Perfis: Marilda Oliveira Ramos – “Minha vida é a escola”

Ela foi aluna de professoras que marcaram história em Joinville, como Herondina Vieira, Ady Lopes dos Santos e Lia Jardim, profissionais em quem se espelhou para fazer o melhor na educação, onde queria atuar desde que se deu por gente. Marilda de Oliveira Ramos é talvez a recordista em tempo de trabalho na área, e principalmente na direção de escola. Há 45 anos ela é professora, e há 43 dirige a escola municipal Heriberto Hülse no bairro Boa Vista. Nascida em Brusque, ela é fruta que não caiu longe do pé, pois os avós, a mãe, irmãos são professores, e até os dois filhos também dão suas aulinhas.

“Minha vida é a escola”, afirma Marilda com convicção e alegria que passa pelos olhos azuis. Ela conta que começou a trabalhar na escola quando se denominava Júlio Machado da Luz, na gestão do prefeito Nilson Bender em 1966. Tinha 18 anos. Morava no Glória e estudava no colégio Celso Ramos. O trajeto era feito de bicicleta. Marilda lembra que foi surpreendida quando Iraci Schmidlin, então secretária de educação, avisou a ela que iria assumir a direção da escola. “Dona Iraci Schmidlin me comunicou. Eu fiquei super-nervosa. Imagina, tinha apenas 19 anos. Mas ela disse que conhecia minha família e acreditava na minha competência”, fala a diretora.

A transição foi complicada, mas ela não esmoreceu. Com muito tato e fé em Deus, segundo ela, foi compensando a falta de experiência com muita presença na escola. “Meu marido me apoiou muito. Ele ficava com os filhos, levava na creche, tudo. Assim fui conquistando a equipe, e estou aqui até hoje”, explica Marilda, reafirmando que faria tudo novamente se fosse preciso. Naquele tempo só havia ônibus e hora em hora, a rua Albano Schmidt era de chão batido. “Seu Moreira, o motorista, esperava os professores para tocar em frente”, comenta. Formou-se em pedagogia na primeira turma da faculdade do Guimbala – atual Associação Catarinense de Ensino – em 1974.

Em 1996 aposentou com 30 anos de serviços prestados no magistério, mas o destino a colocou novamente frente a frente com Iraci Schmidlin, novamente secretária de educação, agora no governo de Wittich Freitag. “Ela me convenceu a fazer novo concurso, e passar bem. Fui a quinta colocada. Assim que foi homologado o concurso, ela me nomeou novamente professora, e a seguir, diretora na mesma escola”, relembra. Marilda sobreviveu a vários administradores públicos desde o fim da década de 1960. Nilson Bender, Harald Karmann, Pedro Ivo, Luiz Henrique, Freitag, Luiz Gomes, Freitag, Luiz Henrique, Tebaldi e agora Carlito Merss foram os Prefeitos. Como superou as nuances da política? “Defendo a educação, e trabalhei duro, honestamente. Essa foi a receita. Nunca pedi para ficar”, conta.

Dos tempos em que começou a lecionar, a diretora diz que o que mudou muito foi a família. Segundo Marilda, a desestruturação familiar atinge a educação, já que os pais estão cada vez mais sem tempo para participar da vida dos filhos, há separações, mudanças nas relações familiares. Outra situação é a tecnologia, que desafia os professores. “Antes a professora ensinava o aluno a pegar o lápis, quando iniciava na escola. Hoje a criança tem acesso à internet, muita informação, são muito criativas, sabem de tudo. O professor tem de correr atrás, e é isso que fazemos aqui na equipe”, ensina. A escola mantém um blog no endereço www.emheribertohulse.blogspot.com para interagir com alunos, pais e comunidade.

A escola, que já teve mais de mil alunos na década de 1970, conta com 430 crianças em dois turnos, além de funcionar à noite com turmas da Educação de Jovens e Adultos e do Pró-Jovem. Marilda se orgulha do trabalho, que exerce com paixão. Para ela o olhar da criança, o abraço diário, a vivencia na escola não tem preço. “Não me vejo fora daqui. É difícil desapegar. Eu me preparo há três anos para isso, mas é complicado. Moro aqui perto, venho de carro para ajudar em alguma emergência. Ainda quero construir a quadra coberta, é meu sonho. Aí quem sabe, eu paro”, fala entre risadas. O sombreiro e o fícus plantados há 40 anos, comunidade, ex-alunos, professores, ex-professores são testemunhas dessa história de amor pela educação.

* publicado na seção Perfil do Jornal Notícias do Dia Joinville no mês de maio de 2011.

Autor: Salvador Neto

Jornalista, escritor, e consultor. Editor do Palavra Livre, apresentou o programa de entrevistas Xeque Mate na TV Babitonga Canal 9 da NET entre 2012/2014 e vários programas de rádio em SC. Tem mais de 30 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011) e Gente Nossa (2014). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde é membro fundador e foi diretor de comunicação. Como freelance, escreve para vários veículos de comunicação do país.

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