredores de Homs, entre pessoas que se sentem enfraquecidas, desesperadas e amargas. A situação ainda não se tornou uma guerra entre vizinhos e vilarejos ou da maioria sunita contra a minoria governante alauíta e seus aliados xiitas e cristãos, mas as perdas em diversas comunidades podem fazer com que isso aconteça.

O massacre de Houla foi diferente em escala – mas não em natureza – do que tem acontecido nesta região da Síria durante todo o ano. O padrão: o exército bombardeia uma área controlada pelos rebeldes e, em seguida, o grupo paramilitar alauíta “shabiha” chega ao local, cortando gargantas.

Quando começamos a ouvir histórias de pessoas sendo “abatidas como ovelhas” – há muitos meses – elas pareciam fruto de histeria e depois seriam consideradas como propaganda da oposição. Mas há muitos corpos com essas marcas e muitas testemunhas oculares desses crimes.

No último mês de março, eu falei com um homem que descreveu o momento em que se escondeu em um campo e assistiu membros de sua família serem mortos. Os soldados e a shabiha os prenderem no chão, com botas em suas costas e facas em suas gargantas. Houla foi terrível, mas não foi a única.

Linhas de batalha
Frequentemente, quando uma área sunita é atacada, os shabiha vêm dos vilarejos xiitas e alauítas. Ativistas pró-democracia acusam o regime de recrutar esquadões de morte como esse para alimentar o ódio sectário. Dessa maneira, dizem, as minorias que agora apoiam o presidente Bashar Al-Assad irão temer que o mesmo aconteça com eles caso o abandonem. Mas também há vingança dos sunitas. Membros das shabiha capturados são executados pelos insurgentes armados do Exército Livre Sírio. Eu fui informado disso diversas vezes por combatentes rebeldes.

Mas ainda não é o caso de vilarejos inteiros sendo massacrados simplesmente porque pertencem a um grupo. E as linhas de batalha ainda não são puramente sectárias. Do lado do governo ainda há muitos membros sunitas do Exército, a maioria. Na shabiha também há sunitas. Do lado rebelde também há alguns cristãos e alauítas. O risco de eventos como o que aconteceu em Houla farão com que as pessoas se retraiam ainda mais em suas próprias comunidades. O regime já retrata o levante popular como a voz de uma classe baixa sunita.

Reclamações

Paul Wood na Síria em fevereiro. | Foto: BBC

Om Omer, uma refugiada e mãe de seis filhos, falou para mim sobre as queixas sunitas quando a encontrei deixando Homs. Ela se perguntava o que havia acontecido com seu marido, mas assumiu que ele foi morto pela shabiha. Ela contou também como era sua vida antes do levante.

“Meu marido é um trabalhador. Se ele trabalhava, nós comíamos. Se ele não trabalhava, passávamos fome. Já lutávamos uma guerra com a vida, antes da guerra com Bashar Al-Assad. O grupo deles (os alauítas) está satisfeito. O nosso (os sunitas) está faminto.”

É este sentimento – tanto quanto ideais sobre a democracia – que sustenta o apoio ao Exército Livre Sírio. Em todos os lugares onde fui, na última viagem à Síria, ouvi reclamações contra a minoria alauíta. O risco é que toda a comunidade alauíta seja punida pelos pecados do regime.

Diversos voluntários do exército rebelde me disseram que estão lutando por uma democracia secular e aberta. Mas outros disseram que querem matar alauítas e xiitas. “Só aqueles que têm sangue nas mãos”, dizem outros.

o grupo está se mantendo por pouco, sob a enorme pressão das forças do governo. Combatentes estão vendendo sua mobília para comprar balas. Mas os sunitas são a imensa maioria na Síria. Se o conflito se tornar simplesmente sectário, a vantagem em números estaria com os rebeldes.

Ainda não estamos nesse ponto, mas a atmosfera é mais ameaçadora do que jamais foi. Em minhas muitas visitas à Síria e à região de Homs nos últimos oito meses, os sunitas que participam do levante popular negavam que um banho de sangue sectário algum dia aconteceria na Síria. “Isto é o Iraque, não nós”, as pessoas me diziam. “Não há tradição disso aqui.” Mas na última viagem eu conheci um ativista que também dizia isso, mas não diz mais. “A guerra civil começou. No futuro, olharemos para o momento de hoje e diremos que foi aqui que começou.”

Da BBC Brasil